Álida Angélica Alves Leal[1]Professora Adjunta da FaE/UFMG. Doutora e Mestre pela FaE/UFMG. Pós-doutorado UFPA e Universidade de Barcelona. Coordenadora do projeto “Linhas da FaE: Coletivo de bordado livre em defesa da … Continue a ler, Laura Beatriz Lima dos Santos[2]Graduada em Pedagogia pela FaE/UFMG e mestranda do Programa de Pós-graduação em Educação: Conhecimento e Inclusão Social pela mesma instituição. Integrante do projeto “Linhas da FaE: … Continue a ler, Melissa Campos Costa[3]Graduanda em Psicologia na Faculdade de Filosofia e Ciências Humanas da UFMG. Integrante do projeto “Linhas da FaE: Coletivo de bordado livre em defesa da Educação Pública (FaE/UFMG). & Mirelly Lopes Beltrame[4]Graduada em Psicologia e especialista em Psicomotricidade pela Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais e mestranda do Programa de Pós-graduação em Educação: Conhecimento e Inclusão … Continue a ler
Resumo
Partindo do movimento contemporâneo de reinvenção do bordado, o artigo analisa experiências do projeto de extensão “Linhas da FaE: Coletivo de bordado livre em defesa da Educação Pública”, da Faculdade de Educação da UFMG/Brasil. O objetivo é refletir sobre (des)aprendizagens que emergem das práticas do bordado como expressão poética e política no contexto universitário. De abordagem qualitativa, na perspectiva da pesquisa-ação-participativa, o estudo sistematiza o percurso do Coletivo desde 2021 e articula-o a reflexões sobre educação crítica, dialógica, libertadora e emancipatória, incluindo discussões sobre a Arte/Educação. A análise de registros e produções coletivas permitiu identificar três eixos interpretativos: a) dimensão afetiva, subjetiva e humanizadora; b) criação estética vinculada à afirmação identitária e c) processos formativos e transformadores. Os resultados indicam que o bordado, como prática coletiva, configura experiência formativa que articula produção de sentidos, reflexão crítica e engajamento na defesa da educação pública.
Palavras-chave: Bordado Livre; Direito à Educação; Educação Popular; Coletivo; Arte/Educação.
Abstract
Starting from the contemporary movement of reinventing embroidery, this article analyzes experiences from the extension project “Linhas da FaE: Coletivo de bordado livre em defesa da Educação Pública” (Lines of FaE: Free Embroidery Collective in Defense of Public Education), from the Faculty of Education at UFMG/Brazil. The objective is to reflect on (un)learnings that emerge from embroidery practices as a poetic and political expression in the university context. Using a qualitative approach, from the perspective of participatory action research, the study systematizes the Collective’s trajectory since 2021 and articulates it with reflections on critical, dialogical, liberating, and emancipatory education, including discussions on Art/education. The analysis of records and collective productions allowed the identification of three interpretative axes: a) affective, subjective and humanizing dimension; b) aesthetic creation linked to identity affirmation; and c) formative and transformative processes. The results indicate that embroidery, as a collective practice, constitutes a formative experience that articulates the production of meaning, critical reflection, and engagement in the defense of public education.
Keywords: Free Embroidery; Right to Education; Popular Education; Collective; Art/Education.
Resumen
Partiendo del movimiento contemporáneo de reinvención del bordado, este artículo analiza las experiencias del proyecto de extensión “Linhas da FaE: Coletivo de bordado livre em defesa da Educação Pública” (Líneas de FaE: Colectivo de bordado libre en defensa de la Educación Pública), de la Facultad de Educación de la UFMG/Brasil. El objetivo es reflexionar sobre los (des)aprendizajes que surgen de las prácticas de bordado como expresión poética y política en el contexto universitario. Utilizando un enfoque cualitativo, desde la perspectiva de la investigación-acción participativa, el estudio sistematiza la trayectoria del Colectivo desde 2021 y la articula con reflexiones sobre la educación crítica, dialógica, liberadora y emancipadora, destacando las discusiones sobre Arte/Educación. El análisis de los registros y las producciones colectivas permitió identificar tres ejes interpretativos: a) dimensión afectiva, subjetiva y humanizadora; b) creación estética vinculada a la afirmación de la identidad; y c) procesos formativos y transformadores. Los resultados indican que el bordado, como práctica colectiva, constituye una experiencia formativa que articula la producción de significado, la reflexión crítica y el compromiso con la defensa de la educación pública.
