Mário Montez[1]Escola Superior de Educação – Politécnico de Coimbra; CERNAS.
Numa discreta loja de uma curta rua de Lisboa conviviam produtos alimentares e brinquedos artesanais, jornais disruptivos e vendedoras voluntárias. Aos sábados de manhã apareciam clientes a recolher caixas de hortícolas e frutas provenientes de uma quinta do lado de lá do Tejo. Duas mulheres fortes de braços e de espírito despachavam as encomendas enquanto a loja se enchia de gente.
A loja de Comércio Justo do CIDAC atraía pela diferença, cercada de restaurantes de diária para gente apressada em produzir riqueza para acionistas das empresas para as quais trabalhavam. Do outro lado da rua, ali nas Picoas, erguia-se um monstruoso edifício de uma monstruosa empresa de telecomunicações, desamparada entre ações judiciais e perdas de memória, igualmente monstruosas, que arrastaram consigo na queda abismal toda a gente da terra, como é apanágio das monstruosidades. No mesmo passeio de acesso à loja estacionava um quiosque metálico de jornais e revistas, desenhado por alguém que nunca sonhara lá trabalhar sob a chapa do sol lisboeta ou à mercê das ventanias da cidade. Os jornais do quiosque anunciavam quedas de monstros e as crises das vidas, sem nunca incluir a vida do jornaleiro. Mais ao fundo, passando o jardim do coreto, fronteiro ao antigo Lyceu Camões, demolira-se pouco tempo antes a antiga escola veterinária para ali se altear a colossal sede da Polícia Judiciária. Monstros devoradores de vidas e promissores justiceiros sociais erguiam-se frente a frente, em topos opostos da mesma rua, à distância de um singelo jardim lisboeta. Entre eles, discreto, mas atento, existia o Centro para o Desenvolvimento Amílcar Cabral (CIDAC) cuja ação resistente e persistente, que eu conhecera noutro contexto, me chamou a atenção pela montra exótica de azeites e bonecos de pano, enquadrada numa estreita e alta janela de um prédio do início do século XX, encimado por construção moderna, de desenho inteligente, igualmente resistente, do arquiteto Teotónio Pereira. Por dentro, vim depois a descobrir, abria-se o passado arquitetónico da Primeira República, do piso da loja, para a contemporaneidade arquitetónica, através de uma porta exclusiva a colaboradores.
Por essa porta passei a atravessar para conversar com Luísa Teotónio Pereira, a pessoa que me desafiou a participar no projeto Sinergias ED. Mais tarde, e no contexto desta memória, passava pela porta para me encontrar com Stéphane Laurent, um sério mestre do Desenvolvimento, como é próprio de quem colabora com o CIDAC. Depois da porta, à esquerda, estendia-se acima uma escada longa até uma divisão afundada em arquivos sobre colonialismo, resistência e democracia. No piso de cima, uma sala aberta albergava pessoas concentradas na sua missão. Numa secretária entre estantes sentei-me com Stéphane para trabalharmos num texto que consolidou a minha participação no Sinergias ED. Um texto sobre a intervenção de Ana Teresa Oliveira, aluna finalista da licenciatura em Animação Socioeducativa da Escola Superior de Educação do Politécnico de Coimbra, em estágio no CIDAC. Um estágio orientado por mim, a nível académico, acompanhado por Stéphane Laurent, a nível prático. Iniciado em outubro de 2016 para contacto com o contexto, elaboração do diagnóstico e planeamento, e executado entre fevereiro e junho de 2017. Um estágio que ainda hoje marca pela vertente militante da Ana Teresa e pela capacidade que teve em entender a animação socioeducativa como prática social e política para o Desenvolvimento e para a transformação social, e a partir daí, a importância de atuar no campo da economia e das “outras economias”.
Do estágio recordo a aprendizagem da Ana Teresa sobre o Comércio Justo e Circuitos Curtos de Produção, assim como o vigor e a inteligência com que a aluna se envolveu no projeto da loja de comércio justo e na dinamização de atividades capazes de motivar e consciencializar clientes sobre preços, ganhos, e condições laborais e de vida de quem produz em primeira linha bens alimentares e de vestuário que consumimos. Receitas de culinária com base nos produtos existentes na loja, visita à quinta de onde provinham os produtos do cabaz, e uma oficina sobre Comércio Justo realizada com estudantes da ESEC, foram algumas das atividades do projeto.
