Mapear um campo em construção: contributos do Multilingual Global Education Digest

Andreia Reis[1]Professora do 1.º Ciclo do Ensino Básico com dezasseis anos de experiência e Professora Assistente Convidada nos Mestrados em Ensino do Instituto de Educação da Universidade de Lisboa. Nesta … Continue a ler, Dalila Pinto Coelho[2]Professora auxiliar na Faculdade de Psicologia e de Ciências da Educação da Universidade do Porto (FPCEUP) e membro integrado do Centro de Investigação e Intervenção Educativas (CIIE). É … Continue a ler, Francisco Parrança-da-Silva[3]Doutorando no Centro de Investigação Didática e Tecnologia na Formação de Formadores (CIDTFF), no Departamento de Educação e Psicologia da Universidade de Aveiro. É membro do Laboratório de … Continue a ler, Joana Costa[4]Técnica de projeto no Sinergias ED, desde 2018, secretária-técnica da Estratégia Nacional de Educação para o Desenvolvimento, em Portugal. É licenciada em Serviço Social, tendo experiência … Continue a ler, La Salete Coelho[5]Educadora, investigadora e consultora em projetos de EDCG no Centro de Estudos Africanos da Universidade do Porto e no Instituto Politécnico de Viana do Castelo. No âmbito das políticas, é … Continue a ler e Mónica Lourenço[6]Professora auxiliar na Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra e investigadora integrada e membro da Coordenação Científica do Centro de Estudos Interdisciplinares (CEIS20). É doutorada em … Continue a ler

1. Introdução

Numa tentativa de evidenciar o espaço crescente que a denominada área da Educação Global, em Portugal mais comummente designada por Educação para o Desenvolvimento e para a Cidadania Global (EDCG), começava a ocupar no discurso académico, o Development Education Research Centre da University College of London lançou, em 2018, o Global Education Digest (Digest). Esta publicação consiste numa compilação anual da literatura produzida na área, proporcionando acesso a artigos recentes, livros, capítulos de livros e teses de doutoramento. Apesar de as duas primeiras edições terem sido bem recebidas no seio da comunidade interessada nestas temáticas, rapidamente se tornou evidente uma limitação importante: a inclusão exclusiva de publicações em língua inglesa. Esta lacuna, reconhecida desde o início pela equipa responsável pelo projeto, começou a ser colmatada na terceira edição do Digest, publicada em 2020, através da integração de produção noutras línguas, entre as quais a língua portuguesa. O envolvimento português neste processo teve origem num contacto estabelecido entre a Academic Network on Global Education and Learning (ANGEL) e o projeto Sinergias ED, que resultou num convite dirigido à Comunidade Sinergias para uma participação coletiva nesta iniciativa. O interesse manifestado pelos seus membros levou à constituição de uma equipa portuguesa que, desde a edição de 2020, integra a Dalila, o Francisco, a Joana, a La Salete e a Mónica, aos quais se juntou, mais recentemente, a Andreia.

Logo na primeira participação, em 2020, assumimos uma fragilidade de representação. Apesar de o Digest ter começado a integrar produção em língua portuguesa, na realidade, toda a equipa era representante de Portugal e não de outras áreas geográficas onde se fala o português. Imediatamente surgiu a inquietação – até que ponto os termos de pesquisa escolhidos pela equipa (educação para a cidadania global; educação para o desenvolvimento e educação global) seriam adequados para captar a produção científica desenvolvida noutras áreas geográficas? Assim, num primeiro momento, tentámos colmatar esta fragilidade consultando especialistas do contexto brasileiro, com o objetivo de obter uma informação mais fina sobre documentos em português do Brasil. Este processo conduziu à inclusão, para o contexto brasileiro, do termo de pesquisa educação para a cidadania planetária.

No entanto, esta solução não nos pareceu a mais sustentada, avançando, no Digest de 2021, para a integração de especialistas brasileiras e brasileiros numa equipa que abrangesse as duas realidades. Para isso, demos um primeiro passo, com a realização de uma “Roda de Conversa” (julho de 2021), apoiada pela ANGEL, em formato online, sob o título “Educação para a Cidadania Global: visões e vozes do contexto brasileiro”. Nesse evento, gerou-se uma conversa em torno dos termos mais utilizados no Brasil e descobrimos todo um campo rico e em movimento. A partir desse encontro, foi identificada uma equipa responsável pela pesquisa no Brasil, coordenada por Sílvia Elisabeth Moraes.

