Sandra Oliveira[1]Coordenadora da 4Change e Investigadora do CE3C-FCiências da Universidade de Lisboa. & Marina Bravo[2]Gestora do projeto Museu do Bairro na 4Change e Mestranda no ISCTE-IUL em Estudos e Gestão da Cultura.
Resumo
O Museu do Bairro[3]É uma iniciativa 4Change ONGD, co-financiada pela Unidade de Dinamização de Património Histórico do Município de Oeiras e Oeiras Educa+ / BIPZIP. é um projeto criado pela 4Change em 2021 e centrado na fotografia participativa, na literacia cívica para os média e na facilitação ou mediação. Foca na participação como chave das práticas que procuram a transformação social e na auto-expressão pela arte como factor de envolvimento cívico na comunidade: a equipa 4Change privilegia metodologias participativas e usa ferramentas artísticas para chegar onde aspiramos – mover as pessoas em prol de uma maior coesão social.
Palavras-chave: Participação; Cidadania Global; Arte; Património; Comunidade.

Fotografia 1 – Saída de Campo por Izadora Louize 10ºE², EBS Amélia Rey Colaço.
Metodologias participativas e arte
Nem sempre o que está partido significa estar perdido. Caio, tropeço, ergo-me, caminho sempre em frente, de encontro às vitórias.
Francisca Santos, 10ºE2 da Escola Básica e Secundária Amélia Rey Colaço
A participação é a chave das práticas que procuram a transformação social, de políticas públicas que pretendem uma melhor governança, de instituições e atores locais que querem fortalecer as suas comunidades. É também central da comunicação para a mudança ou da C4D (Comunicação para o Desenvolvimento, conceito cunhado pelo World Bank como Communication for Development), a comunicação para o desenvolvimento usada nos mais eficazes projetos de desenvolvimento local e cooperação internacional. Na 4Change privilegiamos as metodologias participativas e usamos ferramentas e intervenções artísticas para chegar onde aspiramos: mover as pessoas e as comunidades em prol de uma maior coesão social, através das vozes cidadãs que apoiamos na sua expressão.

Fotografia 2 – Saída de Campo por Valeria Pessin 11ºD, EBS Amélia Rey Colaço. “Eu oiço o som tranquilo da água a cair. Eu cheiro uma lembrança antiga. Eu vejo uma tempestade calorosa. Eu saboreio o momento que se forma. Eu toco na memória do meu falecido avô. Eu sinto uma doce tristeza.”
A inspiração das práticas e do projeto focado neste artigo é clara: muitas metodologias participativas têm a sua matriz desenvolvida nos anos 60-70, com influências de Paulo Freire e outros pensadores e educadores sociais, com metodologias como o Teatro do Oprimido / Teatro Fórum. Muitos projetos de educação popular exemplificam décadas de trabalho na América Latina, que incorporaram há muito as ideias de participação e emancipação. ”A educação para a democracia pode ser realizada em distintos níveis educacionais e, geralmente, atribui-se às instituições formais” (Síveres 2022). Mas “a educação popular, tendo como referência um projeto cooperativo, deveria resgatar experiências de partilha entre os participantes da comunidade, práticas de valorização das culturas ancestrais e aprendizados da tradição religiosa, mas, ao mesmo tempo, indicar procedimentos cooperativos com as novas tecnologias digitais e sociais, com as distintas formas de organização social e as diversas oportunidades para desenvolver, de forma sustentável, uma sociedade democrática.”
No caso do desenvolvimento do Museu do Bairro como metodologia e como prática, partimos a contracorrente do estereótipo que cristalizou uma ideia institucional do que é a participação cívica e imputa pecados de apatia e não participação às pessoas mais jovens. “Fora da esfera política normativa, baseada numa visão adultocêntrica, as pessoas mais jovens constroem novas formas de intervenção que decorrem de um questionamento do mundo e do exercício do poder e das diversas formas da desigualdade. As práticas artísticas e criativas têm funcionado como ferramentas centrais para encontrarem espaço na esfera pública” (Campos 2024). O pensamento de David Buckingham na área da literacia para os média (Banaji & Buckingham 2013) vai exactamente neste sentido de desmontar mitos e tokens de participação cívica dos jovens: é preciso abrir espaços seguros para a participação de diferentes pessoas – acrescentamos, especialmente para as normativamente chamadas vulneráveis ou marginalizadas, terem oportunidade de dar o seu contributo cívico.