Palabras clave: Bordado Libre; Derecho a la Educación; Educación Popular; Colectivo; Arte/Educación.
Nossas mãos bordadeiras: introdução e caminhos metodológicos
Minhas mãos [bordadeiras]
Jamais ociosas
Fecundas. Imensas e ocupadas
Mãos laboriosas
Abertas sempre para dar
ajudar, unir e abençoar.
(Cora Coralina, 2023 – Adaptação)
Veja que a mão humana é tremendamente cultural. Ela é fazedora, ela é sensibilidade, ela é visibilidade; a mão faz proposta, a mão idealiza, a mão pensa e ajeita […].
(Freire & Nogueira, 1989, pp. 34‑35 apud Leite, 2021, p. 101)
Em diálogo com a poeta brasileira Cora Coralina e com Paulo Freire, anunciamos a potência criadora das mãos que, ao bordar, tecem sentidos, experiências, saberes e esperanças. O bordado é arte milenar e linguagem intercultural que, ao entrelaçar fios sobre uma superfície, produz imagens, texturas e narrativas que se desdobram e se expressam em modos de ser, estar e de ler o mundo. Atualmente, essas práticas têm passado por transformações significativas, frequentemente identificadas por expressões como bordado político, bordado livre e bordado contemporâneo, que refletem processos de ressignificação e construção de novos sentidos atribuídos ao bordado. Na América Latina, pós década de 1960, destaca-se o surgimento de “artivismos têxteis”[5]“Expressões artísticas premeditadas e intencionalmente políticas, que produzem algum efeito sobre o espaço público e digital” (Villarroel, 2024, p.01). vinculados a conflitos sociopolíticos, nos quais práticas como o bordado passaram a ser ressignificadas como formas de ação coletiva, memória e denúncia, frequentemente impulsionadas por iniciativas protagonizadas por mulheres (Villarroel, 2024).
É nesse terreno fértil de reinvenção que, no ano de 2021, surge o projeto de extensão “Linhas da FaE: Coletivo de bordado livre em defesa da Educação”, da Faculdade de Educação da Universidade Federal de Minas Gerais (FaE/UFMG), Brasil. Pautamos o direito à educação pública, gratuita, de qualidade e socialmente referenciada, em todos os níveis e modalidades, problematizando seus desafios e as possibilidades concretas de superação no contexto do Sul Global. O bordado livre constitui-se como eixo estruturante da proposta, assumido não apenas como prática estética, mas como gesto político-pedagógico. Nos planos nacional e internacional, diferentes instituições e organismos multilaterais têm ressaltado a importância de projetos desta natureza, cujas práticas educativas sejam orientadas à formação crítica e à participação cidadã em contextos marcados por desigualdades sociais e culturais.
Este artigo discute experiências construídas pelo referido projeto a partir de reflexões sobre a seguinte questão: o que podemos aprender e desaprender a partir das práticas do bordado livre, compreendido como forma de expressão poética e política que emerge das pautas e demandas do Coletivo no contexto universitário?[6]As autoras agradecem a todas as pessoas do Coletivo e das ações vinculadas, pelas trocas e aprendizados. O estudo, de abordagem qualitativa e na perspectiva da pesquisa-ação-participativa, sistematiza o percurso do Coletivo desde seu surgimento, articulando-o a reflexões sobre educação crítica, dialógica, libertadora e emancipatória (Freire, 1979, 1987, 1989, 2004, 2021; hooks, 2017, 2021), incluindo discussões sobre Arte/Educação (Leite, 2021). O corpus de análise foi constituído por registros e produções coletivas do grupo (registros têxteis e escritos, produções audiovisuais, comentários informais de participantes, publicações em ambientes digitais etc), tratados por meio de uma interpretação categorial dos dados, construída com base na recorrência de sentidos compartilhados nas experiências relatadas por participantes.
Segundo Brandão (s.d., p. 4-5), a pesquisa-ação-participativa é uma modalidade de produção coletiva de saberes partilhada com vocação popular, insurgente e transformadora, uma junção da pedagogia do oprimido e a educação popular de Paulo Freire e a sociologia da libertação de Fals-Borda. Consiste na produção de conhecimentos articulados com as lutas sociais, fundamentada na participação ativa dos sujeitos nas tomadas de decisão e na definição dos caminhos da ação, fortalecendo a autonomia e processos emancipatórios das pessoas envolvidas. Nesse processo, o conhecimento se constrói no encontro entre os participantes e orienta-se à transformação da realidade. Nesta modalidade de pesquisa, “talvez valha mais o processo coletivo e criticamente pedagógico do que se realiza, do que o próprio produto realizado”. (Brandão, s.d., p. 12).