Mais recentemente, temos estado em contacto com os investigadores da Guiné-Bissau, Carlos Cardoso e Miguel de Barros, fundadores do Centro de Estudos Sociais Amílcar Cabral, com vista a alargar a equipa para outras geografias. O nosso desejo é que possam integrar a equipa na próxima edição do Digest, enriquecendo a contribuição em língua portuguesa.

Para além da transformação para um produto multilingue e da preocupação da inclusão de equipas de diversas geografias no âmbito de uma mesma língua (sabemos que o processo de reflexão da equipa de língua portuguesa inspirou outras a seguir o mesmo caminho), o Digest sofreu outra alteração relevante. Embora se continue a reunir todas as publicações no campo da Educação Global, escritas numa diversidade de línguas, estas referências passaram a poder ser consultadas e pesquisadas de forma sistemática na base de dados GEL – Global Education and Learning, lançada em 2023. A publicação passou, assim, a ser constituída por meta-análises da literatura produzida em cada uma das línguas, refletindo uma visão atualizada do estado da arte a partir de diferentes enquadramentos linguísticos – na atualidade, alemão, chinês simplificado, eslovaco, espanhol, finlandês, francês, inglês, italiano, neerlandês, polaco e português – e contextos culturais.

2. Considerações metodológicas

Do ponto de vista metodológico, a participação da equipa portuguesa nas últimas cinco edições do Digest foi-se constituindo como um processo cumulativo de mapeamento, sistematização e análise interpretativa da produção científica sobre EDCG em Portugal. Na primeira edição em que participámos, o trabalho assumiu um carácter mais exploratório, tendo sido organizado em duas fases complementares: uma primeira fase de pesquisa em bases de dados, repositórios e outras fontes relevantes, e uma segunda fase de auscultação de especialistas na área. A escassez inicial de publicações identificadas no período previsto (2015–2020) levou, então, ao alargamento do intervalo temporal de análise (2010–2020), permitindo construir uma visão diacrónica mais consistente da emergência e consolidação da EDCG no contexto português. Nas edições seguintes, este procedimento foi progressivamente estabilizado, passando de um primeiro exercício de identificação ampla para um trabalho de atualização, comparação e aprofundamento anual, mais recentemente enquadrado nos princípios de uma revisão de literatura do estado da arte.

O processo de constituição do corpus de análise assentou numa estratégia de pesquisa bibliográfica diversificada, combinando bases de dados académicas internacionais, repositórios científicos nacionais e ibero-americanos, revistas portuguesas da área da educação e, em edições mais recentes, fontes de literatura cinzenta associadas a políticas públicas, organizações da sociedade civil e projetos de investigação e/ou de intervenção. A pesquisa foi orientada por três expressões nucleares, a saber: “educação para a cidadania global”, “educação para o desenvolvimento” e “educação global”. Esta seleção procurou responder simultaneamente à evolução histórica do campo e às especificidades terminológicas do contexto português. Por exemplo, a opção por pesquisar “educação para a cidadania global” isoladamente, articulando os restantes termos com a expressão “cidadania global” através de operadores booleanos, revelou-se metodologicamente importante, uma vez que, em português, “educação para o desenvolvimento” e “educação global” podem assumir sentidos mais amplos, ambíguos ou afastados daquele a que pretendíamos aceder.

O processo de análise implicou, por isso, não apenas a recolha de referências, mas também um trabalho coletivo de delimitação conceptual, validação e classificação. A separação entre o contexto português e o contexto brasileiro, apesar da pertença comum à equipa de língua portuguesa, decorreu precisamente do reconhecimento de diferenças históricas, políticas, epistemológicas e terminológicas suficientemente profundas para exigirem leituras contextualizadas e situadas. No caso português, a validação passou, numa fase inicial, pela consulta de especialistas nacionais relativamente à base de dados compilada e, nas edições posteriores, pela consolidação interna de critérios partilhados de inclusão, exclusão e categorização entre as diferentes equipas linguísticas que participam no Digest. Outro aspeto que importa referirmos diz respeito ao modo como as publicações foram sendo analisadas segundo dimensões comparáveis entre edições, nomeadamente, ano de publicação, tipologia de texto e temática principal, o que permitiu acompanhar tendências de produção, deslocamentos temáticos e alterações nos formatos de publicação. A destacar há a inclusão, a partir de 2022 e após uma reflexão ao nível da equipa internacional, de uma nova categoria de publicações: a literatura cinzenta. Esta consiste em textos que não são publicações académicas, mas que são relevantes para se compreender o estado de implementação da EDCG, sendo materiais de trabalho úteis para profissionais da área.

