A fruição da obra de arte na era digital

Venise Paschoal de Melo[1]Doutora em Tecnologia e Sociedade (UTFPR), docente da Faculdade de Artes Letras e Comunicação da Universidade Federal de Mato Grosso do Sul (UFMS) e coordenadora do Grupo de Pesquisa Arte, … Continue a ler

 

Resumo:

Este artigo investiga os desafios contemporâneos do ensino brasileiro de artes visuais na Rede Estadual de Educação de Mato Grosso do Sul, com ênfase nos impactos das tecnologias digitais nos processos de fruição e produção artística. O estudo parte do reconhecimento da problemática inserida nas transformações de percepção e do comportamento dos jovens na era digital, desenvolvendo-se a partir de um referencial teórico que articula os estudos críticos em Ciência, Tecnologia e Sociedade (CTS) e Educação para a Transformação Social (ETS) com as teorias da arte contemporânea. Os resultados evidenciam a necessidade de reinventar as práticas de ensino de artes visuais, transformando os desafios impostos pelas tecnologias digitais em oportunidades pedagógicas, e apontam para a urgência de repensar o lugar da arte na escola contemporânea. Sugere-se que o entendimento da arte como mediação social pode abrir possíveis caminhos para colaborar com mudanças em nossa sociedade.

Palavras-chave: Artes Visuais; Tecnologias Digitais; Fruição Estética; Educação; Transformação Social. 

 

Abstract:

This article investigates the contemporary challenges of teaching visual arts in the Brazilian state education network of Mato Grosso do Sul, with an emphasis on the impacts of digital technologies on processes of artistic fruition and production. The study stems from the recognition of the issues inherent in the transformations of perception and behavior among young people in the digital age. It is developed from a theoretical framework that articulates critical studies in Science, Technology, and Society and Education for Social Transformation with theories of contemporary art. The results highlight the need to reinvent visual arts teaching practices, transforming the challenges imposed by digital technologies into pedagogical opportunities, and point to the urgency of rethinking the place of art in the contemporary school. It is suggested that understanding art as a social mediation can open possible pathways to collaborate with changes in our society.

Keywords: Visual Arts; Digital Technologies; Aesthetic Fruition; Education; Social Transformation.

 

Resumen:

Este artículo investiga los desafíos contemporáneos de la enseñanza brasileña de artes visuales en la Red Estatal de Educación de Mato Grosso do Sul, con énfasis en los impactos de las tecnologías digitales en los procesos de fruición y producción artística. El estudio parte del reconocimiento de la problemática inherente a las transformaciones de la percepción y del comportamiento de los jóvenes en la era digital, y se desarrolla a partir de un marco teórico que articula los estudios críticos en Ciencia, Tecnología y Sociedad (CTS) y Educación para la Transformación Social (ETS) con las teorías del arte contemporáneo. Los resultados evidencian la necesidad de reinventar las prácticas de enseñanza de las artes visuales, transformando los desafíos impuestos por las tecnologías digitales en oportunidades pedagógicas, y apuntan a la urgencia de repensar el lugar del arte en la escuela contemporánea. Se sugiere que la comprensión del arte como mediación social puede abrir posibles caminos para colaborar con cambios en nuestra sociedad.

Palabras clave: Artes Visuales; Tecnologías Digitales; Fruición Estética; Educación; Transformación Social.

 

 

Introdução

Ao refletirmos sobre como as obras de arte são fruídas dentro e fora da escola, em especial ao observarmos a realidade das escolas públicas brasileiras no Estado de Mato Grosso do Sul (MS), percebemos que estamos diante dos desafios gerados por um mundo cada vez mais dominado pelas tecnologias. É evidente que a grande parte dos jovens vive situações complexas: imersos em algoritmos e redes sociais, presentes por meio de telas e experiências virtualizadas, seus modos de vivenciar o mundo estão passando por profundas transformações.

Do ponto de vista do conhecimento, o grande problema observado é a dificuldade em se estabelecer critérios confiáveis para interpretar a realidade, que se apresenta de forma caótica e contraditória no contexto das instituições, das atividades educacionais e nos processos de aprendizagem, especialmente para alunos, professores e suas famílias. Essa desorientação revela um cenário que expõe a fragilidade das instituições em conter o uso excessivo e não mediado das tecnologias, a disseminação de conteúdos sem base factual e os discursos que levam ao engano.

Já no campo do comportamento e das dinâmicas socioterritoriais dos sentimentos, essa confusão está ligada a um ambiente hostil, marcado por estresse, burnout, perda de memória, agitação mental e a sensação de falta de rumo existencial.

É neste panorama educacional, marcado pela cultura digital, que o ensino de artes visuais enfrenta o imperativo de se reinventar. Este artigo investiga os desafios contemporâneos vivenciados nas escolas públicas brasileiras, em Mato Grosso do Sul (MS), com ênfase para as reflexões a respeito dos impactos das tecnologias digitais nos processos de fruição e produção artística dos estudantes. Para tanto, o estudo desenvolve-se a partir de referencial teórico que articula os estudos críticos em Ciência, Tecnologia e Sociedade (CTS), Educação para a Transformação Social (ETS) e as teorias da arte contemporânea. Ancorando essa discussão na realidade local, a metodologia incorpora a observação de produções artísticas realizadas por artistas atuantes no MS, analisando como suas obras sugerem e convidam às formas particulares de produção, recepção e participação, oferecendo assim um contraponto para pensar a fruição neste momento contemporâneo.