No Projeto “Linhas da FaE”, enquanto nos reunimos para bordar, produzimos conhecimentos a partir do que fazemos e promovemos o diálogo de saberes entre nós, elaborando sentidos sobre nossas experiências e sobre o mundo que habitamos. Se costurar é “pensar com as mãos” (Preciosa, 2018), o bordado ultrapassa a técnica e encarna um modo sensível de saber que articula corpo e mente, razão e sensibilidade (hooks, 2017; Ramos, 2025). Nesse processo, o bordar em coletivo aproxima-se de uma “investigação militante”, que resulta na autonomia dos/as participantes para “dizer suas palavras” e agir politicamente. (Brandão, s.d., p.04)
O artigo está estruturado em 04 (quatro) partes: a) apresentação das bases teóricas e conceituais do estudo, b) descrição das origens e do histórico do projeto, c) tessitura de análises a partir de três eixos interpretativos e d) considerações finais.
Fios que se entrelaçam: bases teóricas e conceituais
No Projeto “Linhas da FaE”, a construção das ações do Coletivo ancora-se na Educação Popular na perspectiva freiriana, materializada em uma postura ético-política que orienta cada ação. A Pedagogia de Paulo Freire, fundamentada no diálogo, na problematização da realidade e na valorização dos saberes dos sujeitos, emergiu das experiências de Educação Popular na América Latina e se ampliou a partir das práticas educativas desenvolvidas com grupos populares. Com o tempo, suas formulações ganharam projeção internacional, tornando-se referência para diferentes pensadores/as (como hooks, 2017, 2021, que reconhece que as experiências educativas são atravessadas por desigualdades de gênero, raça, classe e território, reforçando a necessidade de práticas pedagógicas críticas e dialógicas) e iniciativas educativas, sociais e culturais comprometidas com a transformação social, incluindo experiências que articulam Arte/Educação. Nessas experiências, as práticas artísticas atuam como mediações, ao favorecerem processos de leitura crítica do mundo, expressão de experiências e produção coletiva de sentidos.
Leite (2021) afirma que, na perspectiva freireana, a educação possui dimensão estética constitutiva, pois educar envolve criação, sensibilidade e expressão. Entendida como prática ética e estética, a educação é arte, como afirma Freire (2013): “a Educação já é essa arte, apesar de se poder fazer pela arte também. Ela é em si uma proposta artística, ela já tem arte” (apud Leite, 2021, p. 87). A educação configura processo “po(i)ético” (do grego poiesis, criação), que articula produção de significados, sensibilidade estética e leitura crítica do mundo.
Ao discutir o fazer educativo na perspectiva da arte, Leite (2021) destaca que Paulo Freire defendia que a arte deve ocupar um lugar de respeito na escola. Nessa perspectiva, as práticas artísticas, ao privilegiarem a ação reflexiva e criadora em contraposição à alienação, favorecem a reflexão sobre vivências socio-histórico-culturais e constituem espaços de expressão, contestação, reinvenção criativa e conscientização social, reconhecendo a dimensão estética da ação educativa como parte constitutiva dos processos de humanização e de criação de sentidos no mundo. Em diálogo com Paulo Freire, o autor afirma:
[…] as linguagens artísticas colocam à nossa disposição um meio valioso em todo o tipo de processo educativo/formativo que se proponha o aprimoramento de capacidades e possibilidades experienciais das pessoas, na perspectiva de um desenvolvimento que contemple e conjugue as múltiplas dimensões envolvidas na “aventura do conhecimento” como construção/formação do humano. (Leite, 2021, p. 95)
Nesta direção, a arte pode ser compreendida como mediação nos processos educativos. Conforme assinala Adams (2010), na tradição freiriana, a educação se realiza por meio de múltiplas mediações que se constituem nas relações entre sujeitos, mundo e cultura. “[…] Os homens se educam em comunhão, mediatizados pelo mundo” (Freire, 1987, p. 39), de modo que a experiência vivida, as práticas culturais e as situações concretas da vida social tornam-se mediações fundamentais para o processo educativo. Na perspectiva freiriana, a mediação emerge das relações entre sujeitos, mundo e experiência vivida. A mediação, portanto, não se reduz à ação do/a educador/a, mas emerge do encontro dialógico entre sujeitos, saberes e contextos, no qual a problematização da realidade possibilita a construção coletiva de novos sentidos.
