Sinergias Nº20

O poder das expressões artísticas e estéticas em processos educativos para a transformação social II

 

A afirmação “Ceci n’est pas une pipe”, que no número anterior convocámos como ponto de partida, continua a ecoar como um apelo contínuo à vigilância e ao pensamento crítico. Se aí nos detivemos sobre a rutura entre representação e realidade como gesto inaugural de questionamento, neste número propomos avançar um passo mais além: o que acontece depois da rutura? Que possibilidades surgem quando habitamos esse espaço de incerteza, onde as evidências deixam de ser seguras e o pensamento se abre ao que ainda está em construção?

A arte, enquanto território de experimentação e abertura, não se limita a desestabilizar o que tomávamos como certo; ela ensaia mundos. E, nesse movimento, aproxima-se profundamente da educação quando esta se assume como prática crítica, sensível e transformadora. Educar, neste horizonte, não será apenas questionar o mundo tal como nos é apresentado, mas criar condições para o imaginar e (re)configurar coletivamente, mobilizando diferentes linguagens, experiências e formas de expressão.

Neste segundo número dedicado a “O poder das expressões artísticas e estéticas em processos educativos para a transformação social”, reforça-se a centralidade da arte enquanto espaço de produção de conhecimento, de construção de sentido e de relação com o outro. Não apenas porque permite dizer o indizível, mas porque cria condições para escutar, dialogar e co-construir, abrindo lugar à emergência de vozes diversas e frequentemente silenciadas.

Os trabalhos aqui reunidos convocam o gesto artístico como linguagem plural, capaz de mobilizar afetos, memórias e posicionamentos, ampliando o campo do pensável e do possível. Entre

investigações e práticas, evidencia-se a arte como mediadora de processos educativos que não se esgotam na transmissão, mas que se afirmam na relação, na participação e na transformação.

De forma a ilustrar este horizonte, a secção Caderno Temático reúne cinco artigos científicos que, a partir de diferentes geografias, contextos e abordagens, exploram o potencial das expressões artísticas enquanto práticas educativas críticas e transformadoras.

Em Navegar: arte, cidade e transformação social, Luciana da Conceição analisa o trabalho artístico-político do Grupo Esparrama, evidenciando como a articulação entre arte, cidade e educação pode constituir uma prática contra-hegemónica que valoriza a criação e a participação das crianças na ocupação do espaço urbano, ressignificando a vida cotidiana e ampliando a democracia.

No artigo Pintar la herida: Arte Comunitario y Resiliencia Migrante en la Ciudad de Filadelfia, Gina Pacheco Brito, Laura Melissa Muñoz Salazar e Maria Inmaculada García exploram o papel da arte comunitária como recurso pedagógico de Educação para o Desenvolvimento e Cidadania Global, enquanto instrumento de resistência, cuidado e coesão entre comunidades migrantes latino-americanas em Filadélfia, afirmando o seu potencial pedagógico para a justiça social.

Em Entre linhas: Bordar e (des)aprender com a Educação Pública, Álida Alves, Laura Lima, Melissa Campos e Mirelly Beltrame apresentam o bordado enquanto prática coletiva, poética e política, a partir do projeto de extensão universitária “Linhas da FaE: Coletivo de bordado livre em defesa da Educação Pública”, da Faculdade de Educação da Universidade Federal de Minas Gerais do Brasil. O artigo evidencia o bordado como espaço de

(des)aprendizagem que articula afetos, identidade e pensamento crítico em contexto universitário. 

No texto A fotografia anotada como recurso artístico, participativo e político, Joana Cruz, Isabel Timóteo e Francisca Weiner exploram a fotografia anotada enquanto recurso de investigação e intervenção social em contexto comunitário. A partir de um processo participativo na Lomba (em Bonfim, Porto), evidencia-se a arte como mediadora de memória, crítica territorial e resistência à gentrificação, através da criação de um arquivo sensível que se afirma como uma cartografia afetiva e crítica do território, transforma-se num gesto político de memória, pertença e reivindicação.

Em Afetos Complexos e Experiências Algorítmicas: descolonizando com imagens reiniciadoras, Lia Torraca e Edna Ponciano apresentam o projeto “Retratar, Reiniciar, Reterritorializar: descolonizando pelo afeto a experiência digital algoritmicamente configurada”, que analisa o papel dos afetos nas experiências digitais mediadas por algoritmos, sublinhando a urgência de uma educação que articule literacia digital e educação afetiva, numa perspetiva descolonizadora e emancipatória no contexto das redes sociais.

