Sinergias ED: uma memória para o futuro

Alfredo Gomes Dias[1]Licenciado em História e Mestre em Espaço Lusófono, Alfredo Gomes Dias concluiu o doutoramento em Geografia Humana (2012) na Universidade de Lisboa e em Educação (2019) na Universidade Autónoma … Continue a ler

 

Foi longo o caminho percorrido no Sinergias, desde o seu início até ao ano de 2023. Se as contas não me falham, participei durante cerca de nove anos neste projeto e na equipa de trabalho que, entretanto, se foi construindo e reconstruindo com saberes, experiências e sonhos – os ingredientes básicos de todos os projetos que se pretendem participativos, democráticos e críticos.

Quando penso na minha participação no Sinergias, não posso deixar de colocar três questões inevitáveis à minha reflexão:

  1. O que transportei para o Sinergias?

  2. O que aprendi no Sinergias?

  3. O que mudou no mundo desde que deixei o Sinergias?

São estas as três questões a que me proponho responder com uma racionalidade afetiva e um afeto racional – porque as emoções também são parte do pensamento crítico –, sem a importação de ideias alheias, mas tão só com o que vivi, senti e, hoje, observo no mundo em que vivo… em que vivemos.

1. O que transportei para o Sinergias?

(In)felizmente ainda sou dos que transportam memórias da vida em Portugal em tempos de ditadura. Jovem do ensino liceal, hoje secundário, participei humildemente nas lutas que a vida atravessou no meu caminho. Apesar da repressão e dos medos que a envolviam, as reuniões iam acontecendo e os jornais clandestinos iam circulando. Havia uma ditadura para derrubar e uma guerra para terminar. Uma guerra que, em Portugal e em África – creio que o devo dizer hoje –, era revolucionariamente reconhecida como uma luta comum de povos diferentes contra um regime ditatorial e colonial.

Sabemos bem – e hoje, em pleno século XXI, continuamos a aprendê-lo da pior forma – que as guerras são conflitos desencadeados por regimes políticos e por interesses económicos expansionistas que os suportam, e não pelos povos. Estes, em última análise, são todos eles vítimas dos conflitos militares, servindo-lhes de alimento nos campos de batalha ou em casa, assistindo à morte de quem lhes está mais próximo ou, melhor dizendo, distante.

Estas memórias ofereceram-me a capacidade de olhar para um Portugal sempre contextualizado num mundo e, também, o desejo de querer fazer um pouco mais. Por isso, depois de concluída a licenciatura em História no ano de 1981, embarquei, três meses depois, como professor cooperante para a República Democrática de S. Tomé e Príncipe, onde permaneci cinco anos. Era o tempo de me envolver numa nova fase da luta anticolonial. Agora, o objetivo não era derrubar um regime que tinha desaparecido em 1974–1975, mas contribuir, mais uma vez humildemente, para a construção de um país recém-nascido, onde se falava a minha língua e com o qual se partilhava um passado comum, que culminou na história de uma libertação.

Esta minha experiência em África foi complementada com uma nova vivência, agora de apenas um ano, em Kinshasa, na então República do Zaire, governada por Mobutu Sese Seko, tendo lecionado no Colégio Português. Outro mundo, novas experiências e a acumulação de novas aprendizagens, as quais me revelaram como África era um continente de grandes diversidades e contradições, com elites que exploram os seus povos para darem continuidade ao sistema económico mundial que os oprime. Uma realidade que se vai mantendo em tempos de grandes mudanças, mas também de continuidades que parecem querer perpetuar as desigualdades entre grupos sociais em todos os cantos do mundo.

Em síntese, foi este percurso pessoal que me levou a aceitar um desafio, lançado por um colega, de criar uma disciplina de opção na Escola Superior de Educação de Lisboa, integrada na Licenciatura em Educação Básica, intitulada de “Educação para o Desenvolvimento”, depois renomeada de “Educação para a Cidadania Global”. Anos mais tarde, esta experiência estendeu-se à Licenciatura em Animação Sociocultural. E foi no contexto daquela primeira disciplina que surgiu a oportunidade de participar na construção do Sinergias.

Comigo, levei também a formação que fui construindo no domínio das Ciências Sociais, mas não só: levei comigo a experiência, vivida, de que o mundo fazia parte de mim e que eu fazia parte do mundo, na minha ação e reflexão; de que o mundo fazia parte do meu quotidiano em Portugal e de que eu poderia ir ao seu encontro, mesmo que limitado a uma pequena ilha localizada sobre a linha do equador, no Golfo da Guiné.