Nessa perspectiva, a arte se constitui como meio privilegiado de dialogicidade e reinvenção da experiência educativa, tensionando modelos tradicionais e hierárquicos. Em diálogo com Paulo Freire, Leite (2021, p. 101) afirma que “a arte propicia que o indivíduo entre verdadeiramente em relação, estimulando o movimento e a mudança: busca a possibilidade do encontro, integração, plenitude”. Entre as múltiplas linguagens artísticas mobilizadas na educação, o bordado destaca-se como prática estética contemporânea que articula memória, narrativa e experiência.
Nesse sentido, o bordado livre, prática manual e culturalmente situada, pode ser compreendido como mediação em educação, na medida em que articula experiência sensível, criação estética e reflexão crítica sobre o mundo vivido, possibilitando que sujeitos interpretem suas vivências e produzam sentidos compartilhados sobre a realidade. Ao bordar coletivamente, os sujeitos não apenas produzem imagens e narrativas, mas elaboram leituras da realidade, partilham memórias, interpretam suas experiências e constroem sentidos sobre si e sobre o mundo. Inspirado na tradição da educação popular freireana, esse processo ultrapassa a fruição estética e se materializa no fazer artístico do bordado em coletivo como processo de mediação: um espaço em que diálogo, sensibilidade, imaginação e crítica estética se entrelaçam, produzindo processos formativos que articulam expressão artística, produção de conhecimento e engajamento social.
“Linhas da fae”: nó inicial e tessituras
O Projeto de extensão “Linhas da FaE: Coletivo de bordado livre em defesa da Educação Pública” surgiu em 2021, no contexto da pandemia de COVID-19, em meio a medidas de distanciamento social. O Coletivo iniciou suas atividades em formato virtual, reunindo docentes, discentes e participantes externos para a produção de um Dicionário bordado em homenagem ao centenário de Paulo Freire, patrono da educação brasileira, posteriormente sistematizado em livreto digital (Linhas da FaE, 2021; Figura 1).
Esse gesto inaugural constituiu o ponto de partida para aquilo que o projeto se tornaria: espaços-tempos de afetos, trocas e resistências. Com o retorno das atividades presenciais em 2022, a mobilização do grupo se fortaleceu. Em outubro daquele ano, a iniciativa foi formalizada como projeto de extensão universitária[7]Disponível em: https://sistemas.ufmg.br/siex/VerIdentificacao.do?id=109672&tipo=Projeto&modo=abrir. Acesso em: 28 set. 2025., visando pautar e defender a educação pública, gratuita, de qualidade e socialmente referenciada; buscando, por meio do bordado, dar vazão estética, poética e política aos desafios enfrentados no Sul Global.
O Coletivo “Linhas da FaE” inspira-se em práticas de luta e criação coletiva, sustentando a ideia de que a força que une pessoas ao bordar pode ser transformadora. Entre estas referências, destacam-se as arpilleras, técnica têxtil originada no encontro de mulheres bordadeiras de Isla Negra, no litoral central chileno, durante a ditadura militar (1973-1990). Elas utilizavam retalhos e panos rústicos para bordar narrativas sobre a vida cotidiana, a fome, a repressão e a luta por justiça. Enviadas a outros países, essas peças romperam o silêncio e denunciaram violações por meio da arte (Brasil, 2012).
Outras referências são os Coletivos de bordado surgidos em diferentes cidades brasileiras, como o “Linhas do Horizonte” (Belo Horizonte/MG), criado em 2016, que mobiliza o chamado bordado político na defesa da democracia e de diversas causas sociais. A iniciativa inspirou outras iniciativas no país, evidenciando o bordado como prática política e comunitária, capaz de narrar e resistir, como também de criar laços e esperanças.
O projeto reúne um público amplo e diverso, composto por estudantes (graduação e pós-graduação), docentes universitárias/os e da Educação Básica, educadoras/es populares, artistas e artesãs/ãos, integrantes de movimentos sociais e coletivos culturais, além de participantes de iniciativas educativas e comunitárias que reconhecem o bordado livre e as artes têxteis como linguagens de expressão estética, política e formativa. Cada participante é reconhecido como sujeito de experiências e saberes, “criadores em potencial” (Leite, 2021, p. 99). Não há pré-requisito, como saber bordar, para integrar o Coletivo: o desejo de estar junto é suficiente. Prioriza-se a construção coletiva das aprendizagens e das ações, sem desconsiderar a produção individual, que também impulsiona a criatividade e as experimentações do grupo. As ações utilizam de temas geradores (Freire, 1987) relacionados a desafios enfrentados no campo da educação e se constituem em dinâmicas de grupo que se aproximam dos “círculos de cultura” de Freire (1989).