Ainda assim, a reflexão metodológica sobre este percurso exige que reconheçamos algumas limitações persistentes. Desde logo, a identificação de publicações foi condicionada por problemas de indexação, pela natureza ainda em consolidação da EDCG enquanto campo académico em Portugal; além disso, pela dificuldade de rastrear livros, capítulos de livro, relatórios e outros materiais menos visíveis nas bases de dados convencionais, bem como por constrangimentos temporais que impediram, em vários momentos, a consulta sistemática das referências dos documentos identificados ou a leitura integral de todos os textos selecionados. A estas limitações acresce a complexidade de delimitar fronteiras entre produção científica, literatura cinzenta, materiais de intervenção educativa e documentos de política pública, particularmente num campo marcado pela forte articulação entre investigação, ação, formação e intervenção social. Por essa razão, os dados reunidos ao longo das cinco edições não devem ser lidos como um retrato exaustivo e fechado da produção portuguesa, mas como um dispositivo de monitorização crítica e progressivamente mais robusto, capaz de tornar visíveis tendências, ausências, deslocamentos e dinâmicas de produção de conhecimento que dificilmente seriam apreendidas a partir de uma única fonte ou de uma única estratégia de pesquisa.

3. Temas, tendências e padrões emergentes da EDCG em Portugal

3.1. Os conceitos

Em Portugal, o conceito mais utilizado a nível institucional para enquadrar este campo continua a ser o de Educação para o Desenvolvimento (ED), um conceito norteador de documentos-chave promovidos pelo Camões – Instituto da Cooperação e da Língua, I.P. (Camões, I.P.), a agência de cooperação portuguesa dedicada à área do Desenvolvimento, responsável pelo documento estruturante neste domínio, a Estratégia Nacional de Educação para o Desenvolvimento (ENED). O facto de o Camões, I.P. desempenhar um papel muito significativo na promoção da ED, sendo um dos principais financiadores nacionais de atividades neste âmbito, tem influência sobre a preponderância da mobilização deste conceito.

Não obstante, o termo Educação para a Cidadania Global (ECG) tem vindo, gradualmente, a ganhar visibilidade, nomeadamente no âmbito da sociedade civil, figurando nos títulos e nos conceitos-chave de documentos de natureza diversa. Em muitos casos, observa-se mesmo a adoção de formulações combinadas, como Educação para o Desenvolvimento e Cidadania Global (EDCG), que procuram integrar diferentes tradições conceptuais. Paralelamente, algumas organizações recorrem ao conceito de Educação Global, na sequência do trabalho do Centro Norte-Sul do Conselho da Europa e da Global Education Network Europe (GENE), ainda que esta designação permaneça menos frequente no contexto português. Identifica-se, igualmente, a presença pontual do conceito de Educação para a Transformação Social, de inspiração latino-americana, frequentemente articulado com as restantes palavras-chave utilizadas na pesquisa.

Embora a Educação para o Desenvolvimento Sustentável não tenha sido incluída como termo de pesquisa em Portugal, começam a emergir referências ao conceito frequentemente em articulação com as nossas palavras-chave. Estas referências refletem a crescente influência da Agenda 2030 e dos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS) na estruturação de debates, práticas e enquadramentos educativos neste domínio. Também não é despiciendo o facto de a Estratégia Nacional de Educação para a Cidadania estabelecer como um dos seus domínios a “Educação para o Desenvolvimento Sustentável”, o que poderá fazer aumentar a produção nesta área, nomeadamente por atores do âmbito da educação formal.

