Educação para a Diversidade, Justiça e Cidadania Global: diálogos sinergéticos entre leituras (in)comuns

Andreia Reis[1]Instituto de Educação da Universidade de Lisboa. e Sara Monteiro[2]Insight – Piaget Research Center for Ecological and Human Development / Escola Superior de Educação do Instituto Politécnico Jean Piaget do Sul.

 

Demos a nossa mão enluvada de branco a mãos ensanguentadas e conversámos educadamente com homens que pessoalmente chacinaram crianças. Patinhámos por entre excremento e sangue coagulado, muitas vezes pensei que o único equipamento essencial para ser rainha é um par de botas altas.

(Alan Bennett, A leitora incomum, p. 109)

 

Talvez tenhamos sido sempre leitoras (in)comuns que não escolhem as narrativas pela lombada e pelas respostas que anunciam oferecer nas primeiras páginas, aliadas a visões cristalizadas e ilusórias que limitam a nossa capacidade de (re)pensar e (re)imaginar outro(s) futuros e mundos. Foi no trilhar das encruzilhadas do meu percurso enquanto professora e investigadora que conheci a La Salete Coelho e a Joana Costa, que me apresentaram à Comunidade Sinergias ED. Uma Comunidade que descobri configurar-se como um espaço de encontro com outras pessoas que leem o mundo onde as nossas crianças e jovens crescem, com o mesmo desassossego, com a mesma inquietação e a mesma tomada de consciência e compreensão dos desafios globais urgentes. Recordando o provérbio popular “Se queres ir depressa, vai sozinho, mas, se queres ir longe vai acompanhado” e, porque sempre fomos mais longe juntas, partilhando visões similares da educação e do ensino e uma forma de trabalhar colaborativa e dialógica, não poderia deixar de partilhar este (re)encontro com a Sara Monteiro. Com efeito, em comunidade dialogamos, refletimos e cooperamos sinergicamente através de uma “rede poderosa” em prol de uma educação crítica e emancipatória através de processos e práticas que possuem como horizonte a ação orientada para a transformação social.

Como nos recorda Edgar Morin (2020, p.4), frequentemente o que se concretiza fica aquém do pretendido porque “o conforto intelectual e o hábito abominam mensagens que o perturbam”. Ora, aqui temos sido desafiadas a desenhar outros ângulos de visão, a desestabilizar (in)certezas como ponto de partida para a (re)construção de conhecimentos e competências, através do envolvimento em vários projetos, encontros, conferências nacionais e internacionais, parcerias e  grupos de trabalho, incluindo uma escola comunitária.

Cumpre referir, porém, que nestes desafios, inequivocamente, sempre sentimos que as nossas vozes são escutadas e as nossas experiências e diferenças valorizadas, quer como pessoas, quer como profissionais, porque, como interroga Coetzee (2004, p.15) “Não é absurdo, pois não, preocuparmo-nos mais com o que as pessoas têm em comum do que com as separa?”. Esta indagação remete para aquela clássica “Muito mais é o que nos une, que aquilo que nos separa…” e esse, consideramos, ser o espírito da Comunidade Sinergias ED. Não obstante, o mundo em que vivemos perpassado por extremismos, fundamentalismos, polarizações e radicalismos que geram opressão, autoritarismo e violência, vem reiterar que a expressão anterior subsiste num plano retórico sem materialização prática. A este propósito, Parker (2003) havia questionado “How can we live together justly, in ways that are mutually satisfying, and which leave our differences, both individual and group, intact and our multiple identities recognized?” (p. 2). A Comunidade Sinergias ED instiga-nos a refletir sobre esta questão ao envolver-nos em debates sobre as raízes da injustiça sistémica e da inequidade. Raízes sedimentadas em modelos neocoloniais que continuam a perpetuar o status quo e a suster paradigmas de poder opressivos, aniquiladores da liberdade, justiça e da dignidade.