No desenrolar dos fios do Projeto, realizam-se ações contínuas, como as Rodas de bordados semanais na FaE/UFMG (Figuras 2, 3 e 4); e ações pontuais, como atividades de curta duração em diversos contextos – oficinas, cursos, seminários etc (Figura 5)[8]O número de participantes nas atividades é variado. Nas Rodas de bordados semanais, gira em torno de 15 pessoas. Nas demais atividades, este número já chegou a 40 pessoas inscritas em uma oficina..

Figura 1 – Trecho do Dicionário Bordado “Entre e linha e a palavra: bordados para Paulo Freire” (2021).
Figura 2 – Roda de bordados “Saia bordada” (2022-23).
Fonte: Acervo do Coletivo “Linhas da FaE” (2026).

Figura 3 – Roda de Bordados “Bordando livros pela democracia” (2024).
Figura 4 – Roda de bordados “Memórias de Escola” (2025-2026).
Fonte: Acervo do Coletivo “Linhas da FaE” (2026).

Figura 5 e 6 – Oficina de Arpilleras com docentes da Pós graduação Lato Sensu na Educação Básica (LASEB Itabirito/MG) – “Que fio te traz aqui?” (2025).
Fonte: Acervo do Coletivo “Linhas da FaE” (2026)
As Rodas de bordados – práticas comuns em outros Coletivos cujos propósitos se aproximam do “Linhas da FaE” – foram inauguradas com o retorno presencial à UFMG pós pandemia, em 2022. Entre outubro deste ano e julho de 2024, elas foram organizadas em torno do bordado coletivo de uma saia, inspirado pelo projeto “Linhas das Montanhas: bordando águas”, com o tema “Faculdade de Educação como território educativo, afirmativo e inclusivo”. A produção homenageou, dentre outras ações, o “Programa Ações Afirmativas na UFMG”, celebrando pessoas que dele fazem parte, cujas imagens foram bordadas e incorporadas na própria saia, expressando encontros entre memória e reconhecimento.
Entre julho de 2024 e dezembro de 2025, o Coletivo deu nova vida a livros deixados para doação na FaE com a proposta “Bordando Livros pela Democracia”, que (a)bordou desafios e potencialidades da Educação Pública no Sul Global. Em contraste com práticas convencionais que preservam o livro como objeto intocável, a intervenção foi disruptiva: bordamos diretamente nas páginas, rompendo a lógica do “não rasurar” e atribuindo novas camadas de sentido. Livros esquecidos tornaram-se suportes de arte, memória e posicionamento político. O ato de bordar no papel, superfície delicada que exige atenção, paciência e tempo, foi também um exercício de resistência, no qual cada ponto marcou não apenas o material, mas a vontade de ressignificar e convocar à reflexão.
Desde março de 2025[9]Ação atualmente em curso, prorrogável até julho/2026., o Coletivo se reúne para (a)bordar “Memórias de Escola”, trazendo à tona lembranças e afetos do percurso de escolarização e costurando aquilo que parecia esquecido ou naturalizado. Emergem afetos, por vezes felizes, por vezes dolorosos, sobre o percurso de escolarização, que despertam saudade ou provocam o desejo de pensar e agir de outro modo, mobilizando reflexões possíveis apenas no presente, à luz dos recursos que a infância/adolescência ainda não conhecia. Ao bordar e refletir sobre essas experiências, emergem questionamentos sobre o cotidiano escolar e universitário, interrogando se tais trajetórias reproduzem desigualdades ou abrem brechas para a emancipação.
