Sinergias Nº19

O poder das expressões artísticas e estéticas em processos educativos para a transformação social

 

 

 

 

 

 

 

La trahison des images (1929), René Magritte

 

Deparamo-nos, muitas vezes, com obras de arte que permanecem inscritas na nossa retina muito para além do primeiro encontro. La trahison des images (1929), de René Magritte, é uma delas. A célebre afirmação “Ceci n’est pas une pipe” confronta-nos, desde logo, com uma rutura entre aquilo que observamos, o que designamos e aquilo que efetivamente será. Ainda que a arte se revista sempre de subjetividade, o quadro não apresenta um cachimbo, mas uma representação deste objeto.

Este desfasamento, instiga-nos, inevitavelmente, a questionar convicções, a dissolver crenças tidas como inabaláveis, a convocar outras perspetivas e a acolher diferentes pontos de vista, num movimento de reflexão, reconstrução e transformação da(s) realidade(s). Não será precisamente neste gesto e posicionamento que a Arte se aproxima do papel da Educação?

Se nos permitimos afirmar inequivocamente que, nos tempos em que vivemos, educar necessita de se afastar de uma abordagem estritamente conteudista e academicista, então educar não é transmitir o mundo tal como parece ou deve ser. Educar não implicará, antes, criar e desbravar caminhos para que cada um de nós o questione, o interrogue e o reconstrua a partir dos seus olhares e experiências, numa aproximação com valores éticos e cívicos, ancorados numa humanidade comum e partilhada?

Tal como Magritte desarticula a ilusão e a “traição” da imagem, a Educação, quando verdadeiramente emancipatória, rompe com leituras e visões simplistas, redutoras e superficiais das múltiplas realidades, desmantela as narrativas dominantes e desafia o status quo. Abre e inflama espaços de problematização, investigação e envolvimento ativo de cidadãos: alunos, professores, membros da comunidade educativa e sociedade civil, em diálogos para a transformação social. É nesse horizonte que esta Revista encontra o seu lugar e o seu sentido, assumindo a Educação para o Desenvolvimento e a Cidadania Global (EDCG) como seu âmago.

Neste número, reitera-se “O poder das expressões artísticas e estéticas em processos educativos para a transformação social” no contexto da Educação Formal, como palco onde se ensaiam, esboçam, esculpem e projetam outras formas de aprender, expressar, dialogar, cogitar e agir, tendo como matéria-prima uma educação comprometida com a cidadania, o respeito pela diversidade, a justiça, a equidade e os direitos humanos.

De forma a ilustrar esta visão, neste número a secção Caderno Temático reúne seis artigos científicos que, a partir de diferentes contextos, tempos e linguagens, interrogam o papel das artes na educação e nas práticas educativas transformadoras.

Abrindo o Caderno Temático, em Entre o currículo e a utopia: a educação artística como espaço de aprendizagem e transformação social em Portugal (1925–2025), Helena Cabeleira convida-nos a uma leitura histórica e crítica de um século de educação artística em Portugal, dando a ver os ciclos de invisibilização e exaltação das artes no currículo e defendendo o seu lugar numa educação democrática, humana e plural.

No artigo Pedagogias artísticas multilingues na formação docente para a cidadania global, Mónica Lourenço evidencia, a partir de um estudo de caso na formação inicial de professores/as de inglês, como as pedagogias artísticas promovem reflexão crítica, valorização da diversidade linguística e cultural e práticas educativas mais justas, inclusivas e eticamente comprometidas com a cidadania global. 

A partir de um contexto local, Raízes – Canções feirenses: um projeto de recuperação cultural a partir do contexto escolar, de Tiago da Hora e Nuno Pinho, dá a conhecer um projeto que articula investigação, ensino e prática artística, afirmando a escola como espaço privilegiado de preservação da memória coletiva e de transformação social.

Focando a participação juvenil, o artigo Narrativas visuais como meio de ativismo juvenil, de Benedita Loureiro e Pedro Reis, explora as potencialidades educativas das narrativas visuais no desenvolvimento de competências de cidadania ativa, demostrando como a criação de bandas desenhadas com ferramentas digitais articula educação artística, tecnologias digitais e educação para a cidadania para envolver jovens de forma crítica, criativa e participativa.

A encerrar o Caderno Temático, A fruição da obra de arte na era digital, de Venise Melo, analisa os desafios que as tecnologias digitais colocam ao ensino das artes visuais e defende, a partir de um enquadramento teórico e crítico em Ciência, Tecnologia e Sociedade e Educação para a Transformação Social, a reinvenção de práticas pedagógicas que entendam a arte como mediação social e oportunidade para repensar o seu lugar na escola contemporânea.

Na secção Práticas, cinco textos aproximam-nos de experiências educativas onde as artes se afirmam como dispositivos de inclusão, participação e transformação.

