Mamadu Alimo Djaló[1]Chef, Sociólogo e Poeta.
A ânsia de ir ao encontro com nada saltou em mim. Nada mais fiz, senão levantar-me da cama e fugir. Por volta das quatro da manhã, depois de tratar da minha higiene pessoal, comecei a andar pelas ruas de Bissau sem destino. Quando dei por mim, ia em direção ao porto da capital guineense. A madrugada estava muito calma como sempre, não se ouvia barulho de nada e nem se via ninguém. O único barulho que se ouvia era o de silêncio, do vento.
Sozinho na rua mas com a imaginação carregada de medo que transborda o corpo todo, embora seja um ser de altura, mas acabei por me encolher e sem levantar muito a cabeça, coberta de um capucho. Sentia-me muito frágil, com medo que alguém me fizesse mal. Segui, apesar desse sentimento. Também pela minha cabeça com ligação ao meu âmago, sentia uma força tremenda e uma determinação que só existe dentro das mulheres.
Continuei o meu caminho em direção ao Purto di Pindjiguiti – como os guineenses lhe chamam –, com a força e determinação das mulheres. Passava-me pela cabeça vontade de começar a correr como se estivesse a fugir de alguma coisa, mas resistia essa sensação, abraçava a fuga que trazia em mim desde casa, referente às sujidades humanas e ao mesmo tempo em direção ao meu ser interior, que de nada me dará tudo. De vez em quando, olhava à minha volta com certa timidez, para ver se via alguém e depois seguia.
Andei mais de uma hora e meia sem ver ninguém na rua. Quando estava próximo do porto de Bissau senti um barulho estranho, fiquei em pânico. Correr, ficar parado, esconder-me, nem sabia bem o que fazer, afinal eram dois senhores, cada um numa mota. Vinham com muito barulho, como daquelas motas de competição, parecia que estavam a fugir da polícia e dei por mim a pensar, – até quando acabam essas maldades mundanas? Roubar e fugir e ainda fogem para lugares sujos. Também senti que talvez podiam parar para me fazerem alguma coisa que não me agradasse. Mas passaram rapidamente por mim, se calhar nem repararam em mim.
Continuei no meu caminho, depois de terem passado por mim com a tal velocidade que até abanou o manto que tinha à volta do meu corpo. Senti um grande alívio e com mais vontade de continuar o meu destino – ao meu próprio.
Quando cheguei no Jardim dos Mártires de Pindjiguiti (Mon di Timba), perto do porto de Bissau, parei e sentei-me alguns minutos para descansar. Contemplei o monumento feito o punho da revolução, no centro do jardim. Pensei em muita coisa, principalmente do suspense que tive no caminho antes de chegar onde estou a descansar.
A claridade já se sentia aos poucos. Levantei-me rapidamente antes que alguém me estrague o plano. Já no porto, vi tanta coisa à mistura: canoas de passageiros espalhadas por quase todos os cantos do porto, barcos, termos, arcas estragadas, cestos, sacos plásticos, lixo por todos os lados e a cheirar a peixe e fedor que não se aguenta. Decidi despir a minha tristeza ali junto das sujidades causadas pelos Homens.
Andei o mais depressa possível em direção à zona das canoas. Sem pensar muito, voltei a fazer um gesto como se estivesse a tirar alguma coisa suja do meu corpo. Entrei dentro de uma canoa que tinha remo. Comecei a remar. Com muita dificuldade de início. Mas passado alguns instantes, deixei de remar. Senti dentro de mim que estava limpo e fechei os olhos. Senti de novo a flutuar naquelas ondas mansas do mar que separa Bissau do Arquipélago dos Bijagós.
Quando dei por mim, estava no meio do mar e à minha volta não via nada, aliás só via vazio e nesse silêncio absoluto, do nada encontrava-se tudo. Afinal de contas estava quase a chegar ao meu encontro. Naquele momento senti-me dentro do meu encontro. Longe de tudo e todos a contemplar a beleza que mais ninguém consegue descrever.
Já senti na pele que o meu refúgio me estava a dar uma felicidade pura. Cada vez mais longe das confusões, sujidades e da falta de bom senso dos citadinos e dos políticos de Bissau.
Abri os olhos e vi que a canoa estava quase a parar. Perdi a noção de tempo, espaço e de todas as movimentações que eu costumava sentir. Não sabia onde é que eu estava. Continuei a remar. De repente comecei a sentir uma respiração diferente. Parei no meio de uma praia, senti mais uma vez o ar puro. Tirei os sapatos, saí da canoa e comecei a correr como se fosse abraçar alguém.
Abracei o meu eu. Esse eu vazio, nada e silencioso que é tudo. O ar puro batia-me cara. Sentia a frescura da areia à beira-mar nos meus pés. Sentia uma alegria infindável com o vento que passava por mim.
Todas as maldades desapareceram. E talvez a única maldade era Eu. Mas não levava a sério, porque não podia fazer mal a ninguém. Sentia-me como se fosse a Natureza. Muito convicto, senti que a natureza me deixou bem tranquilo e com uma pureza divina. Sem maldade nenhuma.
Aquele areal, aquelas árvores gigantes, o ar puro que se respira, as ondas que vão e vêm. Abracei tudo isso e senti dentro de mim. Abraçavam-me também sem se queixarem de nada. Senti-me em casa, com uma alma e mente limpa como nunca. O meu encontro do nada, e que esse nada me deu tudo. Me deu o que há muito procurava. Abracei a natureza e sentia dentro de mim. Afinal de contas a natureza sou eu e eu sou a natureza.
A partir dessa autocompreensão que, no meu regresso à cidade, cheia de movimentações, cores, barulho, intensidade e muito mais, acabei por entender que, de tal maneira que somos capazes de assumir enquanto seres que desejam mudança nos outros, é da mesma forma que nos falta compreender o nosso ser interior como possibilidade de sabermos realmente sobre o nosso posicionamento e desejo de mudança interior que reflita nas nossas ações coletivas.
A maior parte das vezes, partimos para uma possibilidade de julgamento relativamente ao posicionamento alheio, capaz de afetar o nosso bem comum e escapa-nos à autoreflexão, que nos possa permitir estabelecer diálogo franco connosco e com os outros para que o bem comum prevaleça. Resistimos. Ficamos no nosso mundo, sem alargarmos a nossa zona de conforto. Pois, o nosso entendimento mais vincado, nesse mundo contemporâneo, globalizado e com ligações afetivas, muitas vezes, esvaziadas é de que manter na nossa zona de conforto é a maior decisão que se deve assumir. O que não foge muito daquilo que pode ser a verdade, até porque ser-se individualista, também é um modus operandi que mais prevalece hoje em dia.
É exatamente a partir dessa lógica que é preciso, fundamentalmente, conhecermo-nos a nós, enquanto seres imprevisíveis, de modo a podermos abraçar ideias que pautam pelo bem comum, o que nos pode levar a uma transformação social desejada e estruturalmente bem organizada. E assim, lutar constantemente pela prevalência de desejos individuais internos que não lesam o coletivo, porque é o coletivo a razão mais forte da nossa existência, enquanto seres da natureza humana.