2. O que aprendi no Sinergias?

As reuniões de trabalho, os textos lidos e produzidos, as atividades desenvolvidas e a participação em seminários e encontros – centrados na problemática da cidadania e da cidadania global – ofereceram-me um campo de estudo que, para além dos novos horizontes que abriram, conduziu-me a outras reflexões que foram alimentando novas formas de ler o mundo.

Se, antes de iniciar a minha atividade docente na Escola Superior de Educação de Lisboa em 1999, já tinha tido diferentes experiências de contacto com metodologias participativas, a vida académica foi-me afastando progressivamente dessas formas de trabalhar a formação de jovens adultos. A minha presença no Sinergias ajudou-me a recuperar formas de estar e de ser professor, acreditando nas potencialidades que os estudantes transportam para dentro da sala de aula.

Deste modo, fui sendo capaz de alargar as metodologias de formação a uma participação mais ativa dos estudantes, incluindo os processos de avaliação, na mobilização dos seus saberes e experiências e na construção de novos conhecimentos, exigindo mais reflexão crítica e menos acumulação de saberes teóricos de forma acrítica e repetitiva. Por isso, tenho sempre um especial reconhecimento por aquilo que o Sinergias me deu: as novas áreas de aprofundamento teórico, o (re)encontro com as metodologias participativas e uma abordagem mais consistente à construção crítica do conhecimento.

Finalmente, importa sublinhar como estas novas aprendizagens me aproximaram de um grupo de pessoas que, na sua diversidade, partilhavam preocupações e sonhos comuns, à procura de novos caminhos para um mundo que mais parecia envelhecer do que mudar. Foi o encontro com pessoas criadoras de esperanças, com quem tive o privilégio de partilhar ideias, experiências e, também afetos.

3. O que mudou no mundo desde que deixei o Sinergias?

Numa reflexão mais cínica, diria que finalmente o mundo começou a mudar, em vez de envelhecer, mas não no sentido do rejuvenescimento que muitos de nós esperávamos que viesse a acontecer.

Em 2023, ano da minha saída do Sinergias, já o regime de Vladimir Putin tinha invadido a Ucrânia e, depois disso, muito mais mudou, seguindo a via aberta no sentido Moscovo-Kiev. Outras invasões ocorreram, outros genocídios aconteceram e novas desigualdades se juntaram às velhas, entre grupos sociais, países e povos. Novos ditadores e candidatos a ditadores foram emergindo, um pouco por todo o mundo. Todos fomos sentindo o quanto eram reais os perigos que corriam as frágeis democracias, fazendo temer o regresso a um passado cujo quotidiano era marcado pelo contínuo olhar sobre o ombro, prevenindo a proximidade de um ouvinte que rapidamente se transformaria em delator.

Um mundo onde os genocídios do passado parecem querer regressar pelas mãos das suas próprias vítimas, comprovando que o assumir de culpabilidades da história é mau conselheiro para as escolhas políticas que fazemos no presente – sobretudo se reconhecermos as hipocrisias e hesitações de muitos Estados face ao que se passa na Palestina e perante a violação do mais elementar direito de se ser humano. Mais do que julgar, o que a história tem para nos oferecer é a compreensão crítica do passado, para se saber ler o presente de modo a assumir a responsabilidade de sermos construtores de futuros… de um futuro que aproxime o futuro desejado do futuro possível.

Podemos sempre refugiarmo-nos no consolo das sementes lançadas, mas bem sabemos que a História nos ensina que muitas delas deram importantes frutos, enquanto muitas outras secaram nos trilhos que regimes, sistemas económicos e diferentes grupos de interesse optaram por seguir.

Vejo o futuro desejado afastar-se do futuro possível, mas sem perder a esperança de que este é um caminho reversível.

 

References
1 Licenciado em História e Mestre em Espaço Lusófono, Alfredo Gomes Dias concluiu o doutoramento em Geografia Humana (2012) na Universidade de Lisboa e em Educação (2019) na Universidade Autónoma de Barcelona. Iniciou o seu percurso docente em 1981–86, como professor-cooperante na República Democrática de S. Tomé e Príncipe. Em 1999, ingressou na Escola Superior de Educação do Politécnico de Lisboa, onde lecionou até 2025, ano em que se aposentou. Integra atualmente dois centros de investigação: o Centro de Estudos Geográficos do Instituto de Geografia e Ordenamento do Território (IGOT-ULisboa) e o Grup de Recerca en Didàctica de les Ciències Socials (GREDICS), da UAB. Colabora também, como investigador, no Centro Científico e Cultural de Macau. Página web: www.alfredogdias.com