As ONG, muitos municípios e outras instituições locais, em parcerias com universidades ou grupos informais, há décadas que usam ferramentas artísticas como as da fotografia ou do vídeo como forma de reforço de campanhas de advocacia política e social para desigualdades e problemas locais, chamando a atenção para histórias de pessoas que não são escutadas nem têm visibilidade e representação na esfera pública.
Há experiências pioneiras e depois há organizações que estabilizam e são referência para as metodologias – como a PhotoVoice na fotografia participativa ou a InsightShare no vídeo participativo. Estes métodos incluem pessoas das comunidades como atores e sujeitos dos filmes ou ensaios fotográficos, assentando numa tripla técnica, estética e, acima de tudo, ética.
Photovoice e imagem participativa
A fotografia participativa como ferramenta de investigação participativa e advocacy foi primeiro desenhada por by Caroline C. Wang, da Universidade de Michigan e Mary Ann Burris, da Fundação Ford – em 1992, Wang e Burris criaram a “photo novella” para trabalhar com as camponesas da província de Yunnan, na China, influenciarem as políticas que as afetavam. Delinearam o que é hoje conhecida como metodologia photovoice – em 1998, no Reino Unido, Anna Blackman e Tiffany Fairey, iniciaram projetos no Vietnam (Street Vision) e Nepal (Childrens Forum) que deram origem à organização com o mesmo nome, PhotoVoice – são uma ONG que dá formação a facilitadores, voluntários e apoiantes em todo o mundo.
Tal como a fotografia participativa, que é praticada de muitas formas há muitas décadas e sempre como metodologia experimental, também o vídeo participativo tem sido praticado em contextos, com metodologias e com graus de participação diversos. Se a Photovoice é a metodologia mais estabilizada e reconhecida em fotografia, o vídeo participativo como praticado pela InsightShare é hoje reconhecidamente uma metodologia e abordagem verdadeiramente participativos, experimentada, autorreflexiva e que potencia as ideias e experiências originais.
É que há muitas formas de praticar fotografia e vídeo participativo – com graus de participação que vão desde os membros da comunidade que são apenas protagonistas de um vídeo pensado, filmado e editado por um autor externo, passando pela participação na construção e protagonismo da ideia mas que é ainda filmada e editada por um autor externo – até ao vídeo ou exposição fotográfica pensada, escrita e editada pelas comunidades, com minimização da intervenção externa, como preconizam quer a Insight Share como a PhotoVoice.
Usam um conjunto de técnicas e dinâmicas participativas para a inclusão das pessoas participantes em processos que usam tecnologia e equipamentos, como de imagem digital, que as poderiam inibir. Estas metodologias escolhem intencionalmente trabalhar com técnicas de ‘facilitação’ ou de educação não-formal em vez de formação ou administração de conhecimento formal – factor chave para a valorização de capacidades e talentos não reconhecidos.

Fotografia 3 – Antes & Depois: imagens atuais sobre fotos de arquivo e entrevistas com quem frequenta o local – por Ana Pires, que entrevista o avô: “A grande diferença é que o passadiço antes não existia. Sobretudo melhorou, pois antigamente quase só as pessoas com barco é que frequentavam o local, mas agora as pessoas podem ir passear no passadiço. Sendo assim, o sítio ficou mais famoso”. Paço de Arcos, 2023
Há novas ideias que se espalham, são apuradas técnicas, como as “narrativas digitais” que se multiplicam com a proliferação de câmaras e gravadores baratos e acessíveis em todo o mundo. Através destas ferramentas digitais e acessíveis, surge também a ideia de investigação cidadã, participada por pessoas e grupos que colhem as suas próprias histórias, imagens e sons para construção de narrativas sobre as suas comunidades (Mitchell 2009). As narrativas são discutidas, apropriadas e construídas pela comunidade – e surgem mais organizações de base comunitária a fazer advocacia política e social pelas próprias mãos.
