Laboratórios Pedagógicos EDxperimentar – a importância das expressões artísticas e estéticas nas práticas educativas de EDCG em escolas de quatro territórios de Portugal

Eva Jesus[1]FGS | Fundação Gonçalo da Silveira; eva.jesus@fgs.org.pt., Filipe Martins[2]Equipa SA EDxperimentar; Universidade Católica Portuguesa do Porto – Área Transversal de Economia Social; Fundação Aga Khan Portugal; filipemartins79@gmail.com., Laure De Witte[3]Mandacaru – Cooperativa de Intervenção Social e Cultural; lauredw@yahoo.fr., Graça Rojão[4]CooLabora – Intervenção Social, CRL; gracarojao@gmail.com., Hugo Cruz Marques[5]Equipa SA EDxperimentar; ESE – IP Santarém; hugocruzmarques.pr@gmail.com., Jorge Cardoso[6]Equipa SA EDxperimentar; jorcardoso@gmail.com., Maria Ressano Garcia[7]Associação Casa Velha – Ecologia e Espiritualidade; educacao@casavelha.org. & Sara Borges[8]FGS | Fundação Gonçalo da Silveira; sara.borges@fgs.org.pt.

 

Resumo:

Neste texto pretende-se evidenciar a importância das práticas artísticas enquanto elemento metodológico facilitador de aprendizagens relacionadas com a Educação para o Desenvolvimento e Cidadania Global (EDCG) em contexto escolar. Para tal, ter-se-á por base o projeto EDxperimentar, implementado em escolas pertencentes a quatro territórios de Portugal – Covilhã, Faro, Lisboa e Ourém – através de parcerias entre os Agrupamentos Escolares e quatro Organizações da Sociedade Civil (OSC) desses territórios, o qual teve por objetivo alargar e reforçar processos e práticas de EDCG dentro das escolas. Através da implementação de Laboratórios de Cidadania Global e Desenvolvimento – espaços de experimentação e acompanhamento de práticas pedagógicas de EDCG integradas na componente curricular de Cidadania e Desenvolvimento das escolas – o projeto propôs-se levar a cabo a experimentação de processos educativos que visam a reflexão crítica sobre problemáticas globais e locais, abrindo outras possibilidades de relações entre pessoas e ecossistemas, construindo caminhos coletivos para o bem comum e justiça social. Dentro das várias propostas educativas já experimentadas, muitas têm por base o desenvolvimento das expressões artísticas e estéticas das/os estudantes.

Na base desta partilha, encontra-se o processo de sistematização de aprendizagens do projeto, o qual potencia um percurso de reflexão crítica, partindo das práticas, experiências e vivências de estudantes, docentes e técnicos de OSC envolvidos no projeto, construídas ao longo do tempo, valorizando e visibilizando os processos levados a cabo e as aprendizagens realizadas, tanto a nível individual, como coletivo.

Em coerência com a dimensão colaborativa do projeto, este artigo/prática foi elaborada em conjunto pela equipa de sistematização de aprendizagens e as equipas das OSC envolvidas no projeto.

Palavras-chave: Expressões Artísticas; EDCG; Cidadania e Desenvolvimento; Educação para a Cidadania; Parcerias Escolas-OSC.

 

1. Introdução

Entre 2019 e 2025, foi levado a cabo nos concelhos da Covilhã, Faro, Lisboa e Ourém, o projeto EDxperimentar – Laboratórios Pedagógicos de Cidadania Global & Desenvolvimento em meio escolar[9]Visite o site do projeto EDxperimentar em www.edxperimentar.fgs.org.pt., um projeto de Educação para o Desenvolvimento e Cidadania Global (EDCG). Este projeto, que incluiu uma primeira edição entre 2019 e 2022 e uma segunda entre 2022 e 2025, foi promovido numa lógica de consórcio por quatro Organizações da Sociedade Civil (OSC) – Fundação Gonçalo da Silveira (FGS), Associação Casa Velha (ACV), CooLabora e Cooperativa Mandacarú – e implementado em associação com 12 agrupamentos de escolas, escolas não-associadas e estabelecimentos de ensino privado pertencentes aos quatro concelhos. Nomeadamente, na Covilhã, a Escola Secundária Quinta das Palmeiras, o Agrupamento de Escolas “A Lã e a Neve”, a EPABI e a Escola Secundária Campos Melo; em Faro, a Escola Secundária João de Deus, o Agrupamento de Escolas Pinheiro e Rosa, o Agrupamento de Escolas Afonso III; em Ourém a Escola Secundária de Ourém, a Escola Básica Integrada da Freixianda, o Colégio do Sagrado Coração de Maria e ainda, de Tomar, a Escola Secundária Jácome Ratton; em Lisboa, no Lumiar, o Agrupamento de Escolas Professor Lindley Cintra, com a EB Lindley Cintra e a Escola Secundária do Lumiar. 

O projeto EDxperimentar teve por objetivo alargar e reforçar processos e práticas de EDCG dentro do sistema de ensino obrigatório, pretendendo dar suporte e acompanhamento a práticas pedagógicas da componente curricular de Cidadania e Desenvolvimento, e favorecendo uma articulação entre duas estratégias nacionais de política educativa – a Estratégia Nacional de Educação para o Desenvolvimento 2018-2022 e a Estratégia Nacional de Educação para a Cidadania. O projeto EDxperimentar foi cofinanciado pelo Camões, Instituto da Cooperação e da Língua, pelo Projeto Presidência da Plataforma Portuguesa das ONGD, pelo projeto europeu People and Planet promovido em Portugal pelo IMVF e por fundos próprios das OSC do consórcio.

A intervenção foi estruturada a partir de dois âmbitos complementares: a ação pedagógica em contexto escolar e a concertação e influência para a melhoria das políticas públicas. A ação pedagógica baseou-se na implementação de Laboratórios Pedagógicos EDxperimentar[10]Saiba mais sobre os Laboratórios Pedagógicos EDxperimentar na página dedicada aos mesmos em https://www.edxperimentar.fgs.org.pt/laboratórios. integrados na componente curricular de Cidadania e Desenvolvimento das escolas. Estes Laboratórios foram espaços colaborativos de idealização, experimentação e avaliação de práticas pedagógicas de EDCG, entre técnicas educativas das OSC do consórcio e o corpo docente das várias escolas. Incluíram, além do trabalho pedagógico em sala de aula, processos de formação contínua de docentes, intercâmbios residenciais entre estudantes de diferentes escolas chamados Laboratórios Juvenis[11]Saiba mais sobre os Laboratórios Juvenis EDxperimentar realizados e as temáticas trabalhadas em https://www.edxperimentar.fgs.org.pt/laboratórios/labs-juvenis. e a criação de uma plataforma de recursos pedagógicos de suporte a práticas de EDCG em contexto escolar. Ao nível da concertação e influência para a melhoria das políticas, ao longo dos 6 anos de projeto, foi levado a cabo um processo de sistematização de experiências e aprendizagens que, na primeira edição, esteve focado na experiência do pessoal técnico das OSC e, na segunda, foi alargado também à visão experiencial do corpo docente envolvido e dos e das estudantes participantes das atividades. Esta sistematização das experiências e práticas implementadas foi acompanhada por encontros de discussão e trabalho mais alargados com outras OSC, com pessoal técnico municipal[12]Nomeadamente pessoal técnico dos Serviços Educativos de Câmaras Municipais. e da tutela[13]Nomeadamente pessoal técnico da Direção Geral de Educação e do Camões, IP., e com outras escolas dos territórios[14]Saiba mais sobre os Fóruns Transversais e as Conversas Desfiadas realizadas em https://www.edxperimentar.fgs.org.pt/incidência-política.. O processo de sistematização levado a cabo deu origem à produção de conhecimento em diferentes formatos: uma série de podcast[15]Fique a conhecer o PODxperimentar em https://www.edxperimentar.fgs.org.pt/podxperimentar., escrita de artigos e de publicações[16]Saiba mais sobre o conhecimento produzido a partir da sistematização de experiências e aprendizagens em https://www.edxperimentar.fgs.org.pt/aprendizagens. e a realização de comunicações orais em eventos científicos e de partilha de práticas ligadas à educação para a cidadania. 