A produção do Dicionário bordado (virtual) e, em seguida, as Rodas de bordados (presenciais) são consideradas ações estruturantes do Coletivo (Quadro 1):
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Ano |
Ação/Atividade |
Público/Participantes |
Temática/Técnica |
Resultado/s |
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2021 |
Dicionário Bordado |
Docentes, estudantes* e comunidade externa* |
Centenário Paulo Freire/Bordado livre, intervenção têxtil |
Produção de livreto digital |
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2022 2023 |
Roda de Bordados “Saia Bordada – Faculdade de Educação como território educativo, afirmativo e inclusivo” |
Docentes, estudantes* e comunidade externa*. |
Ações afirmativas/Bordado coletivo, intervenção têxtil |
Exposição “Linhas da FaE”, 22 de janeiro a 15 de março de 2025 |
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2024 |
Roda de Bordados “Bordando Livros pela Democracia” |
Docentes, estudantes** e comunidade externa** |
Democracia/Bordado, intervenção em papel |
Mural na Exposição “Linhas da FaE”, 22 de janeiro a 15 de março 2025 |
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2025 2026 |
Roda de Bordados “Memórias de Escola” |
Docentes, estudantes** e comunidade externa** |
Memória escolar/Bordado livre, intervenção têxtil, arpilleras |
Relatos de experiência em eventos (aulas, encontros, seminários etc) |
Quadro 1 – Síntese das Ações Estruturantes do Coletivo “Linhas da FaE” (2021-2026).
Fonte: Elaboração das autoras (2026).
* Público participante em menor quantidade no período analisado
**Ampliação paulatina do público participante no período analisado
Conforme já mencionado, o projeto também realiza atividades de curta duração, nas quais as/os participantes experimentam o bordado livre e criativo durante a “BordAção”[10]Termo utilizado pelo Coletivo Pontos de Luta (BH).. Para muitos/as, esta é a primeira experiência de suas vidas com linhas e agulhas. Nestas ocasiões, tem sido comum a confecção de botons: pequenos círculos de feltro para tecer palavras ou imagens relacionadas ao tema gerador abordado. Por demandar um tempo relativamente menor de desenvolvimento, esta ação permite que cada pessoa leve consigo um registro material da experiência vivida.
Essas ações têm possibilitado articulações com outros Coletivos, grupos e instituições, como Pontos de Luta, Laboratório Interinstitucional de Estudos e Pesquisas em Psicologia Escolar de Minas Gerais (LIEPPE-MG), Centro Acadêmico de Psicologia da UFMG (Capsi) e o Observatório das Juventudes (OJ/FaE/UFMG). Destaca-se ainda, neste conjunto, o curso de Licenciatura em Educação do Campo (LECampo/FaE/UFMG), com o qual são desenvolvidas ações que articulam bordado, narrativas e reflexões sobre a Educação do Campo, valorizando a diversidade de sujeitos e saberes que a constroem e defendem nos territórios de Minas Gerais.
O diálogo com outros Coletivos, grupos e instituições tem possibilitado a lida com diferentes temáticas – gênero; saberes e práticas nas relações entre povos tradicionais e seus territórios; saúde mental etc -; além de favorecer a articulação da defesa de direitos fundamentais, como educação, saúde, terra e trabalho, fortalecendo redes de diálogos e colaboração.
(Bord)ações: tecendo algumas análises
A análise do percurso do Projeto “Linhas da FaE” permite compreender que, unindo-se a outros sujeitos, individuais e coletivos, as ações desenvolvidas pelo Coletivo se traduzem em pedagogias vivas de (des)aprendizagem e afeto, que nos convidam a (re)pensar, em diálogo com Paulo Freire, a “educação com(o) arte” (Leite, 2021), com suas lutas para além dos padrões estabelecidos, nos conduzindo a novos fazeres e expressões.
Os integrantes do Coletivo – vindos de diferentes gerações e formações, como as licenciaturas, as artes e a psicologia – nos processos educativos tecidos nas relações com e a partir do bordado, se colocam nesse exercício de reflexão sobre o próprio agir no mundo, reconhecendo a impossibilidade da neutralidade e vislumbrando, de modo mais ou menos vivaz, a necessidade do compromisso (Freire, 1979).
As práticas do Coletivo podem ser lidas como gestos de criação e de resistência. Assim, o bordado não é ferramenta pedagógica, mas experiência mediadora de leitura coletiva do mundo. Dentro do ambiente universitário, convoca atenção à presença humana (Freire, 2004), lembrando que, para além da construção científica e técnica que tanto se busca na academia, é preciso também uma tomada de posição frente à realidade. Essa defesa freiriana encontra ressonância na proposta de bell hooks (2017), ao afirmar que a pedagogia libertadora não se limita a conteúdos, ela exige que se trabalhe “com os limites do corpo, [que se] trabalhe tanto com esses limites quanto através deles e contra eles” (p. 184).
