Teresa Martins [1]Educadora Social.

Em maio de 2021 estreou o filme “Prazer, camaradas”, de José Filipe Costa. A sinopse que li na página da Medeia Filmes era desafiante:

1975 – pós-revolução 25 de Abril. Eduarda, João e Mick viajam da Europa do Norte para trabalhar nas cooperativas das herdades ocupadas em Portugal: conseguirão trazer a revolução sexual aos campos de Portugal? Prazer, Camaradas!, o novo filme de José Filipe Costa, é, como diz o realizador, a dramatização “das memórias de uma revolução que não foi apenas política, mas também sexual e de costumes”, confrontando as ideias e os comportamentos de estrangeiros e portugueses sobre a intimidade e a vivência da sexualidade.

Fui ver o filme logo nessa altura e o que partilho hoje são memórias e representações que me ficaram, vários meses após a visualização do filme e sem o ter revisto novamente.

Não obstante a forma e as opções estéticas do filme, de que não me parece justo falar a esta distância temporal, recordo-me de ter saído da sala com a sensação de que tinha visto um filme ‘leve’, bem-humorado e que contava uma história a que tenho tido pouco acesso, apesar de toda a informação que circula sobre o período pós 25 de abril.

Saí do cinema com a reforçada convicção de que a transição democrática que se viveu em Portugal nos anos 70 terá sido muito mais intensa e profunda do que aquilo que uma pessoa nascida nos anos 80 poderá imaginar.

Com o 25 de abril de 1974 abriram-se as portas de Portugal, dos portugueses e sobretudo das portuguesas ao mundo… no sentido literal, já que aumentou o contacto com pessoas oriundas de outros locais, com mundivisões distintas daquelas em que o regime fascista tentava circunscrever os e as portuguesas, mas sobretudo do ponto de vista simbólico. Graças a processos e movimentos diversos, nomeadamente programas de educação popular que se multiplicaram pelo país, muitas pessoas foram desafiadas a pensar sobre si próprias, sobre os seus direitos, as suas circunstâncias e as suas opressões, confrontando-se, não raras vezes, com situações em que eram os seus próprios carrascos. Neste filme visitamos algumas destas reflexões, conduzidas por pessoas que as protagonizaram na altura e que as representaram agora, mais de 40 anos depois.

Como o nome do filme indicia, a questão do prazer e da sexualidade é um dos seus temas centrais. Saídos de um período determinado por uma visão do mundo machista, que penaliza e coloca num lugar de subalternidade as mulheres, sobrecarregando-as com todas as responsabilidades do trabalho doméstico e com tantas outras, vamos assistindo a conversas e dinâmicas diversas, que permitem perceber o quanto o contexto histórico em que viviam condicionava a perceção das pessoas em relação ao seu direito ao prazer, uma dimensão tão importante como qualquer outra no que diz respeito à autodeterminação.

Desde as interações em momentos festivos, às discussões sobre a gestão das cooperativas, ou às conversas entre mulheres enquanto tratavam das tarefas domésticas, vamos podendo observar processos de reflexão sobre o lugar das mulheres naquelas estruturas, naquele país, naquele período histórico. É irresistível, para uma feminista como eu, a análise das continuidades que têm sustentado este sistema patriarcal que permite que, quase 50 anos volvidos, ainda nos identifiquemos com aquelas mulheres, com os debates e conflitos com que se confrontavam e que na essência se mantêm contemporâneos. Os movimentos de educação popular, em muitos casos de inspiração freiriana, terão contribuído para a tal “revolução sexual e dos costumes” que se viveu em Portugal nos anos 70… Contudo, é interessante que confrontadas com filmes como este, consigamos reforçar a convicção do quanto há ainda para caminhar e, por conseguinte, o quanto estas pedagogias da libertação são ainda urgentes para a tão desejada transformação social.

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1 Educadora Social.
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[1]Educadora Social. Em maio de 2021 estreou o filme “Prazer, camaradas”, de José Filipe Costa. A sinopse que li na página da Medeia Filmes era desafiante: 1975 – pós-revolução 25 de Abril. Eduarda, João e Mick viajam da Europa do Norte para trabalhar nas cooperativas das herdades ocupadas em Portugal: conseguirão" data-link="https://sinergiased.org/filme-prazer-camaradas/">

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1 Educadora Social.