Entre 2022 e 2025, a ação pedagógica levada a cabo envolveu 393 docentes e 6.659 estudantes dos concelhos da Covilhã, Faro, Lisboa e Ourém e, as atividades de influência política, envolveram 28 OSC provenientes de 7 NUTS III, tendo 14% das organizações associadas da Plataforma Portuguesa das Organizações Não-Governamentais para o Desenvolvimento (PPONGD) participado em fóruns transversais e encontros de partilha de práticas (cf. FGS, 2025).

O texto que aqui se apresenta pretende evidenciar a importância que as expressões artísticas e estéticas foram assumindo nos Laboratórios Pedagógicos EDxperimentar, enquanto elementos facilitadores de aprendizagens ao nível da cidadania global, durante a segunda edição do projeto. Num primeiro capítulo, explicitam-se quais os princípios metodológicos utilizados nos Laboratórios Pedagógicos EDxperimentar e descrevem-se quatro práticas educativas, cada uma de um território distinto, onde as expressões estéticas e artísticas assumiram um papel relevante. Num segundo capítulo realiza-se uma reflexão crítica a partir destas práticas, criando-se um diálogo com os resultados que emergiram do processo de sistematização de experiências e aprendizagens do projeto. Em coerência com a dimensão colaborativa do projeto, este texto foi elaborado em conjunto pela equipa de sistematização de aprendizagens e as equipas das OSC do consórcio.

2. Os Laboratórios Pedagógicos EDxperimentar

O projeto EDxperimentar assumiu-se enquanto plataforma de partilha de experiências, de construção de práticas educativas colaborativas de EDCG e de aprendizagem entre pares, onde escolas e OSC refletiram sobre a aprendizagem e a vivência da cidadania a partir dos contextos escolares. Os Laboratórios Pedagógicos EDxperimentar, que ocorreram na Covilhã, Ourém, Lisboa e Faro e que assumiram temáticas e formatos muito distintos, foram espaços de experimentação e acompanhamento de práticas pedagógicas de EDCG, no âmbito da componente curricular de Cidadania e Desenvolvimento ou em articulação com a mesma. Embora se tenham revestido de uma diversidade constitutiva, vários princípios comuns estiveram na base dos Laboratórios Pedagógicos EDxperimentar.

a) Trabalho colaborativo entre OSC e escolas

A colaboração foi assumida no EDxperimentar como uma das dimensões essenciais da EDCG[17]Cf. com a visão de EDCG proposta em https://www.edxperimentar.fgs.org.pt/educação/edecg. e um princípio fundamental para a construção de soluções aos problemas das nossas vidas coletivas, seja nas escolas, seja de forma mais lata na sociedade. O trabalho colaborativo entre OSC e escolas implica o que se chamou no projeto um olhar de “caleidoscópio”[18]Cf. com o vídeo do projeto dedicado ao trabalho colaborativo em https://youtu.be/o_tRbPK4Dlc., que valoriza a complementaridade de diferentes visões e saberes ao nível da aprendizagem e na vivência da cidadania. A colaboração, baseada na entreajuda e na cooperação, levou a que anualmente cada OSC de cada território definisse com as escolas associadas um plano anual com objetivos específicos a atingir e responsabilidades distribuídas entre as OSC e as escolas. Dependendo do plano anual e da forma de organização da componente curricular de cidadania e desenvolvimento, cada escola identificava uma equipa de docentes que ficava responsável pela coordenação dos Laboratórios ou, com o apoio das coordenações de cidadania e desenvolvimento eram mobilizados professores e professoras específicos. Nestes planos anuais eram também definidas as temáticas a trabalhar, as atividades a realizar e quais as turmas ou grupos de estudantes a envolver.

b) Investigação-ação, metodologias ativas e trabalho por metodologia de projeto

Indo ao encontro da dimensão política da EDCG, que se pretende crítica e transformadora, e potenciando várias das ferramentas criadas pelo projeto EDxperimentar e pelas organizações da parceria, os Laboratórios utilizaram nos seus percursos com as turmas ou grupos de crianças e jovens a investigação-ação como metodologia de educação para a cidadania, utilizando dois possíveis recursos pedagógicos de apoio a este nível: o “Roteiro de Cidadania e Desenvolvimento – recurso pedagógico de apoio à disciplina de Cidadania e Desenvolvimento” criado no âmbito deste projeto e o recurso “Investigar e agir na escola: uma proposta pedagógica”[19]Disponível em https://view.genially.com/60ccdfcea55bff0d3ed4051b. criado pela FGS e CIDAC no âmbito do projeto Escola Ser Vivo dentro de um Ecossistema. Trabalhou-se com base em metodologias ativas e participativas e o trabalho por metodologia de projeto foi uma ferramenta fundamental de trabalho.

c) Flexibilidade e adaptabilidade a cada contexto

A flexibilidade e adaptação à cultura participativa de cada escola, às necessidades específicas e aos recursos existentes em cada território, foram características dos Laboratórios EDxperimentar. Assim, estes laboratórios promoveram processos de EDCG utilizando tempos letivos e não-letivos, espaços de aprendizagem dentro e fora da escola, utilizaram a linguagem do Teatro e das artes como ferramentas de participação, bem como as ferramentas digitais como potenciadoras de partilha entre docentes.

d) Sistematização de aprendizagens e consolidação da integração da EDCG

Como forma de facilitar a consolidação da integração da EDCG em cada escola, cada ano de trabalho incluiu um momento final de sistematização das aprendizagens realizadas. Este momento deu origem a eventos e/ou documentos de síntese que serviram para partilhar com a restante comunidade educativa o caminho realizado, incluindo as suas práticas e processos.

e) Promoção de espaços de aprendizagem e partilha interterritorial

A possibilidade de partilhar práticas e dificuldades entre os diferentes territórios do projeto foi uma das mais-valias do EDxperimentar. Como tal, quer o trabalho com docentes, ao nível da ação pedagógica dos Laboratórios, quer o trabalho com estudantes das diferentes escolas associadas ao projeto, procuraram potenciar esta partilha.

f) Importância das práticas artísticas

Como foi referido, no desenvolvimento destes Laboratórios foram utilizadas várias metodologias, na sua maioria de natureza ativa e participativa. Ao longo do projeto muitas destas tiveram por base o desenvolvimento das expressões artísticas e estéticas das/os estudantes. A partir da partilha de quatro práticas educativas, cada uma de um território distinto, procurar-se-á evidenciar a importância que as práticas artísticas têm enquanto elemento metodológico facilitador de aprendizagens relacionadas com a EDCG em contexto escolar.

2.1. oCupas ciDadania – uma galeria de cidadania em espaço escolar

Em 2021, dois anos após ter arrancado o projeto EDxperimentar, a equipa de cidadania da Escola Secundária João de Deus, em Faro, já tinha um certo trabalho consolidado, uma equipa estável e a crescer e reconhecimento da Direção. Continuava, porém, sem uma sala para reunir e trabalhar e sem espaço próprio de divulgação e promoção das suas atividades. 

Quem conhece as escolas sabe quão difícil é encontrar espaços – salas, paredes – livres e vazios para poder criar, divulgar, expor, mostrar, afixar. A equipa de cidadania encontrou um vão de escadas, esquecido, inutilizado e mal acarinhado e – literalmente – ocupou-o. Esse espaço, estrategicamente bem localizado e acessível a todas as pessoas que frequentam o edifício, surgiu inicialmente com o objetivo principal de divulgar e dar visibilidade às atividades desenvolvidas no âmbito da componente de Cidadania e Desenvolvimento. 