Os novos museus
Os carris a chegar / O tempo a encurtar / Observo a distância a que estou no meu lar. O vento bate na minha cara / E toco no meu coração / Sinto medo / Até à ponta dos dedos da minha mão.
Inês Furtado, 10ºF da Escola Secundária Quinta do Marquês
O nome do projeto surgiu durante o desenho de uma candidatura em parceria com a Mapa das Ideias, especialista em Mediação Cultural (Bown 2024) que pratica o valor da democracia cultural e do acesso à arte como ferramenta de coesão, democracia e justiça social: na altura o conceito foi de co-criação de um museu “no” bairro por preconizar intervenções artísticas no coração dos bairros de Lisboa. Quando o projeto se concretizou com o desafio da curadoria Oeiras 2027 – Capital da Cultura, interessada em desenvolver metodologias artísticas para envolver as comunidades do concelho, o projeto focou-se no trabalho com escolas, através da parceria com a Oeiras Educa+. A 4Change centrou a implementação do projeto na ideia de apropriação cultural pela comunidade e nasceu daí a ideia de um museu “do” próprio bairro.
A metodologia foi desenhada em 2021 pela coordenação da 4Change e testada e melhorada nestes quatro anos com a equipa de mediação do Museu do Bairro. Ponto de partida são as práticas de participação, auto-expressão e arte que a equipa da 4Change acredita serem democráticas e adaptáveis a todos os contextos – e usa como base a fotografia participativa, cujas dinâmicas usamos há mais de uma década nos nossos projetos, intervenções e até na recolha qualitativa da avaliação de impacto em contextos diversos. A fotografia participativa é também fácil de articular com outras intervenções, usando poucos materiais e uma ferramenta que temos no bolso: a câmara do telemóvel.
Os resultados de um novo olhar sobre a comunidade são mostrados através de novos média – sites e redes como novos museus que podem ser experienciados por toda a comunidade – mas também exposições comunitárias, onde as paredes do supermercado ou do centro de saúde são ponto de encontro. O Museu do Bairro é a co-criação de um museu de portas abertas, um museu democrático que dilui os limites e o acesso à arte – e a partir da fotografia como ferramenta quotidiana, que parte de um telemóvel omnipresente, desmistifica a criação e a intervenção artísticas e as traz para o dia-a-dia das pessoas comuns.
Está por isso em sintonia com o movimento da nova museologia e de um Museu da, para e (co-criado) pela comunidade: são as pessoas jovens e cidadãs com que trabalhamos desde 2021, que se inspiram no património da comunidade de que fazem parte e investigam o que é património para si. “O que é valioso para mim?”, “O que eu quero colocar no Museu da minha comunidade?”, “Como vejo o meu bairro?” são as perguntas que envolvem os grupos participantes – até este ano estudantes e docentes de sete escolas do Concelho de Oeiras. Mais que adequada por isso a colaboração desde 2023 com a Unidade de Dinamização do Património Histórico, aberta para um trabalho participativo e artístico para dar uma nova perspetiva sobre o património de Oeiras.
Fotografia, arte e literacia
Eu penso nesta fotografia como uma anomalia temporal, pois apesar de a ter tirado no passado, eu olho para ela e vejo o futuro. Um futuro incerto
Tiago Galha, 9ºD da Escola Secundária Sebastião Silva
A fotografia participativa e a Photovoice (ver caixa) são métodos muito flexíveis e com graus diferenciados de participação efetiva de cada pessoa em cada grupo, num processo onde o princípio base é a colheita do olhar, auto-expressão e a chamada “auto-elicitação”[4]In Priberam: Ato de provocar uma resposta ou reação em algo ou alguém. A auto elicitação é por isso a capacidade de se expressar de uma forma profunda – a foto-elicitação é uma … Continue a ler que a fotografia provoca: a expressão profunda de cada pessoa através da produção de uma imagem intencional, capturando a perspectiva individual de cada realidade e expressando-a através da fala acerca dessa imagem – concretizada através da produção de textos criativos que se tornam as legendas que acompanham a fotografia e a fazem “falar”.