Em Teatro e Perfil dos Alunos numa escola pública, Sílvia Marques e Pilar Gomes apresentam um projeto de expressão dramática que, ancorado no Perfil dos Alunos à Saída da Escolaridade Obrigatória, promoveu a criação coletiva de uma peça de teatro e revelou impactos no desenvolvimento académico, socioemocional e na consciência da agência individual e coletiva.

No texto Redesenhando percursos: a educação com artes como estratégia para reintegrar jovens em situação de abandono escolar, Rita Oliveira partilha uma prática numa Escola de Segunda Oportunidade, mostrando como o teatro, a dança, o malabarismo e a música podem mediar aprendizagens significativas, ressignificar trajetórias e promover inclusão, participação e transformação social.

Em Música, comunidade e transformação, Manuel Oliveira apresenta o projeto “Rock na Escola”, que envolve toda a comunidade escolar na promoção do bem-estar, da inclusão e da participação através da música, evidenciando mudanças nas relações e no clima escolar e reforçando práticas educativas mais humanas, solidárias e participativas.

Na prática Laboratórios Pedagógicos EDxperimentar – a importância das expressões artísticas e estéticas nas práticas educativas de EDCG em escolas de quatro territórios de Portugal, Eva Jesus, Filipe Martins, Laure De Witte, Graça Rojão, Hugo Cruz Marques, Jorge Cardoso, Maria Ressano Garcia e Sara Borges apresentam o projeto EDxperimentar que evidencia a importância das práticas artísticas enquanto elemento metodológico facilitador de aprendizagens em contexto escolar, destacando o seu contributo para a experimentação pedagógica, a reflexão crítica e a construção coletiva de caminhos orientados para o bem comum e a justiça social.

Em Metáforas visuais para tempos digitais: a ilustração como prática pedagógica crítica, Cristina Domínguez-Iglesias e Hugo Maciel apresentam uma prática no ensino superior centrada na criação de metáforas visuais sobre hiperconectividade digital, convidando os estudantes a problematizar vigilância, consumismo e alienação, evidenciando o potencial das artes para literacia digital, pensamento crítico e cidadania global.

Segue-se a secção Debate, que acolhe o texto O digital é coisa para menin@s: arte multimédia, Internet, educação e igualdade de género, de Teresa Veiga Furtado, que reflete sobre a não neutralidade do digital e as desigualdades de género que nele se reproduzem. A partir do cruzamento entre arte, tecnologia e educação, o texto afirma o potencial das práticas artísticas e educativas como espaços de questionamento, resistência e transformação social.

Na secção Documento-Chave, é apresentada a Estratégia Nacional de Educação para o Desenvolvimento 2025-2030 (ENED 2025-2030), recentemente aprovada. Este documento estabelece o quadro estratégico nacional para a Educação para o Desenvolvimento no período de 2025 a 2030, dando continuidade ao compromisso político assumido por Portugal desde 2010 e reforçando a centralidade da educação na construção de sociedades mais justas, inclusivas, solidárias, sustentáveis e pacíficas.

A secção Publicações Recentes reúne um conjunto diversificado de sete recursos que enriquecem o campo da Educação para o Desenvolvimento e da Cidadania Global, incluindo Kit de ferramentas de Improvisação para educadores; Guia de Boas Práticas e Recursos para a Educação para a Cidadania Global; doc.zha!; WEZU: sementeiras feministas pela paz em Moçambique; Percursos didáticos: Desigualdades mundiais | Migrações; Os restos de ontem – uma proposta pedagógica e Ciclo de Formação do Programa Ibero-Americano de Cidadania Global para o Desenvolvimento Sustentável.

Este número encerra com a secção Resumo Teses, onde se apresentam duas dissertações de mestrado: O impacto da arte como abordagem de educação para o desenvolvimento e cidadania global, de Beatriz dos Santos Salgueiro, e Igualdade de género no 1.º CEB: identificação e exploração de conceções de crianças do 2.º ano de escolaridade, de Camila Sá Rodrigues.

Fazemos votos de leituras que, à semelhança da obra de Magritte evocada no início deste editorial, nos desafiem a ver para além do evidente, a questionar o que nos é apresentado como dado e a imaginar, coletivamente, outras formas de educar e de transformar o mundo.

Pelo Conselho Editorial, 

Andreia Reis(1), Sara Monteiro(2) & Joana Costa(3)

 

(1) Instituto de Educação, Unidade de Investigação e Desenvolvimento em Educação e Formação da Universidade de Lisboa.
(2) Instituto Politécnico Jean Piaget do Sul / Insight – Piaget Research Center for Ecological Human Development.
(3) Centro de Estudos Africanos da Universidade do Porto (CEAUP).

Nome da Revista

“Sinergias – diálogos educativos para a transformação social”.