Fotografia 1 – O vão de escadas onde surgiu o oCupas ciDadania,
na Escola Secundária João de Deus, em Faro.

Pouco a pouco, o local transformado tornou-se não só num espaço de divulgação e informação sobre as questões de cidadania e as atividades ou projetos desenvolvidos na escola neste âmbito, mas também de criação artística. 

Em 2022, a cooperativa Mandacaru apresentou uma candidatura à Direção Regional de Cultura do Algarve e conseguiu um apoio financeiro que permitiu ao espaço tornar-se – oficialmente – uma galeria de expressão artística. Além da melhoria do espaço a nível de decoração, sinalética e customização, a ideia era envolver cada vez mais os alunos e as alunas na gestão, dinamização, curadoria e divulgação do espaço.

Em finais de setembro de 2022, a ideia de cogestão da galeria foi apresentada a uma turma de 11.º ano com 23 alunos e alunas. Ficou dedicada uma aula de 50 minutos por semana na disciplina de Filosofia na qual, através de trabalho de equipa e trabalho colaborativo, foram trabalhadas várias temáticas seguindo a metodologia de projeto. Foram explorados e debatidos os problemas da definição e do papel social da Arte: o que é uma galeria e para que serve? / o que é curadoria? Além dessa contextualização da galeria, criaram-se também grupos de trabalho (Gestão / ‘Marketing’ e publicidade / Relações Públicas) e houve um trabalho de definição e construção do logotipo da galeria pela turma toda: a ideia de um alvo, simbolizando o foco, a arte no centro. 

Fotografia 2 – Imagem de uma das exposições que decorreram no oCupas ciDadania
na Escola Secundária João de Deus, em Faro.

A partir dessa primeira experiência com uma turma, todas as exposições realizadas no espaço até hoje foram criadas em estreita colaboração com turmas ou grupos de alunos e alunas, quer seja a nível da curadoria, da montagem, da organização, da inauguração e da divulgação. Realizaram-se uma média de 5 exposições temáticas por ano letivo, sendo que a temática da eliminação da violência contra as mulheres (25 de novembro), Direitos Humanos e Holocausto (dezembro/janeiro) e as nossas causas (abril/maio) são temáticas recorrentes todos os anos. As exposições estão, em princípio, inseridas num conjunto de atividades mais amplo, como palestras, performances teatrais, filmes, oficinas, permitindo abordar a temática de uma forma mais abrangente, mais crítica e para um público mais alargado.

O projeto respeita a metodologia da investigação-ação privilegiando o processo coletivo e a participação. Além da dignificação de um local de passagem pouco aproveitado, a criação do espaço “oCupas ciDadania” dentro da escola permitiu “visibilizar” o que pode ser a cidadania, dando-lhe um contorno mais real, concreto e acessível, utilizando as Artes como meio de sensibilização para questões importantes.

A ideia desta galeria foi fruto de uma parceria entre uma comunidade escolar e uma cooperativa de intervenção cultural e social. Esta sinergia permitiu uma certa complementaridade e multidisciplinaridade que conduziu a um processo criativo e colaborativo que envolveu mundos, experiências e competências diferentes. 

A galeria “oCupas ciDadania” quer ser um espaço alternativo e inovador, dentro da escola, com objetivo de promover a cogestão entre jovens e adultos. A cogestão e as expressões artísticas permitem que os alunos e as alunas possam experienciar concretamente a liberdade. Existe, porém, uma plena consciência de que os/as adultos tiveram a iniciativa e os/as jovens foram convidados a participar. Mas já existiram grupos de jovens com ideias de exposições e temáticas a abordar que foram postas em prática. Também existiram docentes a expor de forma mais digna os trabalhos dos seus alunos e alunas e a dar aulas nesse mesmo espaço. Quando a galeria está vazia, a comunidade escolar estranha. 

Imagem 1 – Logotipo criado para a galeria escolar.

O objetivo é que os/as jovens tenham mais iniciativa, mais liberdade e poder de decisão e que os adultos e as adultas sejam convidados a apoiar e participar. 

Decidiu-se assumir a palavra “galeria” de modo a dignificar as práticas artísticas e juntar a expressão “em construção” para evidenciar o fato que o conceito de galeria será debatido e elaborado ao longo de um processo e que este conceito não está fechado, mas sim, em construção. Temos ainda um caminho por fazer. Esta galeria não é o fim, mas sim o início. Está em permanente construção. 

2.2. Laboratórios EDxperimentar no AE Lindley Cintra

No decorrer dos 3 anos da segunda edição do projeto EDxperimentar, foram realizados no AE Lindley Cintra em Lisboa, vários laboratórios que a FGS acompanhou e construiu colaborativamente, seguindo uma lógica de horizontalidade na relação educativa com todas as pessoas envolvidas, assumindo que tanto educadores e educadoras como estudantes são aprendentes.

O Laboratório EDxperimentar, “Liberdade e Participação Democrática – Os valores de Abril pelo nosso olhar”, decorreu em 2024 com uma turma de 6º ano no âmbito do projeto de turma, pensado para ser um processo com diversas atividades e que pudesse ser integrado no projeto de autonomia e flexibilidade curricular da turma. Este laboratório articulou as disciplinas Educação Visual (EV), Educação Tecnológica (ET) e História, tendo também como objetivo a celebração dos 50 anos do 25 de abril. Em História, criou-se uma linha de tempo da Liberdade a partir dos conhecimentos e visões que as crianças tinham. Realizou-se ainda uma visita de estudo “À Lisboa de abril” a partir do peddy-paper proposto pelo Museu do Aljube. Nas disciplinas de EV e ET foi dinamizado um concurso, aberto às restantes turmas de 6º ano, onde foram criados mais de 160 cartazes sobre os valores de abril e que resultaram numa exposição final intitulada “Os valores de Abril pelo nosso olhar”. A exposição foi montada na Galeria Liminare, pertencente à Junta de Freguesia do Lumiar e integrou a agenda das celebrações dos 50 anos do 25 de abril.

Fotografia 3 – Fotografia no Campo das Cebolas com estudantes de 6º ano durante a visita de estudo
“À Lisboa de Abril”, em maio de 2024.

O Laboratório EDxperimentar sobre Igualdade de Género, decorreu em 2023 com uma turma de 9º ano a partir da disciplina de Cidadania e Desenvolvimento. Este desenvolveu-se utilizando dinâmicas de promoção de competências socioemocionais, debates e investigações que abordaram temas como os preconceitos e papéis de género, a violência no namoro entre outros. Todas estas atividades culminaram num trabalho colaborativo da turma, de criação de uma campanha de sensibilização sobre as desigualdades de género. Os e as jovens construíram frases pensadas para provocar e fazer refletir a restante comunidade escolar relativamente ao tema trabalhado. Assim os cartazes foram colados no “recreio” como forma também de ocupar o espaço escolar com o trabalho realizado em sala de aula. Esta saída do trabalho dos/as jovens para o espaço escolar trouxe uma valorização do trabalho realizado, sendo a turma criada dos cartazes a zeladora do espaço. Ainda hoje, alguns dos cartazes mantêm-se nos pilares da escola.

Fotografia 4 – Momento de colagem dos cartazes criados
com a turma de 9º ano na Escola Secundária do Lumiar, em Lisboa.