A base metodológica que a 4Change usa é a da Photovoice, respeitando as suas etapas: 1. Estabelecer a dinâmica de grupo e co-criar os objetivos; 2. ABC da fotografia; 3. Falar através da fotografia; 4. Fazer a fotografia falar e personalizar a mensagem, e terminando com uma exposição que culmine na concretização dos objetivos.
Mas o Museu do Bairro não segue todos os passos e dinâmicas da Photovoice, entrecruzando a fotografia com outras metodologias participativas que a 4Change usa – como o mapeamento de territórios e agentes, as histórias de vida, até elementos das teorias da mudança e avaliação de impacto social – mas, fundamentalmente, a abordagem da literacia cívica para os média (Gordon e Mihailidis 2016) que usamos de forma transversal para dar corpo ao pensamento crítico e a uma educação para a cidadania global (Oliveira e Caetano 2017).
O Museu do Bairro torna-se então o que é chamado um projeto de cidadania ativa, com base numa intervenção cultural e artística, onde as pessoas são convocadas a descobrir o seu território e a criar conteúdos expositivos. A equipa promove um processo de aumento da literacia visual a que acrescentamos pequenas noções cirúrgicas de literacia mediática, incluindo a ética da produção de imagens, leis da privacidade, regras de disseminação de conteúdo e análise da interação social e intercultural.
Este uso da fotografia com as novas literacias num processo participativo é guiado por uma pessoa mediadora ou facilitadora que alimenta a expressão criativa mas também a partilha e discussão dentro de um grupo seguro e com regras de respeito e colaboração. Culmina com a co-produção de uma exposição final, num espaço comunitário ou adequado ao objetivo do grupo.
Literacia e ética – uma bússola do Museu do Bairro
Cada caso é um caso e a abordagem deve ser preparada e ponderada com atenção ao contexto e subtilezas locais – como qualquer metodologia e processo participativos exigem. No caso do Museu do Bairro, é feito um breve diagnóstico da cada turma/grupo com que vamos trabalhar: relação com docente, interesse pela fotografia/arte, estratégias e dinâmicas de grupo. A facilitação acompanhada, em pares, funciona melhor para dar atenção ao grupo, aos detalhes e à micro-participação – valorizada pode aumentar a auto-estima de quem não costuma participar.
A metodologia PhotoVoice consegue tocar em muitos dos pontos essenciais para aumento da literacia mediática e da participação cívica – a ética focada na publicação de referência (Photovoice 2023) toca ideias como:
- representação – a ética do trabalho participativo tem como eixo a auto representação das próprias pessoas, não o falar em vez delas. Uma atitude anti-extrativista, de respeito e consciência por parte de quem está a facilitar/mediar mas também para cada participante, que tem de saber que o que representa, o que mostra, vai ser lido, tem uma mensagem, tem um impacto.
- terminologia – há palavras importantes e que dão valor a cada participação, há termos a evitar, por ex. pessoas marginalizadas ou vulneráveis. Ou o empoderamento, que é bem melhor substituído por apoio para a emancipação; nunca damos voz: toda a gente tem a sua voz, o máximo que um processo photovoice faz é amplificar e apoiar.
- intenção e escolha – é essencial que cada participante entenda a ideia de focar e enquadrar com intenção, de escolher o que queremos transmitir.
- sensibilidade cultural – a mediação cultural e social, a que na 4Change costumamos chamar facilitação, implica uma consciência do grupo e do que é tratado como património, valorizado, por cada pessoa.
O processo e o resultado
Testemunhei a grande motivação dos alunos para este projeto participativo, que potenciou nos alunos competências consideradas essenciais, contribuindo de forma inequívoca para a concretização do Perfil do Aluno à Saída da Escolaridade Obrigatória (PASEO).
