Rolinho da Memória

Laure de Witte[1]Educadora para os Direitos Humanos, formadora em educação não formal e cofundadora da Mandacaru – Cooperativa de Intervenção Social e Cultural, em Faro. Nos últimos anos, tem coordenado … Continue a ler

 

Sistematizar, sistematizar. Deixo passar um ano sem escrever no rolinho. Um ano!
De novo, Óscar Jara nos inspira, nos reconforta.
“A história não é premedita. Somos sujeitos.”
Ganhamos mais força para continuar.
Vamos lá fazer o que será!
(Laure de Witte -vídeo-reflexão – rolinho da memória do projeto EDxperimentar)

 

O “objeto-reflexão” – rolinha da memória – apresentado aborda o projeto EDxperimentar – Laboratórios de Cidadania Global & Desenvolvimento em meio escolar, uma iniciativa da Fundação Gonçalo da Silveira (FGS) em parceria com as entidades Coolabora (Covilhã), Casa Velha (Ourém e Mandacaru (Faro), a través de uma ferramenta de sistematização de experiências desenvolvida especificamente para tal.

O projeto EDxperimentar foi desenvolvido entre 2019 e 2025 e teve como principal objetivo transformar práticas pedagógicas em contexto escolar, promovendo uma aprendizagem mais crítica, participativa e transformadora, com base em valores como justiça social, solidariedade e sustentabilidade. Através do EDxperimentar, os promotores procuram criar espaços de diálogo e experimentação coletiva, valorizando o papel das comunidades educativas como agentes de mudança.

Um dos pilares fundamentais do projeto foi o processo de sistematização de experiências, inspirado nos princípios defendidos pelo educador Óscar Jara. Segundo este autor, sistematizar não é apenas organizar dados ou avaliar resultados, mas sim compreender criticamente o que se viveu, como se viveu e por que se viveu de determinada maneira. É um processo reflexivo e coletivo que permite transformar a prática em conhecimento útil, reforçando a ação futura e a consciência crítica dos envolvidos.

No contexto do EDxperimentar, a sistematização tornou-se uma ferramenta pedagógica e política, permitindo às equipas refletir sobre os seus percursos, aprendizagens e desafios enfrentados.

Além de momentos e ferramentas organizados para toda a equipa (como atividades do projeto), cada parceiro foi livre de escolher formas complementares de sistematizar os seus processos e experiências. Do meu lado, comecei a aprofundar a sistematização como conceito, método e reflexão e rapidamente, fiquei fascinada com poder transformador da mesma. Como responsável da gestão e dinamização do projeto em Faro, em 2019, decidi criar uma ferramenta física, palpável, criativa, pessoal e única: o rolinho da memória.

O “objeto-reflexão” – rolinho da memória do EDxperimentar – ganhou força e consistência.  Tive que continuar, resistir à preguiça e autorizar-me esses momentos de pausa que foram momentos de registo e de reflexão criativos. Sistematizar? Foi, para mim, a grande revelação e aprendizagem desse projeto.

O objeto é constituído por um rolo de papel para máquina registadora no qual registei graficamente (desenho livre e palavras) momentos, eventos, atividades, citações, pensamentos, reflexões, questionamentos e outras informações, direta ou indiretamente ligados ao projeto, que considerava importantes para a minha aprendizagem e reflexão.

O formato não foi escolhido por acaso. Sendo o projeto de vários anos, queria um formato que pudesse simbolizar o passar do tempo. O projeto, dessa forma, podia também ser visto e analisado pelos metros de rolo desenhados. A força da imagem – o rolo desenrolado a crescer com os meus registos – levou-me a um constrangimento. Ficou cada vez mais difícil voltar a ler o que estava registado no início do rolo pela dificuldade do desenrolar e enrolar longos metros de papel.  Tive, portanto, de construir uma “máquina” que me permitisse ler e reler o rolo com mais facilidade e fluidez.

O trabalho apresentado utiliza o formato de um vídeo-reflexão sobre esse rolinho da memória, da sua importância no processo de sistematização de 6 anos de projeto, do enrolar e desenrolar o tempo e da sua ligação com a minha vida profissional e pessoal.

Convido o “leitor-visualizador” em não focar nas imagens do rolinho. O mais importante não é tentar ler o rolinho e perceber o que está lá registado. O vídeo tem um ritmo próprio criado para não visibilizar demasiado algumas informações mais privadas ou íntimas.