3.2. Evolução da produção científica

A produção científica sobre EDCG mapeada pela equipa portuguesa entre 2010 e 2024 evidencia um percurso de crescimento que, embora não sendo linear, é positivo.[7]Os dados apresentados nesta secção referem-se à produção sobre EDCG publicada anualmente entre 2010 e 2024, com base na pesquisa realizada pela equipa portuguesa do Digest. Os valores podem não … Continue a ler

 

Figura 1 – Produção sobre EDCG em Portugal (2010–2024).

 

Entre 2010 e 2013, a produção sobre EDCG em Portugal é ainda muito incipiente, registando-se apenas três publicações no total. A partir de 2014 observa-se, contudo, uma mudança significativa, traduzida num crescimento progressivo do número de trabalhos publicados: de 7 documentos em 2014 passa-se para 16 em 2015 e 30 em 2016. Esta evolução parece refletir um processo de consolidação do campo, associado quer à implementação da ENED, quer ao crescente envolvimento de instituições de ensino superior, organizações da sociedade civil e outros atores educativos na promoção da investigação, da formação e da intervenção neste domínio.

Embora se observem algumas oscilações nos anos subsequentes, a tendência global mantém-se positiva. Após uma diminuição em 2017 (n=19), o número de publicações volta a aumentar em 2018 (n=34), mantendo-se em valores próximos em 2019 (n=24). O ano de 2020 assinala o valor mais elevado de todo o período analisado, com 41 publicações, evidenciando a crescente visibilidade académica da EDCG em Portugal. Esta evolução coincide com um contexto político particularmente favorável à institucionalização da EDCG nos sistemas educativos. Neste âmbito, a integração da componente curricular de Cidadania e Desenvolvimento, em 2018, constituiu um marco relevante, ao reforçar a presença destas temáticas no currículo escolar e ao criar novas necessidades de formação, investigação e de produção de recursos educativos dirigidos às escolas e aos/às docentes.

Nos anos mais recentes, verifica-se uma nova fase marcada por alguma flutuação nos números de publicações. Estes dados devem, contudo, ser interpretados com cautela, uma vez que as alterações introduzidas nos critérios de inclusão documental ao longo das diferentes edições do Digest (designadamente a integração da literatura cinzenta) condicionam a comparabilidade direta entre anos.

Apesar destas limitações, os dados permitem identificar uma trajetória consistente de expansão da EDCG em Portugal. Comparativamente ao início da década de 2010, quando a produção era residual, o período posterior a 2015 caracteriza-se por uma atividade regular e diversificada, evidenciando uma crescente institucionalização do campo, tanto no plano académico como nos domínios da intervenção educativa e das políticas públicas. Para além da evolução quantitativa da produção, os dados recolhidos permitem aprofundar a análise das tipologias documentais e das temáticas mobilizadas pelos/as autores/as, aspetos que serão explorados nas secções seguintes.

3.3. Tipologia de documentos

No que respeita às tipologias documentais, verifica-se uma predominância dos artigos científicos ao longo de grande parte do período analisado. Esta tendência é particularmente visível nas primeiras edições do Digest (nomeadamente, entre 2015 e 2023), refletindo uma crescente inserção da EDCG nos espaços académicos de investigação e de divulgação científica.

 

Figura 2 – Distribuição da produção científica sobre EDCG por tipologia de documento (2010–2024).

 

Paralelamente, identifica-se uma presença consistente de livros, capítulos de livro e relatórios, estes últimos ligados a processos de monitorização e avaliação de políticas públicas. Assume igual relevância a publicação de relatórios de mestrado realizados no âmbito da formação inicial de professores/as e educadores/as e frequentemente associados a projetos de intervenção e/ou iniciativas de investigação-ação, embora estes dados não tenham sido incluídos em nenhuma das edições do Digest. Em oposição, os dados revelam uma reduzida expressão de teses de doutoramento (n=6), situação que se mantém ao longo de praticamente todo o período analisado. Embora esta realidade possa sugerir uma limitada institucionalização da EDCG como área autónoma de investigação avançada, a pesquisa realizada pela equipa na preparação das diferentes edições do Digest aponta para a existência de trabalhos doutorais em desenvolvimento e para uma crescente integração da temática em programas de pós-graduação, projetos e eventos científicos.