Guilherme Miranda, docente da Escola Secundária Sebastião e Silva, 2023
A metodologia do Museu do Bairro estrutura-se num ciclo de 8 oficinas com a duração de noventa minutos, combinando abordagens da educação não formal, da fotografia participativa e da literacia visual e para os média. Cada encontro é concebido como um espaço de interação, experimentação e diálogo, no qual cada pessoa explora o olhar, a escuta e a relação com o território, a partir de exercícios criativos e colaborativos.

Fotografia 4 – À esquerda: “Do seu retiro de férias, D. Manuel I viaja até ao Oriente enquanto observa as caravelas portuguesas.” Fotografia e colagem por Tomás, Joana e Duarte, Escola Secundária Quinta do Marquês, 2023. – À direita: “D. Luisa e as Flores. De acordo com os rumores da época, D. João VI ordenou a encarceração de D. Luísa Clara de Portugal, no Palácio da Flor da Murta. É presumido que, devido à escassez de atividades, passear nos jardins fosse o passatempo de eleição de D. Luísa.” Fotografia e colagem por Chloe Serrano, Constança Covas, Beatriz Ferreira e Sofia Ferreira, Escola Secundária Quinta do Marquês, 2023.
O percurso das oito oficinas segue uma lógica de descoberta progressiva, do reconhecimento pessoal e coletivo do olhar até a montagem de uma exposição final. A primeira sessão é de apresentação e de primeiros olhares, introduz o projeto e propõe exercícios de fotografia participativa, como o “caça ao tesouro”, explorando o olhar individual e a multiplicidade de perspetivas dentro do grupo, estabelecendo o ABC da fotografia (noções simples de enquadramento e intenção, de luz, foco e plano). No segundo encontro, cada turma/grupo escolhe o tema e a comunidade a retratar, definindo assim o fio condutor da narrativa visual; nesta segunda sessão é lançado o primeiro desafio: olhar o território com curiosidade e sentido crítico. As sessões seguintes trabalham noções de literacia visual, interpretação de imagens e composição fotográfica; explora-se um mapeamento cultural e afetivo de seus quotidianos e território – o que é património para mim? – e abordamos técnicas, materiais e formas de apresentação ou exposição. É escolhido coletivamente o tema e o espaço, preparada a abordagem.

Fotografia 5 – À esquerda: saída de campo nos jardins da Quinta Real de Caxias, 2025. – À direita: saída de campo com turma da EBS Amélia Rey Colaço a entrevistar moradores 2025 – tema: a vida quotidiana das pessoas de Carnaxide.
A quarta sessão é a saída de campo: em grupos, visitamos os lugares escolhidos pelo grupo, que então recolhem imagens e histórias que revelam o património cultural material e imaterial de Oeiras – o território torna-se escola e ponto de encontro entre gerações e memórias. Na quinta, na sexta e na sétima sessões, as turmas apresentam as fotos que tiraram na saída de campo, debatem, refletem e selecionam as fotografias que irão compor a exposição coletiva; desenvolvem as legendas e textos de apoio, consolidando o discurso visual e autoral de cada participante e do grupo. Começa aqui o desenho do projeto de exposição comunitária. É nesta fase, por decisão do grupo, que pode ser feita uma clássica exposição de imagens e legendas – ou podem também surgir exercícios de intervenção artística nas fotos. A equipa facilitou técnicas simples de colagem e pintura em 2023, apoiadas por factos da história quotidiana que inspiraram as turmas. E em 2025 trabalhámos com uma parceria que já obteve belos resultados noutros projetos da 4Change, com o Marc Parchow, do colectivo Qual Albatroz, a incentivar a reinterpretação das imagens através de colagem, escrita ou outras formas de intervenção física no papel.
O ciclo de criação do Museu do Bairro termina com a montagem da exposição comunitária, no espaço escolhido pelas turmas e docentes dentro da escola; é um momento de partilha e celebração entre estudantes, docentes, famílias e comunidade local. A escola abre-se ao bairro e o bairro entra na escola. No final de cada ano lectivo, a equipa prepara a exposição final num espaço público, a partir da seleção de imagens e textos que cada turma elege para a representar.