Neste, busca-se evidenciar a necessidade de transformar os obstáculos impostos pelas tecnologias digitais em oportunidades pedagógicas possíveis, apontando para a urgência de se repensar o lugar da arte e das tecnologias na escola contemporânea. Por fim, sugere-se que a compreensão da arte como mediação social pode abrir caminhos decisivos para uma prática educativa mais relevante e capaz de colaborar com as mudanças em nossa sociedade.

Breves reflexões sobre as relações dos jovens com o mundo e as tecnologias

A sociedade de hoje, distribuída nas redes, utiliza os smartphones como espelho, preocupa-se com a presença por meio da hiperexposição de si e é impelida por um impulso narcisístico à individualização. Para analisar essas dinâmicas, este estudo dialoga com as reflexões da pesquisadora brasileira Sandra Rey (2019) e do filósofo Byung-Chul Han (2018), cujos trabalhos colaboram na compreensão sobre como as mídias digitais vem, gradativamente, transformando a subjetividade, afetando o comportamento, a percepção e a vida em coletividade, frequentemente gerando novas e paradoxais formas de alienação.

Para Sandra Rey (2019), os dispositivos tecnológicos atuais representam uma mudança profunda na maneira como vivemos e nos comunicamos. Os aparelhos móveis, ao permitirem o acesso instantâneo a qualquer lugar, dissolvem as fronteiras entre o íntimo, o privado e o público, fazendo com que as vivências pessoais sejam continuamente compartilhadas em tempo real. Logo, deixamo-nos conduzir passivamente por um fluxo contínuo de imagens e situações que invadem nosso cotidiano. A superfície reduzida da tela do smartphone torna-se um portal tanto para a evasão quanto para deambulações, acentuando o caráter imersivo e, por vezes, fragmentário dessas experiências. A autora nos explica que é preciso admitir que: 

[…] não somente somos capturados pelo fluxo mas também o fomentamos, fascinados que estamos em coabitar em mundos paralelos à  realidade  em três  dimensões,  e  a entrar cada vez mais fundo na superfície de uma profusão de acontecimentos eventuais que distraem, provocam alheamento do que se passa à volta, deslocando e descentrando os nossos interesses (Rey, 2019, p.04).

Para Rey (2019) vivemos, portanto, uma experiência dupla: de um lado, a materialidade do corpo e das relações presenciais; de outro, a imersão em identidades virtuais fluidas e calculadas, que nos mantêm na superfície de conexões efêmeras. Ainda para a autora, diretamente entrelaçado nas relações sociais, políticas, econômicas e subjetivas, que a própria noção de sujeito se encontra em suspensão. Desafiados pelas novas condições de existência, em uma sociedade mediada por sistemas técnicos que ocultam seus mecanismos de funcionamento, perdemo-nos facilmente nas redes, sem compreender plenamente as operações computacionais que moldam nossas interações.

Contribuindo com este pensamento, Byung-Chul Han (2018) acredita que, nas telas interativas dos dispositivos contemporâneos, as imagens são domesticadas, quase sempre retiradas de sua referencialidade do real, para serem consumidas em volatilidade e efemeridade. Para os sujeitos, agir é deslizar os dedos sobre a tela, e a permanência nessa ação é uma forma de fuga da vida real. A vida nas telas, nos espaços das redes, é encenada, produz fadiga devido à quantidade de informações consumidas em exagero e em alta velocidade, ocasionando um empobrecimento e cansaço do olhar, da percepção e das relações, seguindo a lógica do “vejo tudo, mas não enxergo nada”.

O autor nos aponta ainda que, o excesso de informação dificulta o desenvolvimento de pensamento analítico e crítico, resultando em um déficit de atenção e em inquietação generalizada: “Quanto mais informação é liberada, mais o mundo se torna não abrangível, fantasmagórico. A partir de um determinado ponto, a informação não é mais informativa, mas sim deformadora, e a comunicação não é mais comunicativa, mas sim cumulativa.” (Han, 2018, p. 106).

Tais apontamentos se alinham com a dimensão da realidade brasileira, ao observarmos a inserção de jovens e adolescentes na cultura das tecnologias dos dispositivos móveis conectados às redes de internet. Segundo pesquisa realizada pela TIC Kids Online Brasil (CGI, 2025), que tem como objetivo gerar evidências sobre o uso da Internet por crianças e adolescentes no país, constata que: 92% da população de 9 a 17 anos é usuária de internet no país, correspondendo a cerca de 24,5 milhões de crianças e adolescentes. Para 96% destes usuários o aparelho de celular é o principal dispositivo de acesso à internet e para 77% desta mesma população, o telefone celular é o único dispositivo de acesso à rede, e ainda, 85% destes usuários reportaram possuir perfil em redes sociais. Realizada no período de março a setembro de 2025, o estudo contou com a participação de 2.370 crianças e jovens, entrevistados a respeito das seguintes temáticas: Conectividade e dinâmicas; Oportunidades e práticas; Riscos e danos; Habilidades para o uso da Internet e Mediação parental (CGI, 2025, s.p.).