Uma evolução particularmente relevante observa-se nos anos mais recentes, sobretudo a partir do momento em que a literatura cinzenta passou a ser considerada como tipologia documental no âmbito do Digest. A inclusão desta categoria permitiu tornar mais visível um conjunto significativo de publicações produzidas por organizações da sociedade civil, entidades públicas e projetos educativos, incluindo guiões pedagógicos, recursos educativos, documentos de orientação e relatórios técnicos. A expressividade destas publicações no contexto português parece refletir não apenas a forte articulação da EDCG com a intervenção educativa e a ação política, mas também o impacto de mudanças curriculares que reforçaram a presença da cidadania nos processos educativos, designadamente através da integração da componente curricular de Cidadania e Desenvolvimento. Neste contexto, verificou-se um incremento na produção de materiais de apoio à prática pedagógica, destinados a apoiar escolas, docentes e outros agentes educativos na integração de temas relacionados com a cidadania global, os direitos humanos, as migrações, a sustentabilidade e a participação democrática. Esta tendência evidencia a existência de uma comunidade de prática alargada, que ultrapassa os limites da academia e contribui ativamente para a disseminação e operacionalização da EDCG em diferentes contextos educativos.

3.4. Tendências temáticas

Relativamente às tendências temáticas, a educação formal emerge como o principal foco das publicações ao longo de todo o período.

Figura 3 – Distribuição da produção científica sobre EDCG por área temática (2010–2024).

 

Desde os primeiros levantamentos realizados pela equipa portuguesa, a maioria dos estudos centra-se em contextos escolares, abrangendo diferentes níveis de ensino e privilegiando frequentemente a integração curricular da EDCG. Esta predominância encontra-se estreitamente associada à relevância assumida pela formação inicial e contínua de professores/as e educadores/as e pela educação formal, duas das áreas mais representadas nas três primeiras edições do Digest (sobretudo entre 2010 e 2021).

A partir de 2022 (Digest 2023) observa-se, contudo, uma progressiva diversificação dos contextos educativos analisados. Esta tendência deve ser interpretada à luz da inclusão da literatura cinzenta nos critérios de análise do Digest, o que nos permitiu identificar e valorizar um conjunto mais amplo de documentos produzidos por organizações da sociedade civil, instituições culturais e outros atores educativos. Neste âmbito, destacam-se publicações desenvolvidas por bibliotecas, museus, centros de ciência, comunidades de aprendizagem e organizações não-governamentais, frequentemente orientadas para a sensibilização e a formação para a cidadania global. Mais do que indicar um deslocar da EDCG para fora da escola, estes resultados parecem evidenciar a crescente visibilidade e reconhecimento de práticas educativas que historicamente têm contribuído para este campo. Simultaneamente, refletem uma compreensão alargada da EDCG enquanto processo educativo que mobiliza múltiplos atores e espaços de aprendizagem, articulando contextos formais, não formais e informais na promoção da participação cidadã e da transformação social.

Também ao nível das temáticas abordadas se observam mudanças significativas. Se, nos primeiros anos, predominavam estudos centrados na implementação da EDCG em contextos educativos e na formação de professores/as, os anos mais recentes revelam um crescente interesse por questões de natureza teórico-conceptual e por análises de políticas públicas. Particularmente relevante é o aumento de publicações relacionadas com o acompanhamento e avaliação da Estratégia Nacional de Educação para o Desenvolvimento (ENED), bem como com a produção de referenciais e documentos enquadradores no âmbito da Educação para a Cidadania. Este reforço da dimensão política evidencia o papel desempenhado pelas políticas públicas na consolidação do campo e na sua capacidade de mobilizar atores institucionais diversos.

Em síntese, a análise das publicações identificadas pelo Digest entre 2010 e 2024 sugere a passagem de um campo inicialmente centrado em contextos formais de aprendizagem e de formação para um campo mais diversificado, que mobiliza múltiplos contextos educativos e atores. Embora persistam desafios relacionados com a consolidação da investigação académica avançada, nomeadamente ao nível da produção doutoral, os dados evidenciam uma crescente maturidade da EDCG em Portugal, traduzida na diversidade de temas abordados, na pluralidade de formatos de publicação e no fortalecimento das relações entre investigação, política e intervenção educativa.