Muitos Museus do Bairro
A arte é a alma que se revela em formas e nuances, convidando-nos a sonhar e a sentir.
Isabela Oliveira, 11ºD da EBS Amélia Rey Colaço.

Fotografia 6 – Saída Sessão de intervenção artística nas fotos com uma turma da EBS Amélia Rey Colaço, 2025.
O Museu do Bairro convida estudantes e docentes a olhar o território com curiosidade. Em quatro anos, o projeto envolveu 696 estudantes de sete escolas do Município de Oeiras e mais de 30 docentes em sessões de fotografia participativa, saídas de campo e nas 28 exposições comunitárias. Cada uma dessas exposições transformou bibliotecas, átrios e corredores das escolas em lugares de expressão, onde a arte serviu de ponto de partida para conversas e novas formas de olhar.
“Este projeto foi muito bom, porque trabalhou o lado criativo deles. Estes alunos ainda estão muito presos e acho que o Museu do Bairro veio pedir-lhes para eles se libertarem.” (Gorete Maria Coelho, docente da EBS Amélia Rey Colaço)
Essas palavras da professora resumem uma das vertentes centrais do projeto: criar espaço para a criatividade dentro da escola. Entre dinâmicas colaborativas e de sensibilização do olhar, o Museu do Bairro convida estudantes e docentes a pensar com imagens, a interpretar o mundo à sua volta e a descobrir que cada fotografia é uma forma de pensamento. O que começa como um exercício artístico, torna-se para muitos uma oportunidade para experimentar e expressar – a poesia que raramente se mostra é aqui incentivada em exercícios de escrita criativa, a indignação com o abandono de um espaço encontra aqui o escape artístico, o amor àquela funcionária que faz a escola um espaço mais seguro resulta num retrato da comunidade.

Fotografia 7 – “O sr. António e a sua mulher, muito alegres no Mercado de Paço de Arcos. Vendem fruta e hortaliças e estavam a escolher grelos”.
Fotografia e texto de Matilde Ferreira, EBI Joaquim de Barros, 2022.
Esse processo de descoberta e de relação com o território é também um processo de construção de cidadania. Ao conhecer o património local, os alunos passam a reconhecê-lo como parte de si, e a cuidar dele como quem cuida da própria história.
“O Museu do Bairro é um projeto de cidadania participativa que pretende capacitar os jovens para uma vivência consciente do território em que vivem e/ou estudam.” (Guilherme Miranda, docente da Escola Secundária Sebastião e Silva)
Nas palavras do professor, percebe-se como a metodologia do projeto, assente em saídas de campo, observação do ambiente local e experimentação fotográfica, contribuiu para o desenvolvimento de competências essenciais à formação dos alunos.
“E a ligação com a comunidade, não é só o professor que fomenta essa ligação do aluno com a comunidade. O aluno, ele próprio fez essa ligação. Foi conhecer o património local, e uma das responsabilidades do cidadão é preservar o património, é olhar para o património, criar o seu olhar para o património, para cuidar e preservar o património. Isto é preservar a memória. Porque ele olhou, ele criou, ele estabeleceu laços.” (Gorete Maria Coelho, docente da EBS Amélia Rey Colaço)
Cada edição do projeto culminou numa exposição aberta à comunidade mais alargada. No total, quatro exposições públicas levaram o trabalho das escolas para espaços públicos e equipamentos culturais de Oeiras, ocupando o Edifício Municipal Atrium, o Mercado Municipal de Oeiras, os Jardins do Palácio Anjos, Oeiras Parque e o Espaço Jovem ‘Oeiras é pra ti’. Esses momentos partilhados mostraram que os olhares de estudantes têm força para transformar o modo como uma comunidade se vê e se representa.
“Num mundo onde carece sentimento, as interações entre nós garantem a esperança e a alegria.” (Gonçalo Carvalho 11ºB³, EBS Amélia Rey Colaço).