Em virtude deste cenário apresentado, observamos como os jovens, hiperestimulados, estão cada dia mais imersos em um tipo de esgotamento, quase incapazes de estarem fora dos espaços virtualizados, sendo cada vez mais afastados da realidade. Esvaziados de sentido, isolados do outro, apáticos, solitários, segundo Han (2017, p. 91), sendo levados a um comportamento tal qual “uma roda de hamster que gira cada vez mais rápido ao redor de si mesma”.

Tais observações comportamentais podem ser identificadas na situação em que se encontram os jovens das escolas das Redes Estaduais de MS, que segundo a Secretaria de Educação do Estado de MS (SED MS, 2025) em 2025, somente na cidade de Campo Grande há cerca de 1.065 crianças e adolescentes na fila de espera do Centro de Atenção Psicossocial Infantil (CAPSi), serviço público de saúde que oferece atendimento gratuito às crianças e adolescentes de até 17 anos, com transtornos mentais e sofrimento psíquico.

Na complexidade deste cenário, busca-se relacionar tais problemáticas à experiência escolar local, em especial com as aulas de artes visuais, considerando a vivência dos jovens nesse contexto. Para tanto, levantamos as seguintes questões: Como estimular a fruição das artes visuais em tempos marcados pela volatilidade, pela efemeridade e pela supervalorização da exposição, do consumo e da autorrepresentação como mercadoria? Qual a bagagem cultural e social que esses jovens trazem para a interpretação da obra artística? Tais indagações conduzem, por fim, a uma interpelação mais ampla: como repensar o ensino e a aprendizagem da fruição artística em um mundo pautado por experiências frágeis e mediadas sobre a realidade?

A fruição da arte contemporânea para Eco, Bourriaud e Danto

As questões acerca da fruição artística por jovens imersos em universos virtuais, desprovidos de bases relacionais sólidas sobre a realidade social, levam a uma reflexão aprofundada sobre o próprio conceito de fruição.  Para além de sua origem etimológica – presente no ato de desfrutar a obra, na arte contemporânea a fruição se estabelece por meio da complexa relação dialética entre obra e espectador. A inquietação central reside no fato de que o ambiente digital, ao oferecer experiências sociais mediadas, descontextualizadas e frequentemente distorcidas, pode comprometer a formação de um repertório experiencial rico e contextualizado, condição fundamental para a interpretação das produções artísticas.

Para isso, tomamos como ponto de partida o pensamento do crítico de arte Nicolas Bourriaud (1998) de que toda obra de arte pode ser definida como um objeto relacional, como um lugar de negociação, ou ainda, como produção de relações entre indivíduos ou grupos, entre o artista e o mundo e o espectador e o mundo. Neste sentido, podemos entender que a arte contemporânea, em seus aspectos de fruição, é uma atividade de múltiplas trocas entre artista, espectadores, obras e o mundo.

A partir deste recorte, propomos um olhar para a compreensão dos modos de fruição no contexto histórico e estético da Arte Contemporânea, seguindo o pensamento do semiólogo Umberto Eco (1971, 1979), do crítico de arte Nicolas Bourriaud (1998) e do filósofo da arte Arthur Danto (2010).

O conceito de Obra Aberta proposto por Eco (1971) relaciona a definição de fruição como “relações”, compreendendo a obra de arte não como um produto final acabado, mas como estado de processo e de probabilidades. Ou seja: a obra não apresenta limites ou regras para sua interpretação. Segundo o autor, “a abertura é a condição para toda fruição estética e toda forma fruível como dotada de valor estético é aberta” (Eco, 1971, p. 89). E complementa: “a obra aberta é um campo de possibilidades interpretativas” (Eco, 1971, p. 45), onde o espectador assume um papel ativo na construção de sentido.

Essa perspectiva é aprofundada em sua obra denominada Lector in Fabula: a cooperação interpretativa no texto narrativo, na qual Eco (1979) demonstra que o texto (ou obra de arte) só se completa na interação com um “leitor modelo” capaz de atualizar suas potencialidades semânticas. Toda fruição é ativa, e só é possível porque parte de complexas redes culturais, sociais e históricas dos espectadores. A implicação dessa teoria para a fruição artística é clara: a arte não é um objeto estático, mas um processo que se realiza na negociação entre obra, artista e público. Neste sentido, a obra é apresentada em uma estrutura de conexões em uma rede que nunca se esgota, e que estabelece vínculos com os modos de ver e experienciar o mundo, tanto do artista quanto do espectador. Como Eco (1979, p. 62) afirma, “o fruidor não é um consumidor passivo, mas um coautor do sentido”.

