Entrar, ficar e multiplicar: três pequenas histórias de pegadas transformativas

Betina Lopes[1]Professora Auxiliar no Departamento de Educação e Psicologia da Universidade de Aveiro. É membro integrado do CIDTFF – Centro de Investigação em Didática e Tecnologia na Formação de … Continue a ler, Sara Diogo[2]Professora Auxiliar no Departamento de Ciências Sociais, Políticas e do Território da Universidade de Aveiro e investigadora no CIPES – Centro de Investigação em Políticas de Ensino Superior. e Mariana RP Alves[3]Co-diretora pro-bono da associação sem fins lucrativos Cartas com Ciência www.cartascomciencia.org

 

Olá! somos três pessoas – Betina, Sara e Mariana – com percursos pessoais e profissionais distintos na educação e na formação, que em momentos diferentes se cruzaram com a Comunidade Sinergias ED. Entrámos em tempos diferentes, por caminhos diferentes e também com inquietações diferentes.

As três histórias que se seguem são pequenos recortes de um percurso que continua a ser feito entre nós e convosco.

Betina Lopes

Tive o privilégio de conhecer a Comunidade Sinergias ED em 2018, através das colegas e amigas Mónica Lourenço e Amanda Franco. Na altura, era ainda bolseira de pós-doutoramento e encontrava-me num lugar algo ambíguo da vida académica: suficientemente dentro da universidade para conhecer os seus códigos, mas ainda suficientemente à margem para sentir estranheza perante algumas das suas lógicas mais produtivistas, aceleradas e hierárquicas.

Talvez por isso o encontro com a Comunidade Sinergias ED tenha tido – e continue a ter – tanto impacto em mim. Em boa verdade, tenho quase a certeza disso; o “talvez” é provavelmente apenas um dos muitos hábitos de cautela e moderação que a academia também foi entranhando em mim.

À data, discutir e vivenciar, ao mesmo tempo (!), conceitos-em-ação como cooperação (cooperar), diálogo (dialogar) e transformação (transformar) eram experiências relativamente novas para mim. Hoje percebo que sentia falta delas sem o saber e que talvez por isso me sentisse tantas vezes insegura ou “out” da comunidade académica. Olhando para trás, reconheço que a Comunidade Sinergias ED me ajudou a compreender tacitamente que talvez não fosse eu que estivesse “fora”. E, mais do que isso, ajudou-me a consolidar a ideia de que tenho responsabilidade em contribuir na e para a academia aquilo que considero ainda insuficientemente presente: tempo para escutar, espaço para hesitação, legitimidade para a dúvida e valorização das experiências vividas como contextos legítimos de produção de saber.

No alinhamento do título deste texto, não posso deixar de partilhar convosco a história comum da primeira pessoa que decidi desafiar para conhecer a Comunidade. Na altura apelidávamos os encontros da Comunidade Sinergias ED de encontros “detox”.

Com a Sara Diogo partilhava inquietações ligadas à supervisão internacional e às relações entre academia e organizações não-governamentais. Num desses encontros, a Carlota Quintão apresentou-nos o método Symfos e iniciámos a exploração da hipótese de transformar a orientação científica através dele. A ideia não vingou num projeto específico como inicialmente sonhámos, mas também não morreu na praia. A consciência da relevância – e simultaneamente do desafio – de procurar escutar a diversidade das pessoas foi-se instalando lentamente e ajudando a sustentar a minha identidade docente. Não foi o único ingrediente, mas sem as sinergias do Sinergias ED não teria certamente o mesmo sabor.

Por fim, outra aprendizagem que ficou “colada”: discutir em silêncio. Fiquei fã e, sempre que posso, transporto essa experiência para a academia. Ouço frequentemente a reação: “isso não é para um perfil muito específico de pessoas?”. Não me incomoda. Não tem que resultar sempre, nem em todos os contextos, e também isso aprendi no Sinergias ED. Há discussões silenciosas e há impactos silenciosos. Instalam-se devagar, quase sem anúncio, e só mais tarde percebemos até que ponto reorganizaram a nossa forma de pensar, trabalhar e estar com os outros.

Hoje, tenho dificuldade em pensar a academia, e o trabalho académico, fora de uma lógica de rede, colaboração e valorização do processo. Tenho dificuldade em imaginar produção de conhecimento desligada da construção de relações, da escuta e da aprendizagem coletiva. E essa dificuldade dá-me hoje mais conforto do que insegurança.