Propriedade

Centro de Estudos Africanos da Universidade do Porto (CEAUP) e Fundação Gonçalo da Silveira (FGS), no âmbito do projeto Sinergias ED: potenciar a capacidade transformadora das relações e aprendizagens colaborativas entre agentes de ação e investigação em Educação para o Desenvolvimento, cofinanciado pelo Camões – Instituto da Cooperação e da Língua e apoiado pela Reitoria da Universidade do Porto.

Periodicidade

Semestral.

Grafismo e Paginação

Megaklique e Cláudia Pereira.

Edição

Centro de Estudos Africanos da Universidade do Porto (CEAUP) e Fundação Gonçalo da Silveira (FGS).

Conselho Científico

Ana Dubeux (Univ. Federal Rural de Pernambuco. BR); Antónia Barreto (Escola Superior de Educação e Ciências Sociais – Inst. Politécnico de Leiria. PT); Carmen Rosa García Ruiz (Univ. de Málaga. ES); Dalila Pinto Coelho (Centro de Investigação e Intervenção Educativas – Univ. do Porto. PT); Elina Lehtomäki (Univ. of Oulu. FI); Filipe Martins (Centro de Investigação para o Desenvolvimento Humano – Univ. Católica Portuguesa; Rede Inducar. PT); Frances Hunt (Development Education Research Centre – Univ. College London. UK); Karen Pashby (Education and Social Research Institute – Manchester Metropolitan Univ. UK); Karla Del Carpio (Univ. of Northern Colorado. USA); La Salete Coelho (Centro de Estudos Africanos da Univ. do Porto e Escola Superior de Educação do Inst. Politécnico de Viana do Castelo. Portugal); Liam Wegimont (Global Education Network Europe. IE); Maria Helena Salema (Inst. de Educação – Univ. Lisboa. PT); Miguel de Barros (CESA – Centro de Estudos Sociais Amílcar Cabral. GW); José Nunes da Silva (Univ. Federal Rural de Pernambuco. BR); Oscar Jara (Centro de Estudios y Publicaciones Alforja. CR); Tania Ramalho (SUNY Oswego. USA; Univ. of Oulu. FI).

Conselho Editorial

Andreia Reis, Bernardo Providência, Graça Rojão, Joana Costa, Laure De Witte, Mónica Lourenço, Sara Borges, Sara Monteiro e Teresa Martins.

Avaliadores/as do presente número

Amanda Franco (Centro de Estudos Africanos da Univ. do Porto e Gabinete de Estudos para a Educação e Desenvolvimento da Escola Superior de Educação do Inst. Politécnico de Viana do Castelo, PT); Ana Bela da Conceição (Plano Nacional das Artes, PT); Ana Leonor Santos (Universidade da Beira Interior e Praxis – Centro de Filosofia, Política e Cultura, PT); Ana Margarida Vicêncio (PT); Ana Poças (Escola Superior de Educação de Paula Frassinetti, PT); Andreia Reis (Instituto de Educação e Unidade de Investigação e Desenvolvimento em Educação e Formação da Univ. de Lisboa, PT); António Ângelo Vasconcelos (Escola Superior de Educação do Inst. Politécnico de Setúbal, PT); Carlota Quintão (Centro de Estudos Africanos da Universidade do Porto, PT); Hugo Monteiro (Escola Superior de Educação do Inst. Politécnico do Porto; Instituto de Filosofia da Univ. do Porto, PT); Joana Costa (Centro de Estudos Africanos da Universidade do Porto, PT); Laure de Witte (Mandacaru – Cooperativa de Intervenção Social e Cultural, PT); Maria de Fátima Lambert (Escola Superior de Educação do Inst. Politécnico do Porto e inED – Centro de Investigação e Inovação em Educação, PT); Mónica Lourenço (Faculdade de Letras da Univ. de Coimbra, PT); Patrícia de Oliveira Ribeiro (Escola Superior de Educação Paula Frassinetti, PT); Rita Mouro (PT); Sandra Fernandes (PT); Sara Borges (Fundação Gonçalo da Silveira, PT); Sara Monteiro (Instituto Politécnico Jean Piaget do Sul / Insight – Piaget Research Center for Ecological Human Development, PT); Susana Réfega (PT); Teresa Martins (Escola Superior de Educação do Inst. Politécnico Porto, PT) e Thaís Marçon (PT).

Traduções, revisão gráfica e de textos

Andreia Reis, Bernardo Providência, Graça Rojão, Joana Costa, Laure De Witte, Mónica Lourenço, Sara Borges, Sara Monteiro e Teresa Martins.

ISSN

ISSN 2183-4687

Revista com arbitragem científica: os artigos são da responsabilidade dos seus Autores e das suas Autoras.

Números Publicados