Atualizando as teorias de Eco (1971, 1979) supracitadas, retomamos o pensamento de Bourriaud (1998) que define a arte como um estado de encontro. Neste, o autor acredita que a fruição da obra de arte contemporânea não se reduz à contemplação, mas se efetiva como uma relação entre corpo, comportamento e história. Para Bourriaud, quando distanciada da mera observação passiva, a arte contemporânea é um lugar de produção de socialidade, pois se insere na prática social que produz modos de vivências, convivências, experiências coletivas e compartilhadas.

Bourriaud, em Estética Relacional (1998), avança além da questão interpretativa ao propor que a arte contemporânea se constitui como um “espaço de relações humanas” (BOURRIAUD, 1998, p. 22). O autor enfatiza a dimensão social da fruição, onde o espectador não apenas interpreta, mas participa da obra em um aspecto coletivo.

Em sua obra denominada Pós-Produção: como a arte reprograma o mundo contemporâneo (2002), Bourriaud amplia essa discussão ao analisar como os artistas contemporâneos trabalham com apropriação e reconfiguração de materiais culturais pré-existentes. A fruição, nesse contexto, torna-se um ato de negociação em que significados são constantemente reescritos: “O espectador não é mais um observador, mas um usuário da obra” (Bourriaud, 2002, p. 57).

Para ambos os autores, Eco e Bourriaud, a fruição da obra é sempre ativa e sempre está vinculada às relações sociais. Neste sentido, acreditamos ser importante expandir tais reflexões para o pensamento do filósofo e crítico de arte Arthur Danto (2010) no que diz respeito aos vínculos das produções artísticas imbricadas nos acontecimentos da vida cotidiana e na importância do entendimento da fruição da obra de arte relacionada à percepção de realidade.

Arthur Danto (2010) reflete sobre como a arte contemporânea se estabelece por meio da aproximação do artista e da obra com o cotidiano, vinculando a ideia de arte-vida. Na transfiguração do lugar-comum, o autor problematiza a distinção entre objeto comum e obra de arte, argumentando que o que define a arte não são suas propriedades materiais, mas o contexto teórico que a sustenta. A transmutação do objeto cotitidiano em arte, não apenas retira os elementos que compõem o mundo, mas os coloca, de forma estética, na centralidade da discussão das questões da realidade de nosso tempo, do aqui-e-agora, o que exige do espectador a elaboração dessa relação presente em seu espaço social. Em outras palavras, para o autor, a fruição exige que o espectador reconheça a obra como um “estado de coisas” que transcende o meramente sensível.

Danto enfatiza a necessidade de um enquadramento conceitual para que a fruição ocorra, desta forma, a experiência estética não se limita à percepção, mas envolve um ato de interpretação crítica. Neste pensamento, a transfiguração do lugar-comum se efetiva quando a experiência estética do mundo e da realidade se transforma em obra de arte. O espectador é sensibilizado pela obra ao realizar sua fruição, seja na forma de contemplação, participação ou interação, porque se sente afetado pela intencionalidade do artista.

A articulação teórica proposta estabelece um diálogo fundamental entre os conceitos de fruição artística desenvolvidos por Eco (1971, 1979), Bourriaud (1998) e Danto (2010), que estabelecem bases para a compreensão da fruição no momento presente, onde o espectador, por meio de seu repertório cultural e social, coopera na construção de sentidos. A obra de arte contemporânea se define como um estado de relações, gerando socialidade e demandando do espectador uma percepção mais apurada sobre o mundo real. Neste cenário, a fruição consolida-se não como mera contemplação ou desfrute, mas como uma prática social complexa que interroga, negocia e ressignifica a própria tessitura da realidade compartilhada. Logo, a experiência estética contemporânea se constitui na intersecção entre pensamento, interpretação, conceituação e interação, processos dinâmicos que exigem espectadores ativos e críticos.

Um breve olhar sobre proposições artísticas no estado de Mato Grosso do Sul

Para nos auxiliar a observar com mais proximidade as explanações apontadas até o momento, a respeito da produção, fruição da obra de arte e suas relações com a realidade, a fim de observar o contexto local, apresentamos proposições artísticas produzidas no estado de MS, pela artista-pesquisadora Kelle Almeida[2]Bacharel em Artes Visuais pela Universidade Federal de Mato Grosso do Sul. A obra apresentada integra sua pesquisa acadêmica, sendo requisito obrigatório para a conclusão do referido curso. e pelo artista-pesquisador Julian Vargas[3]Artista-pesquisador-professor, atuante no cenário das artes visuais no estado de Mato Grosso do Sul., professor de artes visuais da Rede Municipal de Ensino de Campo Grande/MS, cujas obras transfiguradas se colocam em um lugar de proposição, abertura ao espectador, para sua fruição em diferentes níveis.