Obrigada, Comunidade Sinergias ED.

 

Exemplo: Fotografia da última discussão silenciosa feita no âmbito de uma disciplina da área da supervisão. 1/2025

Sara Diogo

Entrei na Comunidade Sinergias ED pela mão da Betina Lopes, longe de imaginar o impacto que aquele convite teria no meu percurso profissional e pessoal. O que começou como uma aproximação curiosa e uma participação pouco confiante da minha parte a uma comunidade/projeto, transformou-se, ao longo do tempo, num espaço de partilha, aprendizagem, escuta, crescimento e pertença, inclusivamente.

Corria o ano de 2019, e conhecia a Betina há poucos anos. Cruzamo-nos no interesse comum pela Cooperação Internacional para o Desenvolvimento, e daí foram surgindo outras partilhas e vontades de trabalharmos em conjunto as nossas pontes. Também como a Betina, encontrava-me num lugar “algo ambíguo na academia”, mais concretamente, num cenário de incerteza que, em alguns momentos mais pareceu uma espécie de limbo… Se, por um lado, o gosto pela docência e investigação moviam-me para continuar na Universidade, a trabalhar, melhorar e superar-me constantemente; por outro, a precariedade dos contratos a termo desde 2015 (como professora convidada) instalavam já um certo cansaço e frustração que me faziam pensar se não seria melhor deixar a academia… Era inevitável o sentimento de: “se calhar, isto não é para mim”… Sei hoje que esse sentimento é (demasiado) comum na academia, infelizmente. (Num inquérito recente promovido pela FENPROF, 40% dos professores convidados têm mais de 10 anos de experiência no ensino superior, e apesar disso, mantêm vínculos instáveis, contratos parciais e ausência de perspetivas de integração). Além disso (da precariedade), sentia-me muitas vezes distante e até impotente perante os ritmos acelerados, as lógicas institucionais tão hierárquicas e as dinâmicas de relações de poder que caracterizam a academia.

Também nesta altura, paralelamente ao Sinergias ED, ao fazer o Caminho de Santiago, conheci a Amanda Franco. Lembro-me da “feliz coincidência” que este momento foi – percebermos as pessoas, as redes e os interesses comuns.

Foi assim que, os primeiros contactos com a Sinergias ED pareciam um paradoxo… A Comunidade Sinergias ED representa tempo… tempo para criar espaços de diálogo com diferentes atores sociais, para construir pontes entre organizações, comunidades e pessoas comprometidas com a transformação social. Uma transformação social consciente e construída em rede, com abertura à diferença, ao encontro e à colaboração.

Foi por isso tão especial o convite e a presença da Betina ao longo deste percurso… Tem sido, aliás! Integrámos juntas o Grupo de Trabalho Colaborativo “Tomadas de posição e influência política” coordenado pelo Jorge Cardoso, e em que participavam também o Hugo Marques, a Sara Borges, a La Salete Coelho, a Carlota Quintão, entre outros.

Foi aqui também onde comecei a descobrir novas formas de pensar comunidade. Este grupo representou um espaço de reflexão crítica, de construção de posicionamentos coletivos perante os desafios sociais que atravessamos, onde pessoas de diversos “backgrounds” (não apenas da academia) e organizações se juntavam com o objetivo comum de pensar o nosso papel na transformação social e política.

Estes encontros ajudaram-me a questionar práticas, identificar desafios e imaginar caminhos mais justos e inclusivos nas várias dimensões do meu dia-a-dia, especialmente na minha prática pedagógica. Novamente, outro paradoxo: era fácil, e inquietante ao mesmo tempo, participar num projeto em que se tenta, em conjunto, dar voz a preocupações comuns. Ao longo destes encontros, pareceu-me bastante claro que a influência política também se constrói através da escuta, do consenso e da participação cidadã. Participar politicamente não significa, exclusivamente, ocupar lugares formais de tomada de decisão, mas também criar pensamento coletivo, promover conversas difíceis e defender valores de justiça, dignidade e inclusão – sempre e independentemente das dinâmicas e relações de poder características da academia. A influência política também nasce de pequenos encontros, de colaboração e da coragem de construir posições comuns em tempos muitas vezes marcados pela fragmentação e pelo afastamento entre pessoas.

