Laure de Witte[1]Educadora para os Direitos Humanos, formadora em educação não formal e cofundadora da Mandacaru – Cooperativa de Intervenção Social e Cultural, em Faro. Nos últimos anos, tem coordenado … Continue a ler
Em 2016, a iniciativa de Teatro do Oprimido – Os surpreendentes incalculáveis – que eu dinamizava na IPSS, Movimento de Apoio à Problemática da Sida foi selecionada para participar no projeto Alternativas – experiências locais para uma transformação global, uma iniciativa da sociedade civil organizada, coordenada pela FGS – Fundação Gonçalo da Silveira em parceria com a CooLabora, a Fundação Fé e Cooperação, o Instituto Politécnico de Leiria e a Rede Inducar.
Dessa primeira participação guardo a lembrança de me sentir conectada de novo com o resto de Portugal. De fato, em 2010, segui o meu coração e, após 14 anos em Coimbra, mudei-me para Faro. Sem grandes problemas de integração, dei-me, no entanto, conta de que o Algarve estava realmente cortado do resto do país. É mais fácil apanhar um avião para Paris ou um autocarro para Sevilha do que ir a Lisboa ou Porto. É um “reino” à parte, mal conhecido e profundamente estigmatizado pela imagem de região turística.
Em 2018, no seguimento do projeto Alternativas, que marcou o início de uma colaboração e parcerias que dura há 10 anos, fui convidada pelo Jorge Cardoso a juntar-me à Comunidade Sinergias ED.
Fico sempre tocada quando as pessoas pensam em mim para juntar um projeto, participar em eventos ou atividades, pedem a minha opinião e valorizam as minhas experiências e os meus questionamentos. Pertencer a um sítio ou um grupo acontece quando somos chamados a contribuir. E, como estrangeira que (ainda) sou, esse sentimento de pertença é ainda mais precioso.
A Comunidade Sinergias ED É, antes de mais, isso: ficar (re)conectada ao resto do país e sentir que posso contribuir com o que sei (e com o que não sei); portanto, sentir que posso pertencer a uma comunidade específica.
A seguir vem a relação com o(s) saber(es) e com o mundo académico. Essa é outra história. E, para isso, tenho de voltar a contextualizar os meus processos de aprendizagens e de descobertas.
Caí no “caldeirão” da educação popular, em 1992 – que mais tarde chamarei educação não formal – ao participar em campos de trabalho internacionais. Foi um choque na minha visão do mundo. Eu era professora no ensino formal, com um mestrado no bolso, pronta para continuar a estudar e a ser professora toda a vida. Nos campos de trabalho, encontrei outra forma de aprender, outra forma de pensar e a dimensão do fazer, que fazia toda a diferença. Havia uma certa coerência entre a teoria e a prática. Tinha sofrido bastante como professora, mal preparada, atirada ao mundo duro do ensino público em zonas socialmente pobres. Tinha também dúvidas sobre o que era ser professora, sobre o sentimento de inutilidade do meu saber académico perante os alunos e sobre essa relação de poder entre adultos e jovens, com a qual não me sentia nada confortável. Os campos de trabalho abriram-me novas perspetivas.
De costa virada ao mundo da educação formal, graças a um Serviço Voluntário Europeu, mudei de país para mergulhar por completo no mundo da educação não formal e, mais tarde, da educação para os direitos humanos, graças ao meu envolvimento com a bolsa de formadores da DG Youth and Sport do Conselho da Europa.
E é nessa fase final que o Sinergias ED tem um papel importante no caminho das minhas descobertas.
Não há mundos perfeitos em educação.
Até integrar a Comunidade Sinergias ED, as minhas experiências com a academia nem sempre foram fáceis nem positivas. Por vezes, senti o desequilíbrio de poder entre a universidade e a sociedade civil. O meu trabalho já foi utilizado sem retorno nem reconhecimento. Nem sempre sempre se conseguia ter relações horizontais.
Ao mesmo tempo, descobri que o mundo da educação não formal também tinha as suas falhas, erros e incoerências. Comecei a ter uma visão mais crítica sobre algumas práticas sem sentido, vazias e com pouca intencionalidade transformadora. Senti o foco excessivo dado às metodologias, ao lado lúdico e leve da educação não formal, tirando-lhe, aos poucos, a sua seriedade e o seu poder transformador.
Precisava, de novo, de refletir, de alimentar os meus questionamentos com debates, literatura, algum aporte teórico.
De 2019 a 2025, integrei o projeto EDxperimentar – Laboratórios de ED / ECG no meio escolar, coordenado pela FGS – Fundação Gonçalo da Silveira, em parceria com a Coolabora e a Casa Velha. O projeto fez-me entrar no mundo das escolas e trabalhar com equipas de docentes e turmas inteiras.
Paralelamente, convidaram-me para ser professora num curso profissional de Técnicos de Juventude durante 4 anos, assim como artista residente no âmbito do Plano Nacional das Artes.
Descobri a sistematização de experiências. Descobri autores, escrevi artigos, integrei o conselho editorial da revista Sinergias, fui convidada em palestras e conferências.
Nestes últimos anos, parece que os vários mundos se juntaram e se misturam.
O Sinergias ED, de certa forma, reconciliou-me com uma certa educação formal, com o saber mais académico. Encontrei a motivação para estudar de novo e fiz uma pós-graduação em Práticas Artísticas e Inclusão Social, o que também me permitiu obter acreditação para dar formação a professores.
La boucle est bouclée. O ciclo fecha-se, ou talvez não. Talvez não sejam pontes entre as várias educações aquilo que precisamos. Talvez precisemos de outra Educação, para todos e todas, em todos os contextos e em todos os momentos, com intencionalidade de transformação social para um mundo mais justo e solidário.
Obrigada Comunidade Sinergias ED.
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| 1 | Educadora para os Direitos Humanos, formadora em educação não formal e cofundadora da Mandacaru – Cooperativa de Intervenção Social e Cultural, em Faro. Nos últimos anos, tem coordenado projetos que usam ferramentas artísticas e metodologias participativas para promover inclusão social, educação para os direitos humanos e participação. Trabalha especialmente com jovens e grupos vulneráveis e dinamiza ações de formação para profissionais e jovens a nível nacional e europeu. Tem desenvolvido projetos comunitários no Algarve que unem expressão artística, cidadania e intervenção social. |
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