3.5. Outras dinâmicas de produção e disseminação do conhecimento

Para além da produção científica, o interesse pela EDCG tem sido visível no âmbito de outras iniciativas de produção e disseminação de conhecimento, como é o caso de projetos, números especiais de revistas académicas e não académicas e eventos científicos, que evidenciam o acrescido debate em torno desta temática nos últimos anos.

No que concerne às revistas académicas, destaca-se este espaço onde nos situamos, a revista Sinergias – diálogos educativos para a transformação social, que se constitui como uma plataforma de discussão e reflexão conceptual e metodológica sobre o campo da EDCG e da Educação para a Transformação Social. Registam-se ainda edições especiais das revistas Educação, Sociedade & Culturas (ESC), Saber & Educar e Revista de Estudos Curriculares, e da revista não académica da Plataforma Portuguesa das ONGD, todas com números orientados para a EDCG e temáticas afins.

No que diz respeito aos eventos científicos, a EDCG tem marcado presença em diversos eventos, não só no âmbito da formação de professores/as, mas também da educação em geral, através dos Encontros Internacionais de Formação na Docência (INCTE), dos Encontros Internacionais Sinergias, do Congresso da SPCE (Sociedade Portuguesa de Ciências da Educação) e do I Congresso Internacional de Investigação em Práticas Educativas. Cumpre ainda recordar a Mesa Redonda “Democracy(ies) and Development Education – Insights from European contexts” (2024), com a participação de membros da rede ANGEL. As Jornadas de ED e os Fóruns ED, alinhados com a ENED, têm procurado contribuir para a interação e partilha entre atores a nível nacional e internacional.

Relativamente aos projetos, as organizações não-governamentais para o desenvolvimento (ONGD) continuam a ser os atores desta área com ação mais continuada no tempo, sendo apoiadas pela Linha de Cofinanciamento de Projetos de Educação para o Desenvolvimento do Camões, I.P. O projeto Sinergias ED, existente desde 2013, continua a configurar-se como uma comunidade de ED em Portugal, ao reunir interlocutores do ensino superior e de organizações da sociedade civil. O projeto Parcerias locais para a EDCG e o estudo da Associação de Reflexão e Intervenção na Política Educativa das Escolas Superiores de Educação (ARIPESE) no âmbito da ENED 2018–2022 representaram esforços de alargamento e institucionalização da EDCG. A Cátedra em Educação para a Cidadania Global, promovida pela Organização dos Estados Ibero-Americanos (OEI) e pelo Centro de Investigação e Intervenção Educativas (CIIE) da Universidade do Porto, constitui ainda um espaço especializado com foco na formação docente, nas políticas educativas e na participação.

4. Reflexão final

Ao percorrer as edições, concluímos que a nossa participação no Multilingual Global Education Digest foi, ao longo destes anos, muito mais do que um exercício de pesquisa, recolha e sistematização de publicações. Foi um processo de aprendizagem coletiva, de descoberta e de reconhecimento de um campo que, em Portugal, se foi tornando progressivamente mais visível, mais plural e mais consciente de si próprio.

Este percurso teve também uma dimensão pessoal e formativa muito relevante para nós. O trabalho desenvolvido permitiu-nos conhecer melhor a produção nacional em Educação para o Desenvolvimento e para a Cidadania Global e construir uma leitura mais ampla sobre a forma como este campo tem vindo a ganhar consistência no contexto português. Ao reunir publicações, relatórios, recursos, teses, artigos, capítulos e outros materiais, fomos também (re)conhecendo pessoas, instituições, projetos e práticas que têm contribuído para a afirmação da EDCG.

O Digest permitiu-nos acompanhar de perto a produção de conhecimento em língua portuguesa, mas também os debates conceptuais e metodológicos que atravessam este campo. O que poderia parecer uma tarefa clara e delimitada revelou-se um processo exigente, que nos obrigou a discutir critérios, rever categorias, questionar ausências e aceitar que qualquer mapeamento é sempre contextualizado, parcial e inacabado.

Um dos aspetos mais relevantes deste percurso foi a consciência de que a produção de conhecimento não acontece apenas nos espaços académicos tradicionais. A abertura à literatura cinzenta permitiu-nos valorizar recursos educativos, documentos de orientação, relatórios técnicos e materiais produzidos por organizações da sociedade civil, entidades públicas, escolas, projetos e outros atores educativos. Esta dimensão ajudou-nos a reconhecer a riqueza de um campo profundamente ligado à prática, à intervenção, à formação e à transformação social.

