Manuel Oliveira[1]Psicólogo Escolar no Agrupamento de Escolas Manoel de Oliveira.
Resumo:
Projeto artístico-educativo que promove a inclusão, o bem-estar e a participação através da música, envolvendo toda a comunidade escolar. Alinhado com os princípios da Educação para o Desenvolvimento e da Educação para a Cidadania Global, o “Rock na Escola” tem gerado transformações visíveis nos alunos e relações mais humanas e solidárias na escola.
Palavras-chave: Música; Educação; Comunidade; Inclusão; Participação; Cidadania Global; Transformação Social.
No Agrupamento de Escolas Manoel de Oliveira, no Porto, nasceu em 2021 o projeto “Rock na Escola”, uma prática de educação artística e comunitária que cruza psicologia, música e intervenção educativa, criando um espaço onde alunos, professores, assistentes operacionais e encarregados de educação se encontram em torno da música. Este projeto parte do reconhecimento da escola como espaço de convivência, cidadania e desenvolvimento integral, alinhando-se com os princípios da Educação para o Desenvolvimento e da Educação para a Cidadania Global (ECG), ao promover o respeito, a solidariedade e a participação ativa na comunidade.
O projeto é coordenado por um psicólogo escolar com percurso musical ativo e formação em intervenção comunitária. Realiza-se semanalmente, com sessões fixas às quartas-feiras, onde se promovem ensaios coletivos, aprendizagem de instrumentos e construção de repertório. Inicialmente estruturado com aulas de instrumento (guitarra, teclado, baixo, bateria), evoluiu para uma dinâmica de banda colaborativa, onde os participantes propõem músicas, discutem escolhas e desenvolvem competências de forma cooperativa.
A participação é aberta a toda a comunidade escolar, com enfoque nos alunos do 2.º e 3.º ciclos, incluindo participantes com necessidades específicas, que são apoiados por professores ou familiares. A diversidade é acolhida como valor e, em casos de conflito ou rendimento escolar insuficiente, a pertença à banda é usada como incentivo educativo e ferramenta de responsabilização. Através da música, criam-se pontes entre o local e o global, valorizando expressões culturais diversas e promovendo atitudes de empatia, respeito pelos direitos humanos e consciência planetária, princípios centrais da ECG (UNESCO, 2015).
Metodologicamente, o projeto baseia-se na prática reflexiva e na articulação com estruturas da escola. Registos de assiduidade, progressos musicais e articulações com diretores de turma são mantidos. O progresso dos participantes é valorizado não apenas pela técnica, mas pelo empenho, cooperação, pontualidade e comportamento. Ainda que sem um sistema de avaliação formalizado, as transformações são acompanhadas de perto, com sensibilidade profissional e compromisso ético.
Entre os resultados observados destaca-se o aumento da autoestima, da motivação para a escola e do sentimento de pertença. Alunos que antes se mostravam retraídos ganharam confiança e passaram a ter papéis centrais nas atuações. Professores e famílias relatam melhorias na atitude escolar e no bem-estar geral. A escola passou a contar com uma banda ativa, requisitada para festas e eventos, funcionando como embaixadora dos valores do Agrupamento e da cidadania global, ao divulgar mensagens de inclusão, diversidade e solidariedade.
Destaca-se a colaboração com a Orquestra António Fragoso, uma orquestra local externa à escola, que desenvolve também práticas musicais comunitárias. Com esta parceria, já se realizaram ensaios e atuações conjuntas em centros de dia e lares, promovendo o encontro intergeracional e o diálogo entre diferentes realidades sociais, aproximando a escola da comunidade e promovendo a consciência das interdependências entre o local e o global. Por outro lado, a escola contava, em anos anteriores, com a O.L.A. (Orquestra “Lixada” de Aldoar), um projeto dinamizado por um monitor externo, centrado no uso de instrumentos reciclados e na consciência ecológica, traduzindo na prática valores de sustentabilidade e responsabilidade global.
Estas experiências reforçam a dimensão criativa, ecológica e solidária do projeto, conectando-o com os princípios da Educação para a Transformação Social (ETS), nomeadamente a participação democrática, a equidade, o respeito pelos direitos humanos e o compromisso com o bem comum. A nível conceptual, o projeto pode ser lido à luz de Freire (1996), pela prática dialógica e libertadora, e Eisner (2002), que destaca a arte como forma de conhecimento e desenvolvimento humano. Ainda que não tenha nascido de referenciais académicos formais, o “Rock na Escola” concretiza na prática muitos dos princípios da pedagogia crítica, da educação não formal e da cidadania global ativa.
Trata-se, em suma, de uma proposta viva de transformação educativa e social. Através da música, promove-se a coesão, a expressão, a sustentabilidade e a esperança. Numa escola com desafios sociais significativos, o “Rock na Escola” faz da arte um espaço de resistência e reconstrução, onde cada participante é reconhecido como sujeito de direitos, voz e ação transformadora num mundo interdependente e global.
Referências
- Andrade, A. I., & Lourenço, M. (2018). Educação para a Cidadania Global: um referencial para a mudança. Sinergias – Diálogos Educativos para a Transformação Social, 6, 50–65.
- Boal, A. (2005). Teatro do oprimido e outras poéticas políticas. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira.
- Eisner, E. W. (2002). The Arts and the Creation of Mind. Yale University Press.
- Freire, P. (1996). Pedagogia da autonomia: Saberes necessários à prática educativa. São Paulo: Paz e Terra.
- (2015). Educação para a cidadania global: Preparando alunos para os desafios do século XXI. Paris: UNESCO.