O Laboratório EDxperimentar sobre Desenvolvimento Sustentável, decorreu em 2024 com turmas de 11º ano em articulação com a disciplina de Inglês. Este iniciou-se com a realização da dinâmica do “Mural do Clima”[20]Saiba mais sobre o Mural do Clima aqui: https://climatefresk.org/por-pt/.. Esta pretende uma apropriação e compreensão sobre as questões climáticas, através da realização de um jogo de cartas que cria ligações entre causas e efeitos e ajuda a compreender os desafios que advêm das alterações climáticas. Neste os/as participantes têm que trabalhar colaborativamente e são também desafiados a trabalhar a criatividade. Depois de melhor compreenderem o que são as alterações climáticas, os e as jovens iniciaram uma investigação para melhor perceberem o que era o ativismo e conhecerem alguns ativistas ambientais. Com base nestas pesquisas os e as estudantes criaram cartazes sobre os ativistas que investigaram, sendo estes cartazes posteriormente colados pela Escola e utilizados num peddy-paper que decorreu no Dia do Agrupamento.

Das práticas realizadas ao longo dos 3 anos de projeto são de salientar os processos de ensino e aprendizagem co-criados que permitem o envolvimento de docentes com diferentes perspetivas e a utilização de diversas metodologias que possibilitam uma diversidade de formas de aprendizagem.  A diversidade de metodologias utilizadas com as crianças e jovens permite-lhes explorar as temáticas de maneira diferente, mostrando que existem formas de responder às diferentes necessidades de aprendizagens dos e das estudantes, sendo assim possível eliminar algumas barreiras de aprendizagem tendo em conta a diversidade dos/as alunos/as nos contextos educativos.

As práticas artísticas foram uma das diversas metodologias utilizadas e que trouxeram valor acrescido aos processos de práticas pedagógicas de EDCG realizadas. Utilizando esta metodologia, as crianças e jovens criaram vários artefactos artísticos que foram posteriormente partilhados com a comunidade escolar. Esta partilha do trabalho que é feito em sala de aula e a “invasão” do espaço escolar permite a sensibilização dos/as restantes estudantes bem como um sentimento de valorização pelo facto de verem o seu trabalho exposto como num museu. A ocupação do espaço escolar é também valorizada pela comunidade escolar, que vê as paredes da Escola com mais vida e com uma interpelação ao cuidado do mesmo pelos alunos e alunas responsáveis pelos trabalhos expostos.

2.3. Um jardim-labirinto para pensar eticamente uma ecologia integral

Em março de 2024, estiveram na Quinta da Casa Velha, no Vale Travesso, em Ourém, 13 estudantes do 12º ano da Covilhã e de Faro. Tinham participado no ano anterior num dos Laboratórios Juvenis do projeto EDxperimentar, onde, no final, tinham realizado cartazes em pares ou trios. Desta segunda vez, num novo Laboratório Juvenil em formato residencial, realizaram um trabalho diferente – participaram na plantação de um jardim labirinto, cuja estrutura já estava desenhada. 

Fotografia 5 – Participantes no Laboratório Juvenil de 12º ano de 2024.

Esta foi simultaneamente uma prática artística, com uma dimensão estética, mas também ética, pois foi prestado um serviço ao território, ao projeto da Casa Velha. De facto, este trabalho tornou-se parte da Casa Velha – que vai sendo construída pelos tantos grupos que nela passam e deixam a sua marca, a sua contribuição.   

Foi também uma atividade em que se viveram muitas ligações (em que, como diz um pilar da Casa Velha, se “Viveu em Comunhão”); para começar, com todo o grupo que colaborou neste trabalho, mas também com o projeto da Casa Velha, a sua história, o seu território, e ainda com a terra, a vida vegetal, e os seus ciclos naturais, em que se participou e interveio. No final da atividade realizou-se uma conversa em que se tomou consciência do potencial do trabalho em conjunto. Valorizou-se e celebrou-se o resultado surpreendente, que só foi possível alcançar por meio do esforço de todos e todas. Foi feita então uma ponte entre esta experiência e a realidade na nossa sociedade com as suas interdependências humanas e ambientais.

Num primeiro momento foram criados dois grupos: um que pensava no simbolismo do percurso pelo jardim-labirinto e outro que, de mãos na terra, mediu e marcou os lugares onde escavar e plantar os diferentes arbustos ou árvores – alecrins, alfazemas, oliveiras, lagerstroémias. Num segundo momento, cada estudante escavou e plantou um arbusto ou uma jovem árvore, que depois regou.  

Fotografia 6 – Momento de plantação das árvores e arbustos no jardim-labirinto.

O pequeno grupo que pensou o significado do caminho dividiu-o em três etapas, inspiradas também pelo processo que viviam, já pela segunda vez, na Casa Velha, ligado também aos seus pilares. Na primeira etapa, o caminho convidava a pessoa a libertar-se/esvaziar-se do que a impedia de receber o momento presente; na segunda, a acolher aquilo que lhe era dado (experiências, relações, ideias); e, na terceira, a levar de volta para os/as outros/as aquilo que recebera.  

O caminho começa nos portões de saída da casa. A proposta é a de que cada pessoa pegue numa pedra do molho amontoado à saída dos portões e a leve até à entrada no labirinto. Durante o trajeto, vai sentindo, percebendo, como se sente, ao estilo do pilar da Casa Velha “Viver em Verdade”. Reflete “O que é esta pedra? O que posso largar para entrar mais leve no labirinto?”. Pode ser algum pensamento ou preocupação que o/a distrai do momento presente, um ressentimento relativamente a algo feito, por si ou por outra pessoa, mas que quer largar, perdoar, aceitar. Chegando ao labirinto, a pedra “fica à porta”, segundo o pilar “Viver com Pouca Tralha”. A entrada é feita então de forma mais leve e disponível – como propõe o pilar “Viver Abertos e Disponíveis”. 

Dentro do labirinto, atravessa-se primeiro um círculo que alterna arbustos com quatro oliveiras que simbolizam os quatro ramos de membros da Casa Velha atuais, e atravessa-se depois um outro círculo que conta com três árvores que representam os/as fundadores da Casa Velha, as primeiras pessoas que abriram a casa e, sem saber, pela sua generosidade, tornaram o projeto possível. Num paralelismo com esta viagem pela memória da Casa Velha, cada pessoa faz memória agradecida daqueles/as que foram base para si, que lhe deram ou dão aquilo de que precisou para crescer e se abrir à vida. Praticam-se assim os pilares “Viver Agradecidos” e “Viver com Alegria”. 

No centro do Labirinto está uma macieira, que simboliza uma árvore da vida, e ao começar o caminho de saída, cada pessoa pensa em formas de irradiar aquilo que recebeu de volta para as pessoas, lugares, projetos que o/a rodeiam. Pensa num compromisso específico, uma conversa, uma atenção, uma ajuda, uma iniciativa específica, que pode pôr em prática na sua terra ou cidade. Aqui vive-se o pilar “Viver Comprometidos e Atentos”. 

Fotografia 7 – Apresentação do simbolismo do labirinto.

Vários anos terão de passar para as árvores crescerem e formarem o labirinto. E ele terá de ser continuamente mantido pelos grupos que passam pela Casa Velha… De facto, em abril de 2025, participantes do Laboratório Juvenil de 9º ano do projeto EDxperimentar na Quinta da Casa Velha, arrancaram o mato que tinha crescido no labirinto e que já escondia as árvores e arbustos plantados no ano anterior! Na verdade, ambos os grupos (do 12º e do 9º ano) tiveram também contacto com o pilar “Viver Sabendo Esperar”, pilar do ritmo da terra, da espera e da esperança. 

Fotografia 8 – Participantes do Laboratório Juvenil do 9º ano,
foto tirada depois do trabalho de limpeza do jardim-labirinto.

 
2.4. Laboratório de Sustentabilidade Ambiental na Covilhã

Logo no início do ano letivo de 2024-2025, em reunião com a direção e com a coordenadora de Educação para a Cidadania do Agrupamento de Escolas a Lã e a Neve, na Covilhã, decidiu-se dar continuidade aos Laboratórios do projecto EDxperimentar, que já vinham de anos anteriores, continuando a explorar novos caminhos. 