Na secção Práticas, os seis artigos apresentados aproximam-nos de experiências concretas onde as expressões artísticas se afirmam como dispositivos de participação, inclusão e transformação social. 

Em Materialidades artístico-pedagógicas: a construção do self em relação com outros e a práxis da cidadania, Nicole Lissy reflete sobre o papel das materialidades artísticas no processo de curadoria de uma exposição que tornou visíveis percursos artístico-pedagógicos desenvolvidos entre artista residente e comunidade escolar. A partir da

noção de “ALMA” como dimensão imaterial que emerge de encontros e criações coletivas, o artigo evidencia o potencial transformador da arte em contextos educativos marcados pela escuta, pela partilha e pela valorização de identidades marginalizadas.

No texto Museu do Bairro: Fotografia e arte na co-criação do museu vivo de cada comunidade, Sandra Oliveira e Marina Bravo apresentam um projeto que articula a fotografia participativa, a literacia cívica para os média e práticas de mediação como instrumentos centrais de intervenção comunitária. Assente em metodologias participativas e na autoexpressão artística, o projeto valoriza a participação como eixo de transformação social, promovendo o envolvimento cívico e a coesão comunitária através da arte.

Em Dia de Brincar: artes e direito à infância, Sabrina Brésio, Geovanna de Andrade, Luciana da Conceição e Victor de Oliveira, apresentam as ações desenvolvidas pelas iniciativas Dia de Brincar e núcleo Brincalhoada, na cidade de São Paulo, Brasil. A partir dos encontros entre crianças em contexto de ocupação e estudantes universitários, as autoras evidenciam o brincar como prática política e cultural, capaz de afirmar a vida e de imaginar outros mundos possíveis em territórios marcados por desigualdades e pela ausência do Estado.

No artigo Práticas artístico-pedagógicas para a descolonização do saber, Joyce Souza e Dori Nigro analisam a prática pedagógica desenvolvida no contexto do espetáculo descobri-quê?, que promoveu círculos participativos e diálogos críticos em escolas dos municípios por onde a peça circulou. A partir dos debates realizados com públicos escolares e gerais, evidencia-se a necessidade de descolonizar o ensino português, questionando narrativas ainda marcadas pela ideologia lusotropical

e pela persistência de representações coloniais no espaço educativo e público.

Em Viento. Vidas en Tránsito, M. Susana Rams e Victoria López apresentam um estudo de caso que explora como os discursos mediáticos sobre a migração podem ser reinterpretados através da prática artística e da mediação social. A partir da transformação de notícias e imagens em narrativas visuais, o projeto evidencia o potencial da arte como ferramenta crítica, humanística e de cuidado, promovendo espaços de reflexão, diálogo e participação com comunidades migrantes em diferentes contextos.

Por fim, em Rolinho da Memória, Laure de Witte partilha, em formato audiovisual, o “objeto-reflexão” que dá nome ao artigo e que apresenta o projeto EDxperimentar – Laboratórios de Cidadania Global & Desenvolvimento em meio escolar. A partir de uma ferramenta de sistematização de experiências, o trabalho reflete sobre o processo de implementação do projeto em contexto educativo, evidenciando práticas de cidadania global e desenvolvimento em meio escolar.

Este número encerra com a secção Publicações Recentes, que reúne um conjunto de recursos que oferecem pistas, ferramentas e inspirações para práticas educativas comprometidas com a transformação social: Caderno Criar Coragem: perguntas para fazer acontecer ações Artísticas Participativas; Cidadania em Jogo: TU decides!; Ação Local e Compromisso Transformador – Livro de bolso para quem trabalha com as pessoas e os territórios; e Financiamento de Projetos de Educação para o Desenvolvimento a Organizações Não-Governamentais. 20 anos 2005-2025

Se Magritte nos ensinou a questionar as imagens, talvez a educação, inspirada pelas artes, nos desafie agora a recriá-las não como reflexos do mundo, mas como formas de o reinventar.

Que estas leituras prolonguem esse movimento: não apenas ver para além do evidente, mas também ousar fazer emergir outras formas de presença, de expressão e de transformação.

O conselho editorial.

Nome da Revista

“Sinergias – diálogos educativos para a transformação social”.