Alguns dos textos criados pelas/os jovens revelam o impacto relacional e emocional da experiência. Nas oficinas e exposições, arte e convivência caminharam lado a lado, reforçando a importância do encontro e da empatia.
“Sonder: aperceber-se da vida complexa de desconhecidos.” (Sara Reinaldo 11D, EBS Amélia Rey Colaço.
“Sonder”, a palavra escolhida por uma estudante, traduz o que foi coletivamente descoberto ao longo do processo: que a arte é também uma forma de compreender o outro. Uma das atividades que realizamos nas sessões, conhecida como “lago dos tubarões”, costuma ser marcante para as turmas. Nela, observam fotografias dispostas sobre a mesa, escolhendo e interpretando as imagens que mais os tocam. “A leitura das fotografias levou-os a pensar”, recorda a professora Gorete Maria Coelho. “O Museu do Bairro também nos mostra as camadas da realidade e o cuidado com o preconceito, cuidado com avaliar o diferente, não temer o diferente”. O exercício do olhar tornou-se ferramenta de reflexão e de consciência social. Entre imagens, interpretações e conversas, as turmas foram aprendendo que ver exige, tempo, escuta e disponibilidade para rever o que se pensa saber – a literacia para ler um mundo mediatizado é reforçada.
Na edição de 2022/23, foi desenvolvido também um Book, como forma de registo do trabalho feito pelas escolas, jovens e docentes. Mais do que um registo documental, o Book tornou-se um instrumento para convite e explanação do projeto para novas escolas e docentes. Ao fim de quatro anos, o Museu do Bairro afirma-se como um espaço de aprendizagem e de envolvimento comunitário, onde arte e educação se encontram para fortalecer a criatividade, a sensibilidade do olhar sobre território e comunidade, o sentido de pertença e de responsabilidade partilhada.

Fotografia 8 – À esquerda: “O mar a bater nas rochas faz-me relaxar, consigo ouvir a paixão que me transmite o mar. Na cana do pescador consigo ver a cultura e no peixe pescado a sua aventura”.
Fotografia e texto de Matilde Oliveira, Escola Secundária Sebastião e Silva, 2023.
À direita: Exposição comunitária na EBS Amélia Rey Colaço, 2025.
Vem aí o Museu do Bairro_Entre Gerações!
Trabalhar com a população sénior e incluir quem habitualmente não trabalha com ferramentas artísticas, resulta em processos participativos que são puro prazer para a equipa 4Change. São 10 anos depois d’O Meu Bairro, primeiro projeto de diagnóstico participativo e intergeracional implementado pela 4Change em parceria com a FOS ONG e a Ana Filipa Flores na Ajuda. E 4 anos depois do Namorar à janela do Mundo, uma campanha pelos direitos séniores, que se centrou no programa de capacitação em literacia digital para séniores – e de formação em direitos humanos, privacidade e afetos para profissionais que trabalham com a população mais sénior dos Bairros de Intervenção prioritária lisboetas, em plena pandemia.

Fotografia 9 – ©LetiziaLucignano / 4Change & FOS.
Este ano chega o Museu do Bairro_Entre Gerações, que recebeu em Setembro o co-financiamento do programa BIP/ZIP da Câmara Municipal de Lisboa.
É um desenvolvimento do programa que trabalhou até agora com jovens, docentes e comunidades educativas – e vai até ao final do Verão de 2026 procurar grupos formais e informais nos territórios de Ajuda e Alcântara, de Monsanto até ao rio, numa parceria alargada com entidades, associações, museus e outros grupos. Entre Gerações procura agora construir o Museu do Bairro de Lisboa Ocidental, tendo como objetivo valorizar as comunidades e potenciar a inclusão social e digital dos seniores dos BIP de Alcântara e da Ajuda, através do envolvimento de grupos intergeracionais – crianças, jovens, adultos e idosos – que revalorizam o património da Lisboa ocidental enquanto aumentam competências de literacia para os média e de participação cidadã.