O tema escolhido pela escola foi “sustentabilidade ambiental”, o que fez todo o sentido face ao contexto local, pois o agrupamento situa-se numa encosta da serra da Estrela, muito assolada por incêndios e com fortes marcas de abandono de terras agrícolas e florestais.

A Escola optou por envolver de forma mais intensa duas turmas de 9º ano. Desde o início do ano letivo e até abril, com o apoio da CooLabora, nas disciplinas de Cidadania e Desenvolvimento e de Geografia, estas duas turmas trabalharam os vários domínios do Referencial de Educação Ambiental, num laboratório que decorreu em espelho, isto é, com atividades idênticas em cada uma das turmas, que se realizaram em dias consecutivos. 

Fotografia 9 – Estação Jogo da Memória: alunos/as de 9º ano a dinamizar uma atividade para colegas de 6º ano.

Quis-se experimentar a metodologia de formação de educadores/as de pares neste contexto e desafiaram-se os alunos e as alunas do 9º ano a prepararem atividades para as turmas de 6º ano, utilizando linguagens criativas, capazes de estimular uma melhor participação e motivação.

Apresentou-se às turmas o referencial, para que cada estudante pudesse escolher o tema que mais lhe interessava aprofundar. Os temas foram: sustentabilidade, ética e cidadania; produção e consumo sustentáveis; território e paisagem; biodiversidade e alterações climáticas; e energia, água e solos. Com base nas escolhas individuais foram criados 10 grupos, 5 em cada turma. A partir daí realizaram-se várias sessões de trabalho, sempre em estreita articulação com a professora responsável pela disciplina. 

As sessões decorreram até ao final do 2º período. Cada uma teve uma estrutura similar: começava-se com uma dinâmica de quebra-gelo, apresentavam-se materiais didáticos sobre o tema com linguagens diversas e inspiradoras (músicas, vídeos, jogos, etc.) e reservava-se uma parte significativa do tempo para cada grupo dar continuidade ao seu trabalho de preparação de uma atividade.

Fotografia 10 – Balanço e encerramento dinamizado pelas duas turmas de 9º ano.

Os grupos, antes de decidirem como iriam realizar a sua atividade, tiveram como desafio identificar pelo menos sete formas criativas para abordar o seu tema. Só depois escolheram uma, havendo opções muito diversas: criar uma música, fazer um vídeo, inventar uma exposição com desenhos e fotografias, construir jogos, etc. 

O dia 4 de abril foi a data escolhida para realizar as atividades sobre o tema para as turmas de 6º ano. Procurou-se criar algo agregador e, em conjunto com os alunos e alunas, escolheu-se fazer uma Caminhada Pela Sustentabilidade Ambiental – um passeio a pé, na zona rural e florestal perto da escola. Pelo caminho e na clareira que seria o local de chegada, seriam realizadas as várias atividades preparadas pelos grupos. Porém, a chuva intensa que caiu durante essa semana impediu a realização da caminhada e obrigou a recorrer a um plano alternativo que consistiu na realização das atividades dentro da escola, usando as salas de aula e também outros espaços.

Os diversos grupos prepararam 10 estações diferentes: um RAP com letra e música originais sobre o consumo; um vídeo criado com apoio da Inteligência Artificial; uma caça ao tesouro com questões sobre ecologia; um escape room sobre alterações climáticas e biodiversidade e diversas atividades, como um jogo da memória sobre energia, água e solos ou fotografias sobre as transformações da paisagem. As turmas de 6º ano dividiram-se em 10 grupos e rodaram com muito entusiasmo pelas 10 estações. 

Para chegarem a este momento, os alunos e alunas investigaram autonomamente sobre o tema, inventaram formas criativas de o apresentar e produziram muitos materiais. O entusiasmo e a dedicação que colocaram nesta atividade foram mobilizadores de toda a escola e estimularam muitos professores e professoras, que também participaram ajudando onde os/as alunos/as pediam. O 2º período terminou em festa, com todas estas atividades educativas.

Fotografia 11 – Jogo da glória criado pelos/as alunos/as.

A atmosfera de entusiasmo e alegria conjugada com o senso de responsabilidade proporcionou um momento informal de aprendizagem conjunta, bastante rico em reflexões e em partilha de experiências. No final, a participação de todos e todas foi assinalada através da entrega de certificados e de uma recordação pelo compromisso e empenho demonstrados. 

3. Reflexões e aprendizagens a partir das práticas 

3.1. O processo de Sistematização de Práticas e Aprendizagens

Ao longo da duração do projeto, o EDxperimentar realizou um trabalho de sistematização de práticas e aprendizagens, concretizado enquanto atividade intrínseca e articulada do projeto, transversal às restantes atividades realizadas. 

Concebido enquanto processo de reflexão crítica e construtiva, partindo das práticas, experiências e vivências construídas ao longo do tempo, a sistematização de práticas e aprendizagens pretendeu, originalmente, valorizar e dar visibilidade aos processos levados a cabo e às aprendizagens realizadas – quer ao nível individual como coletivo – enquanto forma de dar nomes às coisas vividas, construir narrativas conjuntas, indo além dos registos das atividades realizadas e permitindo construir uma meta-reflexão sobre o que foi sendo vivido e alcançado[21]Cf. www.edxperimentar.fgs.org.pt/aprendizagens..

Como base deste processo, na 1ª fase do projeto (2019-2022), construiu-se um Guião de Sistematização de Aprendizagens[22]Cf. https://view.genial.ly/6135ef06d672f80d9f561a57/guide-sistematizacao-de-aprendizagens-edxperimentar., definindo-se objetivos, dimensões, passos do processo, propostas de sessões e o sistema de registos de suporte a todo o trabalho. Na 2ª fase (2022-2025) optou-se pela construção de um Referencial de Sistematização, aprofundando-se objetivos e revendo-se dimensões e ferramentas, a partir da experiência da 1ª fase:

Processo de Sistematização de Práticas e Aprendizagens do EDxperimentar

 

1ª fase (2019-2022)

2ª fase (2022-2025)

Objetivos

Ordenar e reconstruir o processo vivido;

Realizar uma interpretação crítica do processo;

Extrair aprendizagens e partilhá-las.

Co-construir massa crítica, visões e narrativas comuns – visibilizar alternativas na EC em meio escolar através da abordagem EDGC, contrariando abordagens “não transformadoras” e “não relacionais”;

Obrigar a parar e refletir;

Gerar mudanças no projeto – abordagens, relações, papéis, intervenções, limites, articulações;

Explorar a força de se trabalhar em parceria;

Alimentar/Complementar reflexões e práticas das OSC parceiras;

Comunicar com atores fora do projeto.

Dimensões

Olhar EDCG:

Dimensão Pedagógica;

Dimensão Ética;

Dimensão Política;

Dimensão Colaborativa.

Lente da Abordagem Whole-School:

Ensino-Aprendizagem da Cidadania / Cidadania Global;

Ambiente democrático e governação nas escolas;

Colaboração/cooperação com comunidade e famílias.  

Lente da Abordagem Whole-School:

Ensino-Aprendizagem da Cidadania / Cidadania Global;

Ambiente democrático e governação nas escolas;

Colaboração/cooperação com comunidade e famílias.

Atores

Técnicos/as das OSC.

Técnicos/as das OSC;

Docentes mais envolvidos/as;

Estudantes mais envolvidos/as.

Ferramentas

Cronologia fotográfica;

Espiral das Aprendizagens;

Alvo das Atividades.

Fichas de aprendizagens;

Histórias de mudança;

Linha da vida do projeto.

Foi também definida uma questão geradora para o processo a levar a cabo de sistematização de práticas e aprendizagens do projeto:

O que é que o EDxperimentar acrescenta / tem de diferenciador? O que o distingue e o que acrescenta aos debates sobre pensar e fazer cidadania em contexto escolar?