Propriedade

Centro de Estudos Africanos da Universidade do Porto (CEAUP) e Fundação Gonçalo da Silveira (FGS), no âmbito do projeto Sinergias ED: potenciar a capacidade transformadora das relações e aprendizagens colaborativas entre agentes de ação e investigação em Educação para o Desenvolvimento, cofinanciado pelo Camões – Instituto da Cooperação e da Língua e apoiado pela Reitoria da Universidade do Porto.

Periodicidade

Semestral.

Grafismo e Paginação

Megaklique e Cláudia Pereira.

Edição

Centro de Estudos Africanos da Universidade do Porto (CEAUP) e Fundação Gonçalo da Silveira (FGS).

Conselho Científico

Ana Dubeux (Univ. Federal Rural de Pernambuco. BR); Antónia Barreto (Escola Superior de Educação e Ciências Sociais – Inst. Politécnico de Leiria. PT); Carmen Rosa García Ruiz (Univ. de Málaga. ES); Dalila Pinto Coelho (Centro de Investigação e Intervenção Educativas – Univ. do Porto. PT); Elina Lehtomäki (Univ. of Oulu. FI); Filipe Martins (Centro de Investigação para o Desenvolvimento Humano – Univ. Católica Portuguesa; Rede Inducar. PT); Frances Hunt (Development Education Research Centre – Univ. College London. UK); Karen Pashby (Education and Social Research Institute – Manchester Metropolitan Univ. UK); Karla Del Carpio (Univ. of Northern Colorado. USA); La Salete Coelho (Centro de Estudos Africanos – Univ. do Porto e Escola Superior de Educação – Inst. Politécnico de Viana do Castelo. PT); Liam Wegimont (Global Education Network Europe. IE); Maria Helena Salema (Inst. de Educação – Univ. Lisboa. PT); Miguel de Barros (CESA – Centro de Estudos Sociais Amílcar Cabral. GW); Mourad Aty (University of Guelma. DZ e Centro de Estudos Africanos da Univ. do Porto. PT); José Nunes da Silva (Univ. Federal Rural de Pernambuco. BR); Oscar Jara (Centro de Estudios y Publicaciones Alforja. CR); Tania Ramalho (SUNY Oswego. USA; Univ. of Oulu. FI).

Conselho Editorial

Andreia Reis, Bernardo Providência, Graça Rojão, Joana Costa, Laure De Witte, Mónica Lourenço, Sara Borges, Sara Monteiro e Teresa Martins.

Avaliadores/as do presente número

Alice Perni (Faculdade de Psicologia e de Ciências da Educação – Univ. do Porto, PT); Bernardo Providência (Escola de Arquitetura, Arte e Design – Univ. do Minho, PT); Carla Malafaia (Faculdade de Psicologia e de Ciências da Educação – Univ. do Porto, PT); Carlota Quintão (Centro de Estudos Africanos – Univ. do Porto, PT); Cecília Peixoto Carvalho (Univ. de Trás-os-Montes e Alto Douro, PT); Danilo Cardoso Marcelino (Grupo EducAR | Educação Antirracista, PT); Eliana Madeira (Graal, PT); Filipa Alves (Casa da Esquina, PT); Franziska Mai (Fundação Gonçalo da Silveira, PT); Graça Rojão (CooLabora, CRL – Intervenção Social, PT); Inês Barbosa (Instituto de Sociologia – Univ. do Porto, PT); Joana S. Marques (Centro de Investigação e Estudos de Sociologia do Iscte – Instituto Universitário de Lisboa, PT); Marta da Costa (Manchester Metropolitan Univ. UK); Natália Azevedo (Departamento de Sociologia da Faculdade de Letras – Univ. do Porto e Instituto de Sociologia – Univ. do Porto, PT); Rosa Carreira (CooLabora, CRL – Intervenção Social, PT); Sandra Machado (Fundação Gonçalo da Silveira, PT); Sara Monteiro (Instituto Politécnico Jean Piaget do Sul / Insight – Piaget Research Center for Ecological Human Development, PT); Tiago Porteiro (Universidade do Minho/CEHUM, PT) e Vanessa Ribeiro-Rodrigues (CICANT – Centre for Research in Applied Communication, Culture, and New Technologies – Univ. Lusófona, PT).

Traduções, revisão gráfica e de textos

Andreia Reis, Bernardo Providência, Graça Rojão, Joana Costa, Laure De Witte, Mónica Lourenço, Sara Borges, Sara Monteiro e Teresa Martins.

ISSN

ISSN 2183-4687

Revista com arbitragem científica: os artigos são da responsabilidade dos seus Autores e das suas Autoras.

Números Publicados