No “Linhas da FaE”, essa perspectiva se materializa nas ações que não se reduzem à técnica ou ao produto final, mas remetem às experiências compartilhadas de estar juntos/as, ouvindo, sentindo e transformando a partir de um engajamento ético e corporal. Ali, como aponta hooks (p. 185), “reconhecemos que somos corpos na sala de aula” (espaço que também é subvertido em sua significação mais tradicional), e que o conhecimento circula de modo vivo, situado, atravessando afetos e coletividades.
Os diálogos nas Rodas de bordado, por exemplo, revisitam as vivências dos sujeitos, problematizam experiências e favorecem a emergência de uma consciência crítica, que implica em estar disponível para o encontro com a diversidade de pensamentos (Freire, 2004). Nesse processo, eles tornam possível a mediação entre experiências, saberes e contextos, que resultam em bordados atravessados por afetos, memórias e desejos de mudança. Mais do que “transmitir” saberes, o Linhas busca criar condições para que se produzam mediações entre experiências, saberes e contextos; em espaços-tempos de reflexão e criação, nos quais novas problematizações sobre a educação possam emergir, sustentadas pela escuta e pelo respeito à autonomia das/os participantes.
Freire (2004, p. 43) ressalta a importância do “saber escutar” na prática educativa: no silêncio do educador, o educando pode ouvir o outro e a si mesmo, articulando pensamentos até poder dizer sua palavra. Para hooks (2017, 2021), a construção de uma comunidade pedagógica exige descentralizar fala, poder e conhecimento, criando condições para que as pessoas aprendam a escutar umas às outras. No Linhas, essa escuta acontece entre pontos e narrativas: ao bordar, cada pessoa escreve sua história, que se entrelaça às demais, formando um tecido coletivo, pedagógico e político. Assim, as Rodas de bordados configuram-se como espaços-tempos de pedagogia engajada, no qual conhecimento intelectual e vida real não se dissociam e a multiculturalidade é assumida como compromisso ético de reconhecimento das subjetividades (hooks, 2017). As diferenças não são apagadas, mas tecidas em conjunto.
Ao revisitar registros produzidos no âmbito do Coletivo[11]A título de exemplo, foi lançada na Rede Social Instagram do Coletivo (@linhasdafae) a pergunta: “O que a participação no projeto significou para você?”., em busca de compreender alguns sentidos compartilhados atribuídos às práticas por participantes das atividades, a análise das narrativas permitiu identificar três categorias interpretativas mais significativas na articulação entre Arte/Educação: a) dimensão afetiva, subjetiva e humanizadora; b) criação estética vinculada à afirmação identitária e c) processos formativos transformadores. Essas dimensões podem ser compreendidas como desdobramentos formativos da mediação que se produz nas práticas do bordado no interior do Coletivo. Elas não se apresentam de forma isolada, mas articulam-se em um movimento formativo que parte da experiência sensível, passa pela expressão identitária e se desdobra em processos de reflexão e transformação.
A primeira categoria, Experiências afetivas, subjetivas e humanizadoras, evidencia o Coletivo como espaço de encontro, acolhimento e elaboração dos sentimentos por meio do bordado. Como afirma M., “significa encontro, com o diferente, com as potencialidades e possibilidades de viver e estar no mundo”. M.L. diz que os encontros “fortalecem vínculos, inspiram e acolhem, constituindo um espaço de cuidado e presença”. R. sinaliza que sua participação significa “tranquilidade, diálogo e companhia”. Esses relatos evidenciam que, nesse processo, o bordado é mediação entre experiências individuais e o espaço coletivo de aprendizagem, favorecendo a construção de vínculos e a elaboração compartilhada de sentidos sobre o viver e o educar.
A este respeito, concordamos com Leite (2015, p. 101) quando afirma, em diálogo com Paulo Freire, que a arte é “fator e vetor essencial de humanização”. Ele afirma que a articulação entre Arte/Educação “é indicativa da possibilidade de experienciar nos espaços educativos/formativos uma nova educação centrada na inteireza, […] pensada e praticada a partir de nexos vivenciais entre seres humanos concretos, sujeitos encarnados, colocando em foco a corporeidade viva, na qual necessidades e desejos formam uma unidade” (grifos do autor).