Diria que o mais importante é deixar-se levar pelo desenrolar do rolinho e ouvir a reflexão que surgiu dessa experiência de sistematização. A sistematização de experiências em si, também foi uma experiência particular.

Tudo o que foi vivido, fica. Ninguém pode nos tirar o caminho feito.

Laure de Witte

 

Vídeo-reflexão sobre esse rolinho da memória.

Reflexão a partir de um rolinho de papel, registo de 6 anos do projeto EDxperimentar – Cidadania Global em meio escolar

Em 2009, vou viver para o Algarve após 13 anos em Coimbra. Transporto comigo as minhas ferramentas, as minhas experiências e a minha visão do mundo. Tenho que construir de novo as minhas redes locais de trabalho e de amizades. Não me apercebo logo que o Algarve é um reino a parte, um pouco “cortado” do resto do país.

Ao participar em 2018 no projeto Alternativas – experiências locais para uma transformação global, conecto de novo com a dimensão nacional. É dessa forma que integro com a cooperativa Mandacaru o projeto EDxperimentar em 2019.

No início, não percebo tudo. Mas a equipa, a diversidade e riqueza dos diferentes territórios são fatores de grande motivação. Contactar com as escolas não é fácil. Sou relativamente nova no território de Faro com pouco trabalho em meio escolar realizado.  As escolas parecem verdadeiras fortalezas. Graças a uma professora conhecida e uma mensagem pessoal nas redes sociais, o EDxperimentar Faro consegue a sua primeira reunião. A partir desse momento, o projeto nunca mais para e arranca de vez.

Começamos com um diagnóstico, o que não é nada fácil quando não há confiança. Fico por isso aberta a qualquer proposta de ação. Tenho que fazer com os docentes primeiro e ganhar a confiança. Querem relançar o clube de teatro? Que seja assim!

O rolinho da memória do EDxperimentar está a ganhar força e consistência.  Tenho que continuar, resistir à preguiça e autorizar-me esses momentos de pausa que são momentos de registo e de reflexão criativos. Sistematizar? É, para mim, a grande revelação e aprendizagem desse projeto.

Tenho continuado a criar laços de confiança com a equipa Cidadania do Liceu João de Deus. Além do clube de teatro e de outros apoios, participo nas reuniões de trabalho semanais. Tenho acesso a todas as informações e documentos internos.

O Covid vem baralhar o projeto, mas a nossa capacidade de adaptação é tremenda. Além de avaliarmos a primeira fase do projeto, de participar em diversos ‘webinars’, também criamos um recurso digital sobre biodiversidade. Sem esquecer que refazemos o mundo!

Os laços criados com os docentes intensificam-se. A equipa Cidadania do liceu cresce. Um ano depois e já me sinto parte da equipa.

Paralelamente sou aceite como técnica especializada no curso profissional Técnico de Juventude na escola secundária Pinheiro e Rosa. É uma nova forma de agir por dentro.

Começamos um processo de formação com docentes de todos os territórios em formato ‘online’.  O trabalho é muito, entre aulas, formação, outras atividades com alunos. Não há muito espaço para pensar.

Algumas dúvidas surgem.

Será que os docentes precisam de formação? Em quê? Como?

Como avaliar a ED/ECG?

O Covid continua, mas os laços entre a equipa Cidadania estão para ficar. O clube de teatro reúne-se semanalmente ‘online’ e só os docentes participam! Torna-se um espaço de desabafo e reflexão e dalguma produção criativa.

Começo a perceber que o projeto EDxperimentar gira à volta de grandes perguntas geradores que se calhar não têm respostas, mas que nos trazem pistas de ação e reflexão.

O projeto entra na sua fase de cruzeiro. Estou dentro de duas escolas secundárias enquanto docente e colaboradora permanente. Sou uma espécie de “infiltrada”.

No liceu a equipa decide ocupar – no sentido literal da palavra – um espaço por baixo de um vão de escadas. O espaço vai tornar-se uma galeria de artes em construção, o oCupas ciDadania.

Com a distância, percebo que nos projetos de investigação-ação, temos que começar com a ação para criar a confiança que permita, a seguir, diagnosticar de melhor forma, com mais participação e colaboração. O ser humano é um ser de laços afetivos.

Já sei que o rolinho da memória vai ficar. Tenho algumas dificuldades a ter regularidade, mas quando decido que tenho que o completar, dedico várias horas. Sim, horas!

Em dezembro de 2021, perco a minha mãe. Os acontecimentos pessoais influenciam os nossos projetos. A linha entre o pessoal e o profissional é ténue. É preciso chorar, parar, fortalecer, curar…

No liceu João de Deus, o trabalho de cidadania torna-se mais visível, consolidado, apreciado. Tudo parece estar a andar sozinho. Algumas atividades já fazem parte do ADN da escola, tal como o princípio da colaboração. Conseguimos organizar eventos com vários planos em conjunto, o Plano Nacional das Artes, o eco-escola, o Plano Nacional de Cinema… Por fim!

O processo é muitas vezes o próprio resultado” diz-nos Óscar Jara.

O EDxperimentar II é aceite. Temos mais 3 anos para consolidar e continuar a provocar mudanças. A mudança dá trabalho, sim, assusta também, mas é possível.

O espaço oCupas ciDadania ganha um financiamento local e um rumo próprio. É co-gerido por um grupo de alunos. Fica decidido que não haverá por enquanto um regulamento interno. A galeria está em construção e o regulamento também. A equipa cidadania assuma e reivindica esse risco. O espaço será de experimentação, um laboratório constante.

Entramos numa nova fase. Vamos ter “bootcamps” com jovens, na Casa Velha em Ourém. Vamos vivenciar a cidadania com jovens e docentes.

Como ir mais longe? Como entrar nas raies dos problemas?

Sistematizar, sistematizar. Deixo passar um ano sem escrever no rolinho. Um ano! De novo, Óscar Jara nos inspira, nos reconforta. “A história não é premedita. Somos sujeitos.” Ganhamos mais força para continuar. Vamos lá fazer o que será!

Além de colaboradora permanente e docente, sou convidada a ser artista residente no Agrupamento de escolas Afonso III. É uma nova porta de entrada, um novo desafio. Estou presente em quase todos os agrupamentos da cidade de Faro. São todos territórios diferentes com dinâmicas próprias.

No liceu, a “performance” para comemorar o dia internacional de luta contra a violência contra as mulheres – dia 25 de novembro -vai à rua. É mais um salto! E os meus alunos começam a apoderar-se dos conceitos e a falar por eles próprios.

As perguntas continuem a surgir.

O que nos diferencia?

Por que a educação Não formal é reduzida a métodos e ferramentas?

O que está de errado na abordagem pelas competências?

Quais são as revoluções que precisamos?

Por que as pessoas votam o partido Chega?

Sabemos que as mudanças são possíveis, mas quais são as mudanças que queremos?

Reparar

Relembrar

Religar

Recolher

À equipa Cidadania junta-se o novo coordenador do Plano Cultural de Escola. Adaptamos, remodelamos A equipa é forte, com motivação e convicções. Estou feliz por participar nessa caminhada. É lindo.

Estou nas mãos do tempo

Escola Mulher Aprender

Mulher Aprender Escola

Aprender Escola Mulher

Estou nas mãos do tempo

Mas com tempo e mãos para transformar e EDxperimentar.

Será que continuamos com o projeto EDxperimentar? Que futuro?

Para que fazemos isso? 

Temos que focar na intencionalidade do nosso trabalho.

Também temos que começar a dar visibilidade ao nosso processo, às nossas perguntas e questionamentos, aos nossos sucessos. Sistematizar é para isso também. Vamos ter que escrever artigos. Vamos ter um congresso. Vamos ter um jogo de cartas.

Para quem queremos divulgar?

O ritmo do projeto não abranda. Entre atividades nas escolas, reuniões, encontros há espaços para reflexão e para novas perguntas geradoras. Continuo com o rolinho.

Em 2025, as mudanças políticas já se fazem sentir. A ENEC está por baixo de um fogo cruzado. A consulta pública recolha mais de 10 000 contributos e o projeto EDxperimentar não terá continuidade com o formato anterior.

Todas as crises são também momentos de oportunidades. Tudo o que foi vivido, fica. Ninguém pode nos tirar o caminho feito. Veremos. A seguir…

Laure de Witte

References
1 Educadora para os Direitos Humanos, formadora em educação não formal e cofundadora da Mandacaru – Cooperativa de Intervenção Social e Cultural, em Faro. Nos últimos anos, tem coordenado projetos que usam ferramentas artísticas e metodologias participativas para promover inclusão social, educação para os direitos humanos e participação. Trabalha especialmente com jovens e grupos vulneráveis e dinamiza ações de formação para profissionais e jovens a nível nacional e europeu. Tem desenvolvido projetos comunitários no Algarve que unem expressão artística, cidadania e intervenção social.