Foi pelo registo escrito deste processo de intervenção socioeducativa, trabalhado a três mãos, e cabeças, que me envolvi mais na Comunidade Sinergias ED. A memória recorda-me um trabalho realizado na convergência das práticas com as teorias, e das preocupações organizacionais com as exigências académicas, visando produção de conhecimento resultante de uma parceria entre organizações da sociedade civil e instituições académicas. Estávamos já no outono ou inverno de 2017, numa ampla sala arrefecida, virada para um agradável jardim interior da Fundação Gonçalo da Silveira, em Lisboa. Uma dinâmica desse encontro Sinergias levou Stéphane e eu a perceber que da parceria já em andamento poderíamos produzir conhecimento interessante sobre um projeto de Animação Socioeducativa para o Desenvolvimento, movido pela consciencialização para os Circuitos Curtos de produção e pelo conceito de Comércio Justo.
Desse desafio identitário do Sinergias ED surgiu o texto “Justo para quem? – Animação socioeducativa e comércio justo. Memória de práticas e aprendizagens em sinergia CIDAC e ESEC”, publicado no número 7, da Revista Sinergias – diálogos educativos para a transformação social, de julho de 2018, alusivo ao trabalho colaborativo e construção de conhecimento em educação para o desenvolvimento, a partir de sinergias entre organizações da sociedade civil e da academia.
A Ana Teresa Oliveira não perdeu o espírito militante nem a energia e organização que sempre a caracterizaram. Trabalha há vários anos na educação não formal com crianças e jovens em contextos educativos prioritários, no município de Sintra. Em 2024 foi convidada como oradora principal da aula inaugural da licenciatura, alusiva ao 25 de Abril e Democracia.
Stéphane e eu mantivemo-nos no Sinergias ED, ele por mais um tempo, e eu até agora. Até lá, trocámos conversas e ideias, não só sobre Desenvolvimento, mas também sobre os outros desenvolvimentos, da educação parental e do crescimento bilíngue das nossas filhas.
Fui seguindo o Sinergias ED, envolvendo-me na comunidade que ia crescendo e onde encontrei pessoas, saberes, energias e “fé” nas causas. Tanta e tão forte que me inspira a estar, a refletir, a agir, a estar, a refletir, a agir, a estar, a voltar, a deixar brotar ideias, a refletir, a partilhar ideias, a propor, a enrodilhar-me em demasiadas ideias, a perder-me em demasiadas propostas, a discutir mais propostas e ideias e reflexões e a agir em diversos desafios, até a consciência tilintar e nesse sonido me ouvir dizer “sou parte desta comunidade”.
Não voltei a ter alunas ou alunos interessados em estagiar no CIDAC. É fisicamente distante para uns, ideologicamente longe para outros. Não surgiram muitas mais militantes de alma conscientemente virada para a mudança social, percebendo como a economia é parte das vidas de todos nós, e que nela se prendem outras causas como o clima, a educação, a justiça ou a Paz.
Curiosamente, passados quase dez anos, e nas intermitências da escrita desta memória, regressei aos pressupostos do comércio justo e do mais basilar da Educação para o Desenvolvimento. A propósito da pergunta “quanto custa um café?” e se “isso é caro?”, e de outras questões metralhadas em seguida, como fazem as crianças na pujança da sua curiosidade, dei por mim explicando à minha filha de oito anos a cadeia, os atores e atividades envolvidas na produção de um café que o pai e a mãe bebem numa pequena chávena, no Café da esquina do bairro (que felizmente para ela também vende gelados!). Percebeu a catraia que a primeira pessoa a trabalhar na produção é quem menos ganha, proferindo, indignada, a sua mais usada expressão, habitualmente ligada ao que a irmã tem ou faz, e ela não: “Isso é injusto!!” … – Por quê? Perguntei. “Porque sem o trabalho dessas pessoas, as outras nunca conseguiam beber o café!”.
Tão simples para uma criança. Mas tão necessária ainda, para os adultos, a Educação para o Desenvolvimento e o pensar de uma cidadania global. Lembrei-me então de que a minha filha conhecera, até aos dois anos, a loja de Comércio Justo do CIDAC, na qual encontrava os bonecos de pano e estranhos carrinhos de lata feitos noutros lados do mundo. Regressei ali à memória da importância do trabalho do CIDAC, do Stéphane Laurent, da Luísa Teotónio Pereira, das colegas e voluntários na loja de Comércio Justo, das produtoras incansáveis que nos traziam frutas e legumes à cidade, das clientes e suas curiosidades, das ações criativas de animação socioeducativa da Ana Teresa Oliveira que durante quatro meses animaram a loja, desafiaram, envolveram, consciencializaram e motivaram clientes a estar, a refletir… a descobrir o que uma criança por natureza descobre: Que “é injusto!”. E que deverá levar a perguntar: “o que posso fazer para não ser?”
Animar sinergias. Podemos começar por aqui.