Referências
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- Campos, R. (2024). Art and citizenship: Practices and discourses of young artivists in Portugal. European Journal of Cultural and Political Sociology, 11(2), 190–211. https://doi.org/10.1080/23254823.2023.2234967.
- Gordon, E., & Mihailidis, P. (Eds.). (2016). Civic Media: Technology, Design, Practice. The MIT Press. https://doi.org/10.7551/mitpress/9970.001.0001.
- Iruela, M. J. R. (2023). Photovoice and Photo-Elicitation: Similarities, Differences, Incorporation and Contribution in In-Service Teacher Training. In A. Bautista García-Vera (Ed.), Photographic Elicitation and Narration in Teachers Education and Development (pp. 61–75). Springer International Publishing. https://doi.org/10.1007/978-3-031-20164-6_5.
- Kyololo, O. M., Stevens, B. J., & Songok, J. (2023). Photo-Elicitation Technique: Utility and Challenges in Clinical Research. International Journal of Qualitative Methods, 22, 16094069231165714. https://doi.org/10.1177/16094069231165714.
- Mitchell, A., & McGee, K. (2009). Designing Storytelling Games That Encourage Narrative Play. In I. A. Iurgel, N. Zagalo, & P. Petta (Eds.), Interactive Storytelling (Vol. 5915, pp. 98–108). Springer Berlin Heidelberg. https://doi.org/10.1007/978-3-642-10643-9_14.
- Oliveira, S., & Caetano, R. (2017). Literacia para os Média e Cidadania Global – Caixa de Ferramentas. CIDAC e PAR. https://www.cidac.pt/files/2114/8597/6548/20170117_LMedia_cor_150dpi.pdf.
- Nasi, S. e Oliveira, S. (2023). Museu do Bairro_Um olhar jovem sobre Oeiras. 4Change, Lisboa. Consultado a 06/10/2025 em https://4change.org/recursos/museu-do-bairro-book/.
- Photovoice, N. (2023). PhotoVoice Statement of Ethical Practice. PhotoVoice UK. Consultado a 3/10/2025 em https://pvlink.to/soep.
- Sarrouy, A. D., Simões, J. A., & Campos, R. (Eds.). (2022). A arte de construir cidadania: Juventude, práticas criativas e ativismo. Tinta da China. Consultado a 06/10/2025 em https://www.tintadachina.pt/wp-content/uploads/2022/07/Arte-de-Construir-Cidadania_ver-interior.pdf.
- Síveres, L. (2022). A contribuição da educação popular na construção da democracia. Revista MEB de Educação Popular, Brasília, DF, v. 2, n. 2, 8–17. Consultado a 03/10/2025 em https://www.meb.org.br/wp-content/uploads/2022/10/ARTIGO-A-contribuic%CC%A7a%CC%83o-da-educac%CC%A7a%CC%83o-popular-Luis-Si%CC%81veres-Revista-MEB-2022-v.-2-n.-2.pdf.
- Wang, C., & Burris, M. A. (1997). Photovoice: Concept, Methodology, and Use for Participatory Needs Assessment. Health Education & Behavior, 24(3), 369–387. https://doi.org/10.1177/109019819702400309
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| 1 | Coordenadora da 4Change e Investigadora do CE3C-FCiências da Universidade de Lisboa. |
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| 2 | Gestora do projeto Museu do Bairro na 4Change e Mestranda no ISCTE-IUL em Estudos e Gestão da Cultura. |
| 3 | É uma iniciativa 4Change ONGD, co-financiada pela Unidade de Dinamização de Património Histórico do Município de Oeiras e Oeiras Educa+ / BIPZIP. |
| 4 | In Priberam: Ato de provocar uma resposta ou reação em algo ou alguém. A auto elicitação é por isso a capacidade de se expressar de uma forma profunda – a foto-elicitação é uma técnica individual como é definida pela rede Photovoice Worldwide e nas últimas décadas começou mesmo a ser utilizada em contextos terapêuticos (Kyololo et all 2023) como preconizado pela American Psychologist Association (ver https://www.apa.org/education-career/training/psychologist-toolbox-photovoice-photo-elicitation). |