A obra de Kelle Almeida denominada “Marias” (2023) foi produzida coletivamente com um grupo de mulheres, que colaboraram diretamente na construção de uma instalação artística, com a intencionalidade de produzir narrativas por meio de interferências sobre bonecas de pano (Figura 01). A obra pretende, como ato de estímulo à fruição, provocar o deslocamento físico do público a um caminhar atento ao redor de diversas bonecas de pano, retiradas do contexto da produção manual do artesanato ou do lugar da brincadeira infantil. Suspensas e fixadas ao teto, a instalação provoca importantes reflexões sobre a violência exercida contra os corpos das mulheres em nossa sociedade patriarcal. A transmutação das bonecas em arte, neste contexto, assume um papel de ativismo e resistência, utilizando a linguagem visual como poder simbólico.

 

Figura 1 – MARIAS, 2023. Instalação Artística Coletiva.

 

Já para o artista e pesquisador Julian Vargas, em sua obra “Produção educativa em série” (2024), a fruição ocorre em um nível mais elevado de participação. Nesta, por meio da apropriação de mapas arquitetônicos do espaço em que o mesmo artista atua como professor, é questionada a superlotação das escolas públicas (Figura 02). O público é convidado a interferir diretamente sobre a proposição artística e, em co-autoria, colabora na sua construção. Para isso, diversos carimbos com gravação em relevo de desenhos com formato de pessoas são disponibilizados, para que os participantes façam livremente a impressão sobre o papel, criando vários aglomerados de pessoas nas demarcações dos espaços, tais como: sala de aula, pátios, corredores, banheiros etc. O público deixa seu rastro nestas marcações, e quando não há mais espaço suficiente para tal ação, as imagens são sobrepostas, gerando a ideia de “superlotação”. Na obra, a fruição é ativa, lúdica e participativa.

 

Figura 2 – Produção Educativa em série, 2024.

 

As obras apresentadas demonstram como se materializam as relações entre a fruição e a necessidade do público produzir conexões com a realidade social. Por meio deste breve recorte apresentado, é possível demonstrar como a arte contemporânea produz atravessamentos e entrelaçamentos com o mundo, seja por meio da produção, quando o artista se apropria das questões sociais que lhe atravessam, ou nos modos de recepção, que exigem do espectador a realização de associações a respeito do seu conhecimento e percepção de realidade. Ao articular esse panorama com as contribuições teóricas de Eco (1971, 1979), Bourriaud (1998) e Danto (2010), constata-se, que é por meio do entendimento dessas interações estabelecidas, de modo aberto, relacional e transfigurado, que se torna possível a fruição da complexidade das obras.

CTS e ETS: possíveis pistas para ocupar novos lugares na fruição e na produção de arte 

Compreendo as relações apontadas até o momento, no que diz respeito à fruição da obra de arte e a complexidade das vivências de muitos jovens brasileiros quando inseridos nas questões das tecnologias, ao observarmos o cenário da experiência escolar no MS, retomamos a indagação: como estimular a fruição da arte dentro da escola?

No Brasil, como resposta ao cenário apresentado anteriormente nesta pesquisa, houve a suspensão temporária dos aparelhos eletrônicos dentro das escolas, sendo permitidos apenas para fins pedagógicos. A medida foi adotada em todas as etapas da educação básica (pré-escola, ensino fundamental e médio) segundo a Lei nº 15.100/2025 do Governo Federal, sendo um caminho possível e importante para repensar as relações sociais. Esta importante medida governamental foi um modo de refrear o uso das tecnologias no ambiente escolar, com o objetivo de auxiliar a produzir reconexões com o mundo, como um instante offline necessário para outros estímulos pedagógicos e sociais possíveis, a fim de reafirmar e valorizar os alunos e alunas como sujeitos agentes diante do mundo.

Contudo, o pesquisador dos Estudos Culturais na América Latina Jesús Martín-Barbero (2006) nos propõe uma reflexão invertida sobre a noção de “avanço e progresso” diante da quantidade de novas tecnologias produzidas na contemporaneidade, sugerindo o deslocamento do olhar para a transformação da produção de bens simbólicos e dos modos de comportamento. O autor nos adverte para que façamos uma observação com mais cautela para aquilo que vem transformando o conhecimento em força produtiva direta, que constitui o cultural e as novas formas de se comunicar. Neste aspecto, é preciso considerar que o lugar da cultura está em pleno processo de transformação, uma vez que a comunicação tecnológica deixa de ser instrumental e converte-se em estrutural.

Indo nesta mesma trajetória, o pensamento da autora Donna Haraway (2009) colabora ao afirmar que é preciso darmos conta que já nos tornamos ciborgues. Uma vez que as tecnologias já estão há muito tempo sobre nossos corpos, nos amplificando, e os dispositivos que nos envolvem são muitos: os óculos, os remédios que controlam nosso humor, os aparelhos auditivos, o coração artificial, os fones de ouvido e o aparelho de celular.  Para isso, a autora em seu Manifesto Ciborgue (2009), propõe a figura do ciborgue como metáfora política para pensar nossa condição contemporânea, argumentando que somos híbridos de máquinas e organismo, e não apenas pela dependência de tecnologias, mas principalmente por termos dissolvido as fronteiras tradicionais entre aquilo que é natural ou artificial, físico ou digital.