3.2. O “modo de proceder” EDxperimentar: o Ciclo da Transformação Social

Tendo como ponto de partida esta questão geradora, durante a 2ª fase do projeto, as ferramentas criadas de sistematização de práticas e aprendizagens foram utilizadas nos encontros da EDquipa de avaliação semestral e anual do projeto, bem como em diversos momentos de avaliação de atividades com docentes e com estudantes. No caso da EDquipa, a linha de tempo do projeto foi complementada e discutida semestralmente e as fichas de mudança foram preenchidas também com a mesma periodicidade. Foram também preenchidas fichas de aprendizagens pelas várias técnicas da EDquipa em momentos de avaliação levados a cabo com docentes. No caso dos docentes, as fichas de aprendizagens e as histórias de mudança foram utilizadas no final de processos formativos, como o curso de formação EDxperimentar ou ações de formação de curta duração. Foram também utilizadas nos momentos de avaliação anual dos Laboratórios EDxperimentar com o corpo docente de cada escola. No caso dos e das estudantes, foram selecionadas várias atividades, como os Laboratórios Juvenis EDxperimentar e iniciativas específicas realizadas no âmbito dos Laboratórios EDxperimentar de cada escola, e no final destas atividades, foi pedido às turmas participantes para preencherem fichas de aprendizagens ou histórias de mudança.

Em janeiro de 2025, a partir do caminho realizado e das várias ferramentas utilizadas, num encontro de avaliação intermédia do projeto, identificaram-se conjuntamente quatro focos de sistematização que permitiram começar a analisar e interpretar as práticas, experiências e os resultados promovidos pelo projeto:

I. Intencionalidade transformadora;

II. Metodologias (diversidade, conteúdo, coerência, …);

III. Ligação local – global – pessoal;

IV. Colaboração e relação (entre OSC e Escolas, entre as OSC, dentro da própria escola). 

No encontro de avaliação final do projeto, em julho de 2025, a partir destes quatro focos, e cruzando com o processo de recuperação das fichas de aprendizagens da EDquipa, da avaliação final do projeto e da reconstrução da sua linha de tempo, aprofundou-se uma narrativa “do modo de proceder” do projeto EDxperimentar. Esta narrativa pretende responder à pergunta geradora do processo de sistematização de práticas e aprendizagens:

  • Uma cidadania que é transformadora da realidade e das suas injustiças.

  • Uma cidadania onde as escolas têm um papel relevante a desempenhar na sua aprendizagem/vivência.

  • Uma cidadania com uma intencionalidade concreta – uma intencionalidade transformadora que pretende contribuir para: justiça social, participação, democracia, ecologia, equidade.

  • Uma cidadania que se constrói a partir da colaboração com outros diferentes e que assume que a agência coletiva é fundamental e valoriza cada sujeito (docentes, não-docentes, estudantes) enquanto potencial agente de transformação social, numa lógica de horizontalidade nas relações e de co-construção de processos de médio e longo prazo.

  • Uma cidadania que é construída/vivida/aprendida a partir de um ciclo de transformação social que vai de cada jovem à turma, à escola, à comunidade e ao território.

A aprendizagem/construção/vivência desta Cidadania para a Transformação Social a partir dos contextos escolares implica quatro dimensões que a experiência do EDxperimentar demonstrou serem fundamentais:

  1. Reflexão e pensamento crítico
  • Reflexão sobre as práticas e sobre a sua intencionalidade;
  • Autorreflexividade e autocrítica;
  • Visão mais profunda – inter-relações / interdependência.

  1. Metodologias
  • Metodologias ativas e participativas que alteram as relações de poder entre estudantes e docentes, bem como dos/as estudantes entre si – mudança a partir da vivência de experiências transformadoras;
  • Diversidade de abordagens educativas e metodológicas como força.

  1. Ligação local-global
  • Entender/ler o mundo através da ligação entre o local o global;
  • 3 círculos concêntricos: pessoal (EU – interioridade, relação), local (NÓS – a escola, o território, o ecossistema), o mundo – experiência de Cidadania Global;
  • Respostas flexíveis e contextualizadas e em relação com o local.

  1. Colaboração na prática/na ação
  • Colaboração duradoura e estável entre OSC e Escolas – uma relação diferente da relação de prestação de serviços;
  • Colaboração entre OSC e comunidades escolares na construção e vivência de uma cidadania comprometida com a realidade social local e global.

Fotografia 12 – Registo da reflexão coletiva sobre a narrativa do “modo de proceder”
do projeto EDxperimentar (Covilhã, julho 2025).

 
3.3. O mais significativo das práticas nos laboratórios EDxperimentar

E nos territórios? De que forma estas práticas co-dinamizadas entre escolas e OSC traduzem no terreno as quatro dimensões da experiência EDxperimentar? Que propostas de Transformação Social trouxeram os laboratórios EDxperimentar a cada escola e aos territórios onde pertencem? 

Com o objetivo de organizar os registos e os relatos dos diferentes Laboratórios EDxperimentar apresentados no capítulo segundo, propõe-se de seguida uma releitura dos mesmos a partir de um diálogo com as quatro dimensões fundamentais para a aprendizagem e vivência de uma Cidadania para a Transformação Social.

Reflexão e pensamento crítico

A reflexão sobre as práticas e sobre a sua intencionalidade conduz a espaços que são pensados para a autorreflexividade e autocrítica com vista a uma continuidade da ação pedagógica transformadora. Recorrendo às práticas EDxperimentar, é possível materializar alguns exemplos desta reflexão e intencionalidade.

A integração de conteúdos curriculares nas práticas laboratoriais EDxperimentar permite ressignificar o conhecimento abstrato proposto pelo conteúdo, colocando-o no “aqui e agora” da realidade quotidiana de estudantes e docentes, conferindo-lhe novos significados através de experiências concretas de aprendizagem ativa e criativa. Na Escola Secundária João de Deus, a integração curricular na disciplina de filosofia na gestão da galeria oCupas ciDadania foi fornecendo oportunidades de aprofundar conceitos que estavam nos programas da disciplina, ao colocá-los na experiência do dia a dia da escola e dos seus atores. Em Lisboa, nos Laboratórios EDxperimentar dinamizados no Agrupamento de Escolas Lindley Cintra, as práticas foram trazendo temas escolhidos em conjunto por docentes e a equipa da Fundação Gonçalo da Silveira (FGS), que trabalharam nas disciplinas de Educação Visual, Educação Tecnológica, História, Inglês e Cidadania e Desenvolvimento. A reflexão sobre os diferentes temas (liberdade, igualdade de género ou desenvolvimento sustentável) foi aprofundada numa perspetiva de integração nos conteúdos programáticos das diferentes disciplinas tendo por base um formato processual aprendente, tanto do ponto de vista das aprendizagens adquiridas entre escola e OSC, como entre docentes e estudantes. Outra forma de integrar conteúdos curriculares foi através de recursos ou documentos específicos na área da Cidadania Global, como, por exemplo, o Referencial de Educação Ambiental. Este documento foi a base de trabalho para os Laboratórios de Sustentabilidade Ambiental na Covilhã, tendo sido colocado em diálogo com os conteúdos curriculares do 9º ano e do 6º ano. O processo proposto, para além de promover aprendizagens entre pares, trazendo uma visão inovadora e reflexiva (para docentes e estudantes) do papel educador dos/das estudantes, propôs um processo de investigação autónoma sobre temas que criaram espaço para pensamento crítico, ação e criatividade. Na prática do Jardim-Labirinto, a dimensão reflexiva é proposta ao aprofundar os diferentes pilares da Associação Casa Velha. A atividade descrita propõe a construção de um labirinto que, através de um processo de prática educativa situada no território e na relação temporal com o ecossistema, aborda os oito pilares constituintes da Casa Velha, colocando-os enquanto princípios orientadores para a integração de pensamento informado na ética do cuidado.

Metodologias

A diversidade de abordagens educativas e metodológicas escolhidas e aplicadas nos diferentes contextos educativos do EDxperimentar apresenta-se como um dos motores da aprendizagem proporcionada pelo projeto, não só nas práticas educativas em escola, como também na relação de aprendizagem entre as OSC e os Agrupamentos de Escolas que fizeram parte do projeto. A intencionalidade destas abordagens é também um instrumento político de transformação social, uma vez que são experimentadas metodologias ativas e participativas que alteram as relações de poder entre estudantes e docentes, bem como dos/as estudantes entre si, uma mudança que acontece a partir da vivência de experiências transformadoras. 

No caso do oCupas ciDadania, parte-se da realidade existente e de um diagnóstico (informal) de necessidades sobre participação de estudantes, para imaginar e concretizar em conjunto uma ocupação de espaço concreto da escola que estava sem qualquer uso para além da utilização diária enquanto espaço de passagem. A possibilidade de experimentar ocupar um vão de escadas enquanto espaço de divulgação e criação artística foi também possível graças à formalização e legitimação na escola deste espaço através de uma candidatura à Direção Regional de Cultura do Algarve. A cogestão artística entre docentes e estudantes colocou outro tipo de possibilidades nas relações de poder entre pessoas e nas formas como se aprende, tornando a ocupação do espaço escolar num ato político de pertença, cuidado e interesse. A curadoria de produtos que resultam das dinâmicas e iniciativas propostas pelos laboratórios EDxperimentar, que compõem espaços de exposição dentro do espaço escolar, emerge, tanto nas práticas em Faro, como em Lisboa. Esta curadoria aparece como fator central metodológico “tradutor” do projeto, revelando-se como um dos componentes essenciais para o estímulo da participação de estudantes. Já na prática do Jardim-Labirinto, é possível perceber que a proposta parte de uma metodologia marcada por uma temporalidade diferente daquela que é a habitual nas escolas e que traz a possibilidade de contribuir para uma mudança que vai marcar o território através do contacto com a terra. Esta “mudança do habitual” que é caracterizada por tempos diferentes, num espaço diferente, de natureza convivial, entre pessoas que pertencem à escola mas que estão fora dela, é algo muito valorizado por estudantes e docentes enquanto prática educativa transformadora. É também significativo ser uma prática dinamizada fora das fronteiras escolares com impacto, não só nos/as estudantes, como também no espaço da Casa Velha, uma vez que foi incluído enquanto memória da casa e também enquanto prática viva que pode ser visitada e vivida. Abordagens metodológicas como a aprendizagem entre pares nos Laboratórios de Sustentabilidade Ambiental ou o foco nas práticas artísticas nos Laboratórios EDxperimentar em Lisboa, conduzem à experienciação de uma outra forma de relação com a escola. É visível a importância da diferenciação da estrutura metodológica proposta e o que ela proporciona à comunidade educativa, principalmente aos alunos e às alunas, quando são envolvidos/as num processo de “aprender a ensinar” relacionando jovens mais velhos/as com mais novos/as, ou quando são estimulados para utilizar linguagens artísticas nos processos de sistematização do que aprenderam. Aqui também, a integração dos currículos a partir de formatos pedagógicos não tradicionais facilita o entendimento dos conteúdos e possibilita uma perceção positiva da aprendizagem enquanto algo “divertido” e motivador.

Ligação local-global

Ler e entender com profundidade o planeta e as relações que o compõem é uma dimensão fundamental e diferenciadora da EDCG. No projeto EDxperimentar a exploração das ligações entre as experiências e decisões ao nível local e os seus impactos a uma escala global fornece pistas de reflexão e ação fundamentais para que os laboratórios se transformem num espaço vivo de pensamento complexo. 

Em todas as práticas descritas existe uma preocupação para que a abordagem aos temas seja feita a partir de problemáticas situadas na esfera local, proporcionando possibilidades de pensamento situado, ou seja, que possa ser desenvolvido e aprofundado ancorado nas suas territorialidades. Este ponto de partida apoia o trabalho de aprofundamento e diálogo dos três círculos concêntricos que ligam as experiências e aprendizagens entre a esfera pessoal, a local e a global (Eu-Nós-Mundo).

Na descrição da prática do Jardim-Labirinto é notória a importância dada ao cuidado com a terra a partir de uma atividade na terra, cuidado esse que é materializado pela plantação e rega coletiva de diferentes arbustos e árvores. Também nos laboratórios de Sustentabilidade Ambiental da Covilhã, o cuidado com os ecossistemas locais, onde está inserida a comunidade educativa, é um fator dinamizador das atividades. Num contexto global de emergência climática, estes dois locais têm em comum desafios ligados às alterações climáticas, como períodos de seca prolongados ou incêndios florestais significativos. 

Nos Laboratórios EDxperimentar em Lisboa as questões da sustentabilidade fazem parte de um conjunto de temas/problemáticas mais amplo, de escala global, escolhidos pela escola para dar corpo às aprendizagens. Abordando temas como a Sustentabilidade Ambiental; Liberdade, Democracia e Participação; ou Igualdade de Género em diálogo com os conteúdos curriculares, as atividades colocam várias possibilidades de ligação com a realidade contextual de estudantes, de docentes e mesmo das técnicas envolvidas nas atividades. Da mesma forma, a escolha dos temas das exposições na João de Deus, no espaço oCupas ciDadania, sendo organizadas a partir de um processo coletivizado e significativo de envolvimento de estudantes, espelha o interesse que há em olhar de forma crítica para problemáticas como a violência contra as mulheres ou numa leitura histórica sobre direitos humanos. Nestes dois contextos, Faro e Lisboa, a ocupação das paredes e espaços destas escolas desafia a “neutralidade” na escola e, através de um processo de curadoria artística, o espaço escolar ganha agência crítica trazendo informação, reflexão e ação a partir dos interesses dos/as estudantes, conectando-os de forma mais profunda a uma visão global.

Colaboração na prática/na ação

O formato de trabalho colaborativo nas escolas, processual e aprendente, propõe uma forma diferente de pessoas e instituições se relacionarem. Nas práticas do projeto EDxperimentar esta dimensão emerge sobretudo nos processos de aprendizagem, ao propor a crianças e jovens espaços para praticar e experimentar formatos coletivos de pensamento e ação. Mas a aprendizagem colaborativa também se estende às parcerias entre Escolas e OSC através do planeamento e organização conjunta dos laboratórios, indo além da relação de prestação de serviços, menos duradoura e estável. 

Nestas diferentes práticas, é possível identificar estas “duas faces” da dimensão colaborativa da EDCG em contexto escolar. Na promoção de relações de colaboração entre as escolas e as OSC, o projeto traz possibilidades de aprofundamento de conteúdos/temáticas em formato colaborativo entre estudantes, para as quais as organizações da parceria trazem o seu conhecimento específico e o seu  “saber-fazer” metodológico. Em todas as práticas é possível identificar a centralidade do formato de parceria alavancada pela articulação com as direções/coordenações que estruturam o caminho. 

Um excelente exemplo destas duas formas de colaboração são os laboratórios com ação mais visível na integração curricular de temas EDCG nos espaços letivos de disciplinas específicas. Nos laboratórios de Sustentabilidade Ambiental da Covilhã e nos Laboratórios EDxperimentar em Lisboa, o planeamento e preparação das sessões foi feito entre as técnicas e os/as professores/as, ao colocar nas práticas curriculares os exercícios propostos. Na Covilhã, as atividades do laboratório de Sustentabilidade Ambiental mostram uma outra possibilidade no que diz respeito à colaboração em espaço escolar, ao colocar estudantes a planear e dinamizar colaborativamente atividades para outros/as estudantes. Este modo de fazer colaborativo traz muitos desafios às escolas, uma vez que nem sempre os tempos de preparação ou os processos avaliativos estão preparados para a colaboração, mas trazem também uma aprendizagem nessa intencionalidade de colaborar. É importante o olhar processual e de busca de coerência que estas parcerias propõem, trazendo oportunidades de ir introduzindo, não só nas práticas individuais de docentes, mas também na estrutura e cultura de escola, a colaboração enquanto forma de ensinar e aprender. 