A dimensão colaborativa foi outra das grandes riquezas deste caminho. O trabalho dentro da equipa portuguesa, o diálogo com outras equipas linguísticas e a articulação com colegas de outros contextos de língua portuguesa mostraram-nos a importância de pensar este campo de forma partilhada. A experiência com o Brasil e os contactos mais recentes com a Guiné-Bissau tornaram evidente que uma mesma língua não corresponde necessariamente aos mesmos conceitos, trajetórias ou formas de construir conhecimento. Pelo contrário, a língua portuguesa revelou-se um espaço plural, atravessado por diferentes histórias, geografias e experiências.

Ao longo deste percurso, fomos percebendo que o nosso compromisso com o Digest se justifica não apenas pela sua utilidade para a comunidade académica, mas também pelo seu valor para todas as pessoas e organizações que trabalham nesta área. O Digest ajuda a tornar visível o que existe, a identificar tendências, a aproximar investigação e prática e a reconhecer contributos que, de outro modo, poderiam permanecer dispersos ou pouco valorizados.

 

Referências bibliográficas

 

References
1 Professora do 1.º Ciclo do Ensino Básico com dezasseis anos de experiência e Professora Assistente Convidada nos Mestrados em Ensino do Instituto de Educação da Universidade de Lisboa. Nesta instituição obteve o grau de Mestre, em Educação, especialidade de Formação de Professores e Supervisão, e encontra-se a concluir o doutoramento na mesma área. Membro da Unidade de Investigação e Desenvolvimento em Educação e Formação (UIDEF).
2 Professora auxiliar na Faculdade de Psicologia e de Ciências da Educação da Universidade do Porto (FPCEUP) e membro integrado do Centro de Investigação e Intervenção Educativas (CIIE). É membro da Comunidade Sinergias ED.
3 Doutorando no Centro de Investigação Didática e Tecnologia na Formação de Formadores (CIDTFF), no Departamento de Educação e Psicologia da Universidade de Aveiro. É membro do Laboratório de Educação em Línguas (LabELing), onde tem vindo a desenvolver uma investigação de Grounded Theory sobre Educação para a Cidadania Global e Intercompreensão em contexto de ensino formal. Concluiu o Mestrado em Educação Pré-Escolar e Ensino do 1.º Ciclo do Ensino Básico em 2017, na Universidade de Aveiro.
4 Técnica de projeto no Sinergias ED, desde 2018, secretária-técnica da Estratégia Nacional de Educação para o Desenvolvimento, em Portugal. É licenciada em Serviço Social, tendo experiência em Educação para o Desenvolvimento, no contexto português, e em Cooperação para o Desenvolvimento, no contexto africano.
5 Educadora, investigadora e consultora em projetos de EDCG no Centro de Estudos Africanos da Universidade do Porto e no Instituto Politécnico de Viana do Castelo. No âmbito das políticas, é secretária-técnica da Estratégia Nacional de Educação para o Desenvolvimento e do Programa Ibero-Americano de Cidadania Global para o Desenvolvimento Sustentável. É consultora da GENE – Global Education Network Europe; membro do Conselho Consultivo da ANGEL – Academic Network on Global Education and Learning e da Comunidade Sinergias ED.
6 Professora auxiliar na Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra e investigadora integrada e membro da Coordenação Científica do Centro de Estudos Interdisciplinares (CEIS20). É doutorada em Didática e Formação pela Universidade de Aveiro e coordena, atualmente, o Conselho de Formação de Professores e os mestrados em ensino de Inglês na Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra.
7 Os dados apresentados nesta secção referem-se à produção sobre EDCG publicada anualmente entre 2010 e 2024, com base na pesquisa realizada pela equipa portuguesa do Digest. Os valores podem não coincidir com o número total de publicações reportado em cada edição do Digest, uma vez que estas consideram, por vezes, períodos de recolha de dados que não correspondem exatamente ao ano civil (por exemplo, incluindo apenas publicações identificadas até uma determinada data do ano em curso ou integrando publicações do ano anterior não consideradas em edições precedentes).