Para Haraway, essa condição ciborgue desestabiliza identidades fixas e hierarquias opressivas, tais como gênero, raça e classe, abrindo possibilidades para novas formas de subjetividade e resistência política, e neste aspecto, o ciborgue simboliza a capacidade de criar coalizões transgressoras e reinventar o mundo a partir de conexões parciais e contaminadas, onde a tecnologia não é um perigo, mas um campo de luta e reexistência.

Para ir além na caracterização do problema e estendê-lo para o campo da teoria da comunicação, o filósofo Vilém Flusser (2008) também nos ajuda a refletir sobre a padronização de comportamento das pessoas diante das tecnologias e nos reforça a necessidade da crítica dos aparelhos. Nesta, os sujeitos não podem aceitar o papel de jogadores automatizados, encarando as tecnologias como “brinquedos” ou como meras formas vazias e cotidianas de entretenimento. A proposta do autor é a evidenciação do uso consciente das tecnologias, com uma postura crítica, autônoma e social, e para isso é preciso questionar, desvendar e conhecer o funcionamento e propósito das mesmas.

Diante do exposto, entendendo nosso contexto social mediado pelas tecnologias e suas problemáticas, a partir da observação do pensamento dos autores Martín-Barbero (2006), Haraway (2009) e Flusser (2008), podemos entender que a suspensão dos aparelhos em sala de aula se configura apenas uma medida paliativa e temporária, porém, para uma ação mais efetiva seria necessário a promoção de espaços pedagógicos de educação para as tecnologias. Neste aspecto, acreditamos ser necessário superar a mera interdição tecnológica para assumir uma perspectiva crítica e integradora, e isso implica em pensar as tecnologias como mediação para a ressignificação estética e política, capazes de converter a experiência educativa em espaço de reflexão sobre identidades, corpos e realidades sociais. Além disso, é preciso valorizar a produção e fruição da obra de arte a partir de proposições que efetivam a formação de pensamento crítico, estimulando outras formas de uso e apropriação das tecnologias nas escolas. 

Com uma perspectiva inserida no contexto das tecnologias e embasada no pensamento da teoria crítica em Ciência, Tecnologia e Sociedade – CTS e também na Educação para a Transformação Social – ETS, propomos algumas reflexões para localizar possibilidades, a fim de provocar transformações no cenário apresentado, em especial no que diz respeito à fruição (e produção) da arte nos dias de hoje, dentro e fora das escolas. Para isso, nos direcionamos para a relevância da educação para as tecnologias inseridas em um discurso consciente.

Considerando o pensamento CTS como uma abordagem crítica das tecnologias, entendendo a não-neutralidade das mesmas e contrapondo o pensamento determinista que visa o seu uso ingênuo, com o objetivo de moldar, manipular e alienar o comportamento dos sujeitos diante do mundo, o pesquisador brasileiro Irlan von Linsingen (2007) nos aponta alternativas para o pensamento crítico para as tecnologias, baseado nas relações sociais-culturais e políticas. Considerando que às tecnologias é atribuído um entendimento orientado para o desenvolvimento e a garantia de um futuro sempre promissor, os indivíduos são progressivamente lançados em direção a uma instrumentalização tecnológica crescente. Para o autor, nesse processo, a vida humana torna-se dependente do aparato técnico, transformando os sujeitos em meros funcionários do próprio sistema. Na perspectiva CTS, a tecnologia é compreendida como um elemento integrante da organização social, fomentando a reflexão crítica sobre os efeitos socioambientais decorrentes dos avanços tecnológicos, visando a sua transformação.

Esta pesquisa também se aproxima do pensamento proposto pela abordagem da Educação para a Transformação Social (ETS), aqui representada pelo educador Paulo Freire (2017), cujo pensamento se insere na educação crítica para a produção de mudanças efetivas no campo social. Para o educador, é no ato de aprender que se torna possível construir e reconstruir a si e o mundo, e somente por meio da constatação da realidade que a transformação se faz possível. Ou conforme nos explica: “Constatando, nos tornamos capazes de intervir na realidade, tarefa incomparavelmente mais complexa e geradora de novos saberes do que simplesmente a de nos adaptar a ela” (Freire, 2017, p. 75). 

Freire também considera o pensamento crítico das tecnologias, de forma humanizada e socialmente inclusiva:

O pensar crítico é fundamental também como um modo de enfrentar a potencialidade mitificante da tecnologia, que se faz necessária à recriação da sociedade […] O desenvolvimento tecnológico deve ser uma das preocupações do projeto revolucionário. Seria uma outra espécie de irracionalismo, o de conceber a tecnologia como uma entidade demoníaca, acima dos seres humanos. Vista criticamente, a tecnologia não é senão a expressão natural do processo criador em que os seres humanos se engajam no momento e forjam o seu primeiro instrumento com que melhor transformam o mundo. (Freire, 1982, p. 82).