A segunda categoria, Criação, expressão cultural e valorização da identidade revela a força do bordado como forma de afirmação subjetiva e cultural. A. afirma que “materialmente me dá orgulho saber que tô bordando algo que aprecio com minhas próprias mãos”, destacando a dimensão autoral do processo criativo. J., como graduanda e docente da educação básica camponesa, enfatiza: “o projeto abre portas para novas formas de reivindicação, de lutas e de garantia de direitos por meio da Arte. Ela potencializa nossa cultura e nossas raízes […]”, ressaltando o papel político-cultural dessas práticas. A jovem, atualmente, desenvolve pesquisa sobre a violência contra mulheres do campo e usa o bordado/arpilleras como linguagem de expressão, escuta e denúncia, articulando criação estética, memória e reflexão crítica sobre as experiências vividas em seu território.
Esses relatos mostram que o Coletivo legitima linguagens expressivas, valoriza raízes culturais e fortalece identidades individuais e coletivas. Sobre tal questão, em diálogo com Paulo Freire, Leite (2021, p.100) afirma que “a arte pode ser experienciada como um canal eficaz para apurar os sentidos da cultura e a construção de identidades”. Ele completa: “as linguagens artísticas podem ser acionadas como um meio propício à emergência e ao acontecimento de aprendizagens significativas, constituindo canal privilegiado de criação de sentidos para o viver individual e coletivo” (p.100).
A terceira categoria, Formação, reflexão e transformação, analisa reverberações do projeto na ampliação do olhar das/os participantes e na problematização das práticas educativas com o bordado. R., estudante de doutorado de origem colombiana, destaca que o grupo lhe proporciona “um momento para escutar e aprender sobre educação e outras experiências muito distantes de meu país”. T. afirma que sua participação “significou movimento no pensar sobre formação, currículos, sobre os afetos/sentires na construção coletiva dos conhecimentos e, consequentemente, das ‘marcas’ que, de certa forma, expressarão”, articulando as experiências às reflexões que desenvolve no pós-doutorado. Ainda acrescentou: “participar do projeto fez pensar sobre formas de expressões não reconhecidas academicamente”.
Tais registros evidenciam que o bordado não apenas expressa experiências, mas atua como mediação que possibilita reinterpretar trajetórias, questionar práticas educativas e imaginar outras formas de produzir conhecimento no espaço universitário. Neste sentido, o Coletivo promove reflexões sobre as (des)aprendizagens que emergem do bordar em coletivo, constituindo práticas que costuram expressões poéticas, políticas, estéticas na produção de transformações sociais. As Rodas com o tema “Bordando Livros pela Democracia”, por exemplo, revelou esse movimento ao acolher a participação de pessoas com deficiência visual, o que convocou o Coletivo a um exercício de aprender e desaprender. Ao deslocar a centralidade da visão e mobilizar a escuta, o tato e a experimentação de diferentes materiais, as práticas do bordado foram ressignificadas, abrindo possibilidades para outros modos de ensinar, aprender e partilhar saberes.
Isto nos remete ao que hooks (2017) nos lembra: a potência da pedagogia libertadora está no movimento de questionar nossas atitudes e reinventar continuamente nossos modos de ensinar e aprender. Com isso, o bordado também é exercício de presença, de inclusão e de invenção de novas linguagens, materializando o diálogo de Freire como “o encontro amoroso dos homens que, mediatizados pelo mundo, o pronunciam, isto é, o transformam, e, transformando-o, o humanizam” (Freire, 2021, p. 51).
Em diálogo com outras experiências e relatos, chamou-nos a atenção a recorrência de termos como pausa, descanso e desaceleração. J. observa que “[…] cada detalhe ensinado sempre me remete a essa sensação de calma e presença, mostrando como o bordado vai muito além de linhas e tecidos: ele carrega memórias, aprendizado e conexão”. L. descreve o Coletivo como “um respiro […] um espaço de encontro, de pausa, de sensibilidade em meio à rotina atribulada”. Tais falas indicam que bordar implica desacelerar o tempo da produção e reconhecer a potência da pausa. Nesse movimento, o projeto tensiona dinâmicas institucionais marcadas pela lógica produtivista neoliberal – pautada pela eficiência, pela alta competitividade, pelo desempenho elevado, pelo cumprimento de metas, pela avaliação por produtos e pelo alcance mensurável de resultados -, que, na perspectiva de Paulo Freire, reduz a prática educativa e a formação ao treinamento técnico-científico dos/as educandos/as (Leite, 2021).
A este respeito, destacamos que as Rodas de bordados configuram-se como tempos intersticiais no cotidiano universitário: frestas que possibilitam encontros corporificados e experiências formativas orientadas pelo diálogo, