Memória, aprendizagem, transformação social:contributo para uma celebração

Luísa Teotónio Pereira[1]Co-fundadora e membro do Conselho Diretivo do CIDAC – Centro de Intervenção para o Desenvolvimento Amílcar Cabral (1974-2017). Coordenadora da CDPM – Comissão para os Direitos do Povo … Continue a ler

“Sim, gostaria muito de tentar escrever alguma coisa sobre memória, aprendizagem, transformação… é um grande desafio”. “E celebração”, insistiu a Joana. “Pois, celebração…”, a voz quebrou. “Só experimentando, ver o que consigo fazer…”, disse num tom incerto.

A pouco e pouco veio-lhe à memória uma sala onde estavam várias pessoas, juntas numa reunião do Sinergias ED, e ouviu o Jorge dizer: “É preciso celebrarmos isto. Celebrar é importante.” Foi nessa altura que tomou consciência. Retemos mais facilmente o que não corre bem, e não temos tempo para saborear e partilhar o que nos traz alimento.

Talvez tenhamos algum pudor em nos congratularmos, querendo fugir ao auto-elogio, à propaganda, à publicidade que nos cerca por todos os lados. Ao espírito de competição no qual nadamos desde que nascemos: “o que fez mais”, “o que chegou primeiro”, o “que viu antes de qualquer outro”… Sorriu ao lembrar-se de como às crianças, sobretudo às meninas, se recomendava antigamente a modéstia, o recato: “elogios só em ocasiões próprias, e são raras” – pequenos nadas que ficam.

Por isso, pensou, construímos tão pouco a partir do que fazemos. Se não registamos as aprendizagens! Repetimos, repetimos… Celebrar ajudaria, embora não fosse suficiente, não é igual a tomar nota, contextualizar, aprofundar. Mas os momentos coletivos importam, dão força, vão até ao coração, constroem confiança e redobram a vontade de aprender.

Foi ao dicionário, porque esta palavra evoca tanta coisa, é tão grande. Afinal resume-se a “compreender”, é o que dizem. Um dia, numa ação de formação, a primeira atividade foi responder a esta pergunta “Como aprendes?”. Sim, dirigida a cada participante. Nunca tinha pensado nisso. A diversidade de respostas espantou-a. “Por conversas”, “por leituras”, “por testemunhos”, “por ver filmes”, “pelo estudo”, “por falar com a minha avó”, “por programas da televisão” (ainda não havia redes sociais). Sentiu mesmo pena de ter perdido os documentos desse curso, que guardou durante um tempo, porque queria voltar a pensar sobre o assunto.

Surgiu-lhe de repente uma imagem. Procurou. Era uma página na qual estava escrito, no alto, deixando muito espaço vazio a seguir, como que a convidar à continuação, ou ao comentário: “APRENDIZAGENS. Aprender fazendo, observando, lendo, escutando. Aprender uns com os outros. Aprender com a nossa própria experiência. Aprender coletivamente. Aprender enquanto pessoas e enquanto organizações. Partilhar as aprendizagens”.[2]CIDAC, & Holliday, O. J. (s.d.). Sistematização de experiências: Aprender a dialogar com os processos (Coleção “Aprendizagens”, 1). Lisboa: CIDAC, p. 5.

Claro, só poderia ser, esta catadupa de olhares foi uma consequência da irrupção do Oscar Jara nas nossas vidas, tinha a certeza. Recordou como navegando por entre projetos, organizações, formações e encontros, incluindo o Sinergias ED, o Oscar nos tinha aberto uma multiplicidade de horizontes: desde a história da América Latina até à sistematização de experiências. E a celebração também! Não faltavam esses momentos, acompanhados da guitarra e do coro do dia.

Esse vocábulo, “experiência”, tornou-se central. Começou com uma afirmação simples: “cada momento é único”. Foi a revelação de uma evidência! Fazia sentido e implicava uma quantidade de coisas, que desaguavam nas potencialidades imensas de aprender com a experiência, de cada um/a, de cada grupo, de cada atividade. Tudo junto: pessoas, coletivos, num determinado tempo e lugar, envolvidos numa mesma ação, querendo transformar. Numa linha do tempo descodificam-se interações, dinâmicas de conhecimento e de poder, altos e baixos, surgem muitas perguntas e descobrem-se muitas respostas. Pode-se resumir assim?, inquietou-se. Será sempre curto, suspirou.

Fez uma pausa. Passaram-lhe mentalmente na frente dos olhos uma quantidade de pessoas e de situações, passadas e presentes. Vidas, percursos, laços.

Algo que nunca esqueceu foi a enorme distância entre este processo e a prática habitual do que se chama “partilha de experiências”. Isso é frequentemente tão frustrante, apesar das intenções! Pequenas estórias com muito significado para quem fala, tão pouco compreensíveis para quem ouve… Sem contexto, sem antes nem depois, sem perspetivas…

As palavras, que dádiva e que dificuldade. Aprender e celebrar, o quê, para quê? No caso, para transformar. É uma maneira de dizer “mudar” não é suficiente, até porque se pode mudar em muitas direções, nem todas com o mesmo sentido. Talvez transformar também? Por isso se especifica: “transformação social”. Quer-se ir mais fundo, às raízes dos problemas, não só às suas consequências ou ao que é mais visível. Deseja-se ultrapassar o curto prazo, olhar para mais longe. Tenta-se reconhecer, compreender e trabalhar com a complexidade que nos rodeia, em que estamos imersos, da qual somos parte. E agir. Bater a indiferença, manter a coerência, saber arriscar.

Fechou os olhos para imaginar como se poderá ser força de transformação hoje. É isso, afirmar princípios, participar com outros, desvendar o que é tornado invisível, identificar o que não se pode aceitar, nem normalizar, ampliar movimentos, no local e global. Lutar. Nada fácil. Então agora, que nos sentimos em fase de permanente choque de placas tectónicas. Entre as alterações climáticas e as fúrias soltas da natureza desrespeitada; a globalização e o nacionalismo que se engolem mutuamente, fora do perímetro do Direito Internacional; os conflitos e guerras nos quais parece não haver lugar para vencedores, onde quase todos perdem e poucos ganham, sempre muito; o dinheiro, o lucro, as vantagens patrimoniais que superam todos os interesses e cavam a miséria generalizada… Tudo é desproporcionado, incluindo a sensação de pequenez de quem se rebela, e não desiste.

Não somos os primeiros, não seremos os últimos. Integramos uma cadeia na qual encontramos um lugar.

Daí a memória. Como recebê-la, como passá-la? Como dar corpo a esse fluxo do que foi feito, ou não foi feito, do que se experimentou e do que outros viveram (são duas situações diferentes), sempre num contexto, visto à luz de múltiplos olhares, passando pelo crivo da compreensão de cada um/a, transformando-o num bem comum partilhável, gerador de ideias e gestos criadores?

Há civilizações, culturas, onde o tempo é longo e fecundo. Naquela que nos foi dado viver é o oposto. A atenção micro-espartilhada. O império da inovação, que obriga a reciclagens permanentes mascaradas de novidade. Saltando de notícia em notícia, de acontecimento em acontecimento. Dizem que o dinheiro precisa de circular para se valorizar. Assim nós… Não há absorção, mas diluição ou pastilhas prontas a engolir. Não deveríamos (no plural) encontrar defesas, antídotos, alternativas, para este modo de vida?, perguntou-se.

De repente, sentiu necessidade de fazer rapidamente a diferença entre história e memória. Hillary Mantel (1952-2022) escreveu que a história “não é o passado – é o método que fomos desenvolvendo para organizar a nossa ignorância sobre o passado. É o registo dos registos que ficaram.”[3]Mantel, H. (2017). Why I became a historical novelist. The Guardian. Sempre gostou desta explicação. A memória será o que construímos a partir da história, do acontecido, a interpretação, o relevo do que permanece e do que desaparece. Há as memórias individuais, as memórias coletivas, e as políticas da memória, que constituem geralmente “um intenso campo de batalha”, na expressão de Manuel Loff e Filipe Piedade.[4]Loff, M., Piedade, F., & Soutelo, L. C. (Coords.). (2015). Ditaduras e revolução: Democracia e políticas da memória. Coimbra: Almedina, p. 9.

Pensou: como é essencial reconhecer e trabalhar a memória coletiva! A da experiência vivida em comum – “essa trama complexa, multidimensional e pluridirecional de fatores objetivos e subjetivos”,[5]Holliday, O. J. (2013). A sistematização de experiências: Prática e teoria para outros mundos possíveis. Brasília: CONTAG. como a caracterizou Oscar Jara, e as das lutas políticas e sociais que forjaram as nossas identidades. Ambas poderão ser fonte de questionamento, de inspiração e de solidariedade na busca da justiça. De contribuição para a transformação social.

Dera tantas voltas por alguns parágrafos e, no embalo, ainda havia ideias que gostava de acrescentar… Quando o objetivo era escrever um prefácio para a edição comemorativa da revista científica Sinergias: diálogos educativos para a transformação social! Aquela que é um marco na Educação para o Desenvolvimento em Portugal, que juntou autores/as e leitores/as de tantos mundos, que tem sempre vários tipos de reflexões para descobrir e explorar, que questionou e debateu o monopólio da academia em relação à criação, validação e disseminação do conhecimento.

Talvez algumas pontas se consigam ligar, desejou ardentemente. Não só com o mote do aniversário, que lhe tinha sido tão bem apresentado, mas também com os outros artigos desse número. Quem sabe? Só navegando pelos textos, isso vai ser um prazer.

 

References
1 Co-fundadora e membro do Conselho Diretivo do CIDAC – Centro de Intervenção para o Desenvolvimento Amílcar Cabral (1974-2017). Coordenadora da CDPM – Comissão para os Direitos do Povo Maubere (1983-2002). Diretora do GENE – Global Education Network Europe (2017-2019). Atualmente está reformada e é membro da AAPSO – Associação de Amizade Portugal-Sahara Ocidental.
2 CIDAC, & Holliday, O. J. (s.d.). Sistematização de experiências: Aprender a dialogar com os processos (Coleção “Aprendizagens”, 1). Lisboa: CIDAC, p. 5.
3 Mantel, H. (2017). Why I became a historical novelist. The Guardian.
4 Loff, M., Piedade, F., & Soutelo, L. C. (Coords.). (2015). Ditaduras e revolução: Democracia e políticas da memória. Coimbra: Almedina, p. 9.
5 Holliday, O. J. (2013). A sistematização de experiências: Prática e teoria para outros mundos possíveis. Brasília: CONTAG.