Desse modo, para Freire (1982), somos seres da práxis: agimos e refletimos. A transformação do mundo exige compreender as relações dialéticas de nossa presença no mundo em sua dimensão histórico-cultural, bem como analisar criticamente as implicações da ação humana na realidade. Nesse contexto, é fundamental reconhecer que “a tecnologia não é apenas necessária, mas parte do natural desenvolvimento dos seres humanos” (p. 83).

É por meio de tais apontamentos, pautados no entendimento de nossas complexas relações com as tecnologias contemporâneas e na compreensão do pensamento crítico  presente nas abordagens CTS e ETS, que propomos um aceno para um caminho inserido na necessidae da elaboração de novas perspectivas, que possam colaborar para repensar outros modelos pedagógicos e educativos para as artes visuais, a fim de produzir incentivos para novas compreensões na arte e da tecnologia, com o objetivo de formar sujeitos conscientes capazes de pensar criticamente sobre a realidade.

O que fazer? Inverter! 

Pensando na arte como mediação social, como lugar possível para promover a educação para as tecnologias visando a transformação social, levamos em conta a criação de novas formas de fruição e produção em artes visuais, a partir (e com) as tecnologias, aproximando-os da realidade cotidiana e promovendo outros modos de reflexões. Neste cenário, o aparelho é transfigurado em suporte criativo, potencializador de novas vivências e experiências, colaborando com a ressignificação do olhar, estimulando o desenvolvimento de pensamento crítico e oportunizando, para estes sujeitos, uma outra perspectiva para a fruição da arte e de mundo.

Como uma pista possível, direcionamo-nos para breves reflexões sobre a fundamentação metodológica proposta nos Cadernos do Inventar (Migliorin et al., 2016), material educativo que sugere abordagens lúdicas e inventivas para o uso de tecnologias em processos criativos, transformando dispositivos cotidianos em meios de expressão. Essa metodologia abre espaço para a expressividade e subjetivação, incentivando novas experiências com aparatos tecnológicos e fomentando reflexões críticas. Em síntese, o material articula produção fílmica, educação e direitos humanos, convertendo ferramentas comuns, tais como aparelhos de celular, em meios de criação artística.

Essa abordagem pedagógica estimula a produção audiovisual experimental, privilegiando narrativas inventivas a partir de vivências locais e ressignificando a percepção da realidade. Assim, promove-se não apenas a escrita reflexiva e a documentação autoral do processo criativo, mas também a relação entre audiovisual experimental e arte, permitindo que jovens registrem suas buscas, experiências e descobertas. Dessa forma, surgem pensamento crítico, ressignificação identitária e ações inovadoras marcadas pela alteridade.

Nos Cadernos do Inventar (2016), o uso do celular é ressignificado como ferramenta criativa, organizada em “disparadores de experiências” que estimulam a observação do cotidiano, visando a constatação da realidade para a produção de narrativas para compartilhar memórias, vivências e percepções locais.

Nessa perspectiva, tendo em vista o pensamento crítico presente nas aborgadens CTS e ETS, apresentaremos estudos de caso que demonstram a apropriação de tecnologias para criação e fruição artística em um sentido pedagógico e social. Tais iniciativas evidenciam modos possíveis de inserção dos jovens em espaços sociais, buscando a constatação da realidade para a reeducação do olhar e da percepção do mundo, valorizando o sensível e a subjetivação, elementos fundamentais para despertar novos modos de experienciar e fruir a arte. Para observar as ressignificações do aparelho de celular, como lentes de observação e novas percepções da vida cotidiana, apresentamos proposições que se inserem no contexto das artes visuais no estado de Mato Grosso do Sul, que estabelecem pedagogicamente diálogos com a comunidade em seus processos de criação ao utilizar as tecnologias como meio.

A artista-pesquisadora Agatha Scaff, em sua obra Identidades (2023), se apropria de selfies e fotografias de outras mulheres, realizadas com o aparelho de celular em suas fotoperformances (Figura 03). As proposições têm como objetivo, por meio de reflexões sobre o corpo, na escrita de si e das narrativas pessoais, elaborar trajetórias de entendimento sobre a identidade das mulheres pertencentes à comunidade LGBTQIAPN+. Além das fotografias, são adicionadas camadas de imagem em movimento por meio de Realidade Aumentada com o uso de aplicativos, convidando os espectadores a utilizarem seus aparelhos de celular para interagir e entrar em diálogo com as realidades mistas.

 

Figura 3 – IDENTIDADES, 2023. Fotoperformance e Realidade Aumentada.

 

Também para produzir reflexões sobre os corpos, a artista-pesquisadora Rafaela Lazzari, realiza estudos sobre a produção de Glitch Arte por meio de aplicativos de celular. Em sua obra denominada S.L.G (2024) visa apropriar-se da estética do erro e da falha das imagens digitais (Figura 04) ao realizar interferências e manipulações sobre imagens produzidas com convite feito para outras mulheres a participarem da obra de forma anônima. Para a proposição, reflete sobre a importância da desconstrução das regras presentes na sociedade patriarcal, que impõe sobre os corpos de mulheres uma infinidade de regras e padrões de beleza impossíveis de serem alcançadas. O objetivo das obras, quanto à sua fruição, é provocar os espectadores, gerando incômodos diante das imagens fragmentadas e da sobreposição das máquinas sobre nossos corpos.