Juntas e juntos (re)significamos que, enquanto membros de uma comunidade global, somos “cidadãos e cidadãs do mundo” e, como tal, devemos demonstrar preocupação e cuidado com o destino de todos os seres humanos para o bem-comum. Esta compreensão assume particular relevância ao abraçarmos o nosso papel enquanto professoras de crianças e formadoras de futuros docentes, e com ele o compromisso com a promoção de competências, atitudes e valores como o respeito e a responsabilidade social e ambiental, abertura de espírito, solidariedade, pensamento crítico, tomada de decisão consciente e responsável, empatia, criatividade, trabalho em equipa, agência e ativismo.

De facto, tendo em conta os nossos percursos de formação e profissionais, ambas reconhecemos a necessidade de colocar a compreensão intercultural, a justiça global e local, e a participação democrática no âmago dos currículos e das aprendizagens. Afinal, como uma de nós já havia escrito,

(…) a escola é um local não só de construção de sonhos, mas também impulsionador de ideias, inovação e mudança: (…) a escola tem como grande finalidade (…) preparar cada um de nós para o exercício de uma cidadania ativa, oferecendo-nos as ferramentas essenciais para que possamos exercer o nosso papel na sociedade de forma crítica, participativa e responsável, contribuindo para o desenvolvimento de um bem comum

(Monteiro, 2024, p.2).

É também precisamente neste sentido que a Revista Sinergias – diálogos educativos para a transformação social, ao longo destes últimos treze anos, tem envidado esforços para conceber e reforçar estratégias e mecanismos de ação e intervenção na educação formal, não formal e informal, à luz do desenvolvimento de uma educação para o desenvolvimento e cidadania global. Juntando-nos a outros membros da academia, da sociedade civil e de diversas Organizações Não Governamentais, através de processos democráticos e envolvimento crítico, podemos (re)construir discursos e caminhos democráticos, informados e responsáveis que visam a desarticulação de relações assimétricas de poder e  hierarquias sistémicas que perpetuam as desigualdades, as injustiças e aprofundam o fosso entre grupos privilegiados e marginalizados – reptos aos quais não podemos, de modo algum “baixar os olhos”, “dar a nossa mão enluvada de branco” ou “calçar umas botas altas”, como menciona a protagonista de Alan Bennett, cujas palavras encetam esta reflexão. É neste raciocínio que a interpelação de Freire (1996) ressoa quando refere que “Ninguém pode estar no mundo, com o mundo e com os outros de forma neutra”; não podemos “estar no mundo de luvas nas mãos, constatando apenas”. Esta perspetiva freireana, acolhida por esta Comunidade, de que estar no mundo implica decisão, escolha e intervenção reforça o nosso compromisso de fazer parte deste percurso coletivo e a nossa esperança de podermos imaginar um mundo mais justo, equitativo, pacífico e sustentável.

 

Referências bibliográficas

  • Bennett, A. (2020). A leitora incomum. Imprensa da Universidade de Lisboa.
  • Coetzee, J. M. (2004). Elizabeth Costello. Dom Quixote.
  • Freire, P. (1996). Pedagogia da Autonomia. Paz e Terra.
  • GENE (2022). Declaração Europeia sobre Educação Global até 2050: Declaração de Dublin. Quadro estratégico europeu para o reforço da Educação Global na Europa até ao Ano 2050. Global Education Network Europe.
  • Monteiro, S. (2024). Professores de 1.º e 2.º Ciclo do Ensino Básico em contextos escolares multilingues e multiculturais: o desenvolvimento profissional em questão [Tese de doutoramento, Universidade de Lisboa]. Repositório da Universidade de Lisboa. http://hdl.handle.net/10400.5/117124
  • Morin, E. (2020). Un festival d’incertitudes. In Tracts de crise: Un virus et des hommes (pp. 1–7). Gallimard. [tradução nossa]
  • Parker, W. C. (2003). Teaching democracy: Unity and diversity in public life. Teachers College Press.

 

References
1 Instituto de Educação da Universidade de Lisboa.
2 Insight – Piaget Research Center for Ecological and Human Development / Escola Superior de Educação do Instituto Politécnico Jean Piaget do Sul.