Na Escola Secundária João de Deus, vários elementos das abordagens definidas pelo projeto, emergem ao olhar (ler) o oCupas ciDadania, nomeadamente o trabalho colaborativo. Desde a sua génese, o formato em que as exposições são definidas, os conteúdos escolhidos que vão ao encontro da importância do coletivo no espaço escolar, constituem-se enquanto oportunidades de aprofundar a importância do trabalho colaborativo. No Jardim-Labirinto, prática dinamizada na Casa Velha, emergem duas possibilidades de aprofundar o “aprender em colaboração”. Uma mais direta, através da prática em conjunto de “mãos na terra”, onde o grupo escava, mede, planta e cuida do terreno. A outra com uma temporalidade diferente, caracterizada numa reflexão que navega entre o individual e o coletivo, marcada pelas etapas Libertar-Acolher-Devolver. Nestes dois territórios, Faro e Ourém, a dimensão da ação coletiva, seja num processo de curadoria (com montagem, organização, inauguração e  divulgação de uma exposição), seja num processo de cuidado com a terra (plantação, organização do terreno e rega), fornece muitas possibilidades de aprofundamento da dimensão colaborativa da EDCG, situando esta dimensão nas experiências coletivas das pessoas, dando-lhes formatos que apoiam o reconhecimento do estético e artístico enquanto algo que a escola pode também legitimar.

3.4. Principais aprendizagens dos Laboratórios EDxperimentar

Como resultado do processo colaborativo de sistematização de práticas e aprendizagens aqui descrito elencam-se de seguida as principais aprendizagens identificadas a partir dos diferentes laboratórios dos quatro territórios do projeto EDxperimentar e que podem dar pistas sobre o papel das práticas EDCG em contexto escolar, quando apresentadas e trabalhadas enquanto espaços de experimentação e desenvolvimento das expressões artísticas e estéticas das/os estudantes.

Em primeiro lugar destaca-se o foco em tornar os laboratórios, nos seus diversos formatos metodológicos e conteúdos trabalhados, parte do espaço escolar ou da comunidade educativa, concretizando as aprendizagens em produtos criativos, artísticos e com um valor estético. Esta concretização não está presa a um modelo único e pode assumir vários formatos metodológicos, ainda que todos coletivos. No caso dos laboratórios EDxperimentar, temos exemplos vivos na ocupação de um espaço físico, no aprofundamento de temas a partir da integração de conteúdos ou na celebração de dias temáticos, ou ainda na intervenção na terra/natureza enquanto forma de trabalhar competências socioemocionais. 

Outro elemento é a importância da linguagem artística na escola. As escolas são reconhecidamente espaços carregados de uma linguagem pedagógica muito racionalizada, quer seja na forma como o conhecimento é abordado e transmitido, quer seja na forma como as aprendizagens são proporcionadas e avaliadas. A arte, nos laboratórios EDxperimentar, constituiu um elemento importante por ser experimental, por não caber completamente na “racionalização” escolar e porque dá outras possibilidades à construção de uma cidadania coletiva de escola. E, talvez, nas equações em que experimentação e arte sejam aplicadas em espaço escolar, existam boas possibilidades de se criar uma cultura de cidadania durável, no sentido em que é integrada e colocada em articulação com o resto dos conhecimentos, inclusivamente podendo ser interdependente com as estruturas de cidadania da escola.

A natureza convivial das atividades é um dos elementos que mais sobressai das práticas narradas neste artigo. A criação de ambientes saudáveis de convívio na aprendizagem ajuda a uma mudança na perceção do que se aprende e como se aprende. Assim como a criação de ambientes que estimulam a aprendizagem sobre o que é colaborar e a construção do sentido coletivo da ação.

A promoção do diálogo entre os currículos escolares e os “currículos” das OSC, permite a integração de temáticas de EDCG, não só nas escolas, como nas práticas educativas das OSC. Estas parcerias colocam em prática formas de “fazer diferente” na escola congregando fatores como: a) a vontade coletiva de fazer algo; b) a integração de uma pluralidade de vozes e visões de vários atores da comunidade educativa que criam novas possibilidades de aprender de outra forma; e c) enraizando na cultura e nas infraestruturas das escolas tempos e práticas da reflexão crítica sobre as interdependências globais.

Voltando ao ciclo de transformação social, podemos concluir que o projeto EDxperimentar levou a cabo a experimentação de processos educativos integrados na componente curricular de Cidadania e Desenvolvimento das escolas que, visando a reflexão crítica sobre problemáticas globais e locais, abriram outras possibilidades de relações entre pessoas e ecossistemas, construindo caminhos coletivos para o bem comum e justiça social.

References
1 FGS | Fundação Gonçalo da Silveira; eva.jesus@fgs.org.pt.
2 Equipa SA EDxperimentar; Universidade Católica Portuguesa do Porto – Área Transversal de Economia Social; Fundação Aga Khan Portugal; filipemartins79@gmail.com.
3 Mandacaru – Cooperativa de Intervenção Social e Cultural; lauredw@yahoo.fr.
4 CooLabora – Intervenção Social, CRL; gracarojao@gmail.com.
5 Equipa SA EDxperimentar; ESE – IP Santarém; hugocruzmarques.pr@gmail.com.
6 Equipa SA EDxperimentar; jorcardoso@gmail.com.
7 Associação Casa Velha – Ecologia e Espiritualidade; educacao@casavelha.org.
8 FGS | Fundação Gonçalo da Silveira; sara.borges@fgs.org.pt.
9 Visite o site do projeto EDxperimentar em www.edxperimentar.fgs.org.pt.
10 Saiba mais sobre os Laboratórios Pedagógicos EDxperimentar na página dedicada aos mesmos em https://www.edxperimentar.fgs.org.pt/laboratórios.
11 Saiba mais sobre os Laboratórios Juvenis EDxperimentar realizados e as temáticas trabalhadas em https://www.edxperimentar.fgs.org.pt/laboratórios/labs-juvenis.
12 Nomeadamente pessoal técnico dos Serviços Educativos de Câmaras Municipais.
13 Nomeadamente pessoal técnico da Direção Geral de Educação e do Camões, IP.
14 Saiba mais sobre os Fóruns Transversais e as Conversas Desfiadas realizadas em https://www.edxperimentar.fgs.org.pt/incidência-política.
15 Fique a conhecer o PODxperimentar em https://www.edxperimentar.fgs.org.pt/podxperimentar.
16 Saiba mais sobre o conhecimento produzido a partir da sistematização de experiências e aprendizagens em https://www.edxperimentar.fgs.org.pt/aprendizagens.
17 Cf. com a visão de EDCG proposta em https://www.edxperimentar.fgs.org.pt/educação/edecg.
18 Cf. com o vídeo do projeto dedicado ao trabalho colaborativo em https://youtu.be/o_tRbPK4Dlc.
19 Disponível em https://view.genially.com/60ccdfcea55bff0d3ed4051b.
20 Saiba mais sobre o Mural do Clima aqui: https://climatefresk.org/por-pt/.
21 Cf. www.edxperimentar.fgs.org.pt/aprendizagens.
22 Cf. https://view.genial.ly/6135ef06d672f80d9f561a57/guide-sistematizacao-de-aprendizagens-edxperimentar.