 

Figura 4 – S.L.G, 2024. Glitch Arte.

 

As obras de Scaff e Lazzari evidenciam o potencial transformador das artes visuais ao se apropriarem das tecnologias, relacionando a produção de arte como ação educativa ao pensarem sobre a realidade social. Ao ressignificar o aparelho celular como meio estético e pedagógico, suas proposições transcendem a mera instrumentalidade para se tornarem dispositivos de questionamento e denúncia das estruturas socioculturais, seja ao desvelar, através de selfies e realidade aumentada, as complexas camadas das identidades LGBTQIAPN+, ou ao desconstruir, por meio da glitch art, os padrões opressivos impostos sobre os corpos de mulheres. Nesse processo, a educação para as tecnologias revela-se fundamental, não como fim instrumental, mas como meio de emancipação em duas dimensões: 1) ao convidar pessoas da comunidade a serem co-autoras, na produção de imagens por meio de dispositivos móveis; 2) ao permitir os espectadores a interagir com as obras por meio de seus próprios dispositivos. Desta forma, as artistas promovem um modo complexo de fruição que estimula a constatação, a reinterpretação do cotidiano e a ressignificação das tecnologias. A experiência estética converte-se em ato político, um lugar de resistência, que ao reconfigurar o olhar coletivo sobre a realidade estimula o pensamento crítico visando a transformação social pela conscientização, emancipação e reivindicação de outras narrativas possíveis.

Como bem destacou Paulo Freire (1982), “importante não é apenas aprender a ler, mas também interpretar o mundo para atuar nele a partir de uma conscientização que leve à emancipação”. Nesse sentido, ao entendermos “leitura” em um sentido ampliado e metafórico, passando a significar a interpretação que cada indivíduo faz de suas observações, vivências e contextos, ou o modo como decifra o que vê, os processos ao seu redor e suas próprias experiências, a leitura do mundo pode ser tratada como equivalente a uma interpretação aberta, plural e sempre legítima da realidade. 

O autor rejeita a educação instrumental, denunciando a dominação e a alienação, vinculando os processos de aprendizagem à capacidade de cada sujeito, em coletividade, de compreender e expressar seu mundo e sua vida. Trata-se, assim, de uma prática que não apenas decodifica, mas que intervém ativamente no tecido social, transformando-o. Nessa perspectiva, a leitura do mundo corresponde à própria percepção da vida em sua totalidade, abrangendo tanto as dimensões subjetivas quanto as relações histórico-sociais mais complexas. Neste lugar, se faz possível pensar sobre a arte como mediação social, e em sua potencialidade para reconectar os jovens à experienciação de mundo por meio do uso das lentes do aparelho de celular, visando a promoção de outros modos de ver, perceber e sentir a realidade. O estímulo para a ampliação das experiências sociais e culturais da juventude por meio da arte leva não somente às novas produções, mas sobretudo à construção de repertório para novas fruições em arte e leituras de mundo. 

Considerações 

Diante do exposto, considerando todo o aporte teórico e as observações das obras artísticas apresentadas, podemos pensar que a experienciação da arte, em sua produção e fruição, pode ocupar um importante lugar de mediação e transformação social. Por meio das abordagens críticas em CTS e ETS, constatou-se que é de fundamental relevância a observação da condição dos jovens diante da realidade tecnológica para que, em nossa função como educadores em arte, possamos produzir outros lugares possíveis para outras experiências dentro e fora da sala de aula. Neste viés, a arte pode ser entendida como um lugar de resistência e de transformação social, ao potencializar vivências que podem, ao mesmo tempo, estimular os aspectos relacionais, gerar outras formas de produção artística, transfigurando os dispositivos tecnológicos, exercitando novos olhares, percepções e interpretações, permitindo que os jovens possam fruir a arte com mais profundidade ao se reconectarem com o mundo.

 

Referências

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  • Han, B. (2018). No enxame: Perspectivas do digital. Vozes. 
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  • Martín-Barbero, J. (2008). Dos meios às mediações: comunicação, cultura e hegemonia. Ed. UFRJ.
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  • Rey, Sandra (2019). A notável distopia do sujeito nos mundos virtuais. Revista de Artes Visuais, v. 24, n. 40, 1 -13.

References
1 Doutora em Tecnologia e Sociedade (UTFPR), docente da Faculdade de Artes Letras e Comunicação da Universidade Federal de Mato Grosso do Sul (UFMS) e coordenadora do Grupo de Pesquisa Arte, Tecnologia e Sociedade (CNPq/UFMS).
2 Bacharel em Artes Visuais pela Universidade Federal de Mato Grosso do Sul. A obra apresentada integra sua pesquisa acadêmica, sendo requisito obrigatório para a conclusão do referido curso.
3 Artista-pesquisador-professor, atuante no cenário das artes visuais no estado de Mato Grosso do Sul.