Para além do impacto e trabalho desenvolvido no Grupo de Trabalho Colaborativo “Tomadas de posição e influência política”, é fundamental falar das sessões “Sinergias ED: das duas às três”, o roteiro de conversas “Do vime à cesta”. Sim, era uma hora, uma espécie de compromisso, mas mais do que “simples” conversas, eram momentos de encontro verdadeiro que surgiram no confinamento e que se tornaram num exercício de cidadania ativa e de esperança coletiva. Estas sessões pretendiam ser “um roteiro de encontros para pensar e construir, através da ECG, uma cesta de propostas que ajudasse a regressar a um mundo diferente em que não se mantivesses tudo “como era dantes”, na fase de recuperação pós-COVID-19”. Havia espaço para refletir, questionar, ouvir e ser ouvido. Cada sessão deixava sementes – algumas de inquietação, outras de esperança – mas todas contribuíam para uma mudança interior silenciosa e consistente. Estes encontros foram efetivamente muito marcantes para mim. Aprendi o valor da construção coletiva e da resistência feita através da proximidade humana. Num tempo em que tantas vezes vivemos acelerados e desligados uns dos outros, encontrei ali um espaço raro de pertença, presença e autenticidade.

Esses encontros ajudaram-me a olhar para mim própria de forma mais consciente e também para os outros com mais empatia. Aprendi que resistir pode assumir muitas formas: resistir ao isolamento, ao medo, à indiferença e até à ideia de que temos de enfrentar tudo sozinhos. Através das palavras, das histórias e das partilhas, fui percebendo que a transformação acontece muitas vezes nos pequenos gestos e nos espaços seguros que criamos em conjunto.

 

 

Em 2023 a minha participação no Sinergias ED tornou-se menos activa. Fui mãe pela primeira vez e acedi formalmente à carreira académica. Recordo com carinho a felicidade com que estas notícias foram recebidas e a tranquilidade que senti através da compreensão, do cuidado e do apoio desta equipa. Houve uma leveza muito especial na forma como me acolheram neste período de mudança. Ao contrário do que tantas vezes acontece noutras dimensões da vida profissional, não senti culpa nem a sensação de estar a falhar por, durante aqueles meses, não conseguir trabalhar ao mesmo ritmo de antes. Senti, acima de tudo, que havia espaço para ser pessoa, para viver plenamente esta transformação e para continuar a pertencer, mesmo estando mais distante.

Hoje, quando escrevo estas linhas e olho para trás, reconheço como a Comunidade Sinergias ED marcou diferentes etapas importantes da minha vida. Não apenas pelas atividades ou projetos, mas sobretudo pelas relações humanas construídas ao longo do caminho. Levo comigo aprendizagens, afetos e a certeza de que os espaços de encontro e diálogo continuam a ser essenciais para celebrar memórias, fortalecer resistências e imaginar futuros mais humanos – mesmo – e especialmente – numa academia cada vez mais marcada por lógicas neoliberais, competitivas e aceleradas.

Participar na Comunidade Sinergias ED foi, e continua a ser, uma experiência de transformação. Uma transformação feita de escuta, presença, coragem e comunidade. Muito, muito obrigada!

Mariana RP Alves

Entrei na Comunidade Sinergias ED em 2022 por convite da Betina Lopes, na altura parceira da Cartas com Ciência e com quem começava a criar uma relação de confiança e intimidade que continua hoje, e que incluiu ser orientada por ela num projeto meu de postdoc entre 2023 e 2024. “Acho que é a tua cara” disse a Betina. E foi. E é. Não é a minha cara literalmente porque é um coletivo, claro. Na altura trabalhava como gestora de projeto numa instituição de renome e estava um pouco limitada porque é bem difícil explicar o que é a Comunidade Sinergias ED. Disse ao meu chefe que ia a um simpósio.

Faço este exercício de memória em 2026, num comboio a caminho de iniciar o meu turno num bar de praia, depois de um ano e meio em “pausa sabática”, portanto podem-me escapar várias coisas. A Comunidade é muito e já me impactou muito. O principal é o sentimento de pertença num lugar para refletir, partilha de valores, interesse comum em meta refletir mas também agir, conhecer pessoas de diferentes percursos e origens (embora tenha de admitir que é ainda uma comunidade bastante embranquecida do que eu experienciei). As duas Escolas Comunitárias, Escolas de Verão, em que participei foram transformadoras a nível intelectual mas sobretudo pessoal e relacional. É sentir-me menos sozinha no mundo, num ambiente do setor social e academia (habito os dois) que cada vez tem mais pessoas a ceder ao neoliberalismo e menos pessoas a olhar para o essencial e radical das coisas.

Através do Sinergias ED fui à Conferência ANGEL em Paris, conheci a Marta da Costa que imenso me inspirou, que uns anos depois me receberia em Manchester onde fui a um casamento, e onde percebemos o tanto que partilhamos de visão do mundo além das democracias e teorias e trabalhos, mas também em termos de sermos pessoas, do coração, de sermos mulheres. A mulheridade ou sororidade é algo que me lembro bem das Escolas Comunitárias. A equipa de gestão é incrível, mas faz muito mesmo…

Explico que escrevo do comboio porque um misto de personalidade e neurodivergência fazem-me entregar este texto bem em cima da hora, de forma desorganizada, mas a Comunidade Sinergias ED sempre me acolheu exatamente como eu era e sou (e nas mudanças e transformações também), e eu queria sublinhar isso. Claro que numa aldeia é preciso dar e receber, tento dar o que posso, mesmo que seja em formas diferentes do que recebo. A Comunidade ensinou-me a pensar e centralizar o cuidado. Deu-me validação sobre o gaslighting que se sente tanto na academia como no setor social por parte de muitas pessoas que têm mais ou menos poder e perpetuam os sistemas e vícios que nos levam a ter um mundo desigual. A Comunidade deu-me a oportunidade de conhecer tantas pessoas, é uma rede de multiplicar, entre entrar e ficar como o título desta narrativa a três.

Sobre a Comunidade me acolher como sou, nunca me vou esquecer a atenção e cuidado que recebi quando tive uma mudança de vida e depressão, e era outra pessoa, sem grande energia nem capacidade. Abraçaram-me e convidaram-me a vir. “Vem na mesma”. “Não conseguiste e tens vergonha de te ter atrasado, tudo bem, vem na mesma”. E chego ao encontro e não tenho coração para ler em voz alta o meu poema como o Zé pediu, e cada pessoa leu uma frase. Acho que é um momento que para mim descreve bem o que é a Comunidade Sinergias ED. Recebi um convite para uma oportunidade de trabalho numa altura em que tinha decidido que não poderia aceitar nada, para me focar na minha recuperação, mas neste caso eu sabia que eram pessoas seguras, que me ia fazer bem. E durante uns meses posso dizer que esse compromisso foi o que me manteve com a responsabilidade de continuar. Durante a depressão, a minha tia ensinou-me a fazer malha para distrair um pouco a cabeça, acho que foi em janeiro ou fevereiro. Em junho continuava a carregar a malha comigo se precisasse, levei-a para a Golegã, para a Escola Comunitária. Esqueci-me dela lá. Entretanto já não preciso de fazer malha para me regular, respirar, me sentir bem e eu. Como a Liniker diz “aprendi a malhar meu coração”. Obrigada por malharem comigo.

Claro que há imensas discussões relevantes do ponto de vista conceptual, mas acho que esta parte interpessoal é o que podemos confiar sem nenhuma dúvida do impacto para transformar o mundo. A Maya Angelou dizia que levava com ela para o palco todas as pessoas que a amam, amaram, ou lhe fizeram bem. Eu sinto isso, e carrego estas sinergias comigo quando preciso de coragem, quando quero questionar o mundo, para ter confiança de agir para o transformar. Atenção, tempo, afetos. É a Comunidade Sinergias ED para mim.

Obrigada, minha querida Betina, porque mudaste a minha vida sim ao me apresentares a este lugar especial, que espero que continue a ser aberto a quem quiser trazer uma amiga também. Obrigada a toda a Comunidade e equipa de gestão, a cada pessoa eu sei que já disse pessoalmente em cada abraço de reencontro. Em breve vou buscar o meu saquinho de agulhas e malha, para continuar(mos) a tecer.

 

References
1 Professora Auxiliar no Departamento de Educação e Psicologia da Universidade de Aveiro. É membro integrado do CIDTFF – Centro de Investigação em Didática e Tecnologia na Formação de Formadores e integra a sua equipa de coordenação no triénio 2025–2028.
2 Professora Auxiliar no Departamento de Ciências Sociais, Políticas e do Território da Universidade de Aveiro e investigadora no CIPES – Centro de Investigação em Políticas de Ensino Superior.
3 Co-diretora pro-bono da associação sem fins lucrativos Cartas com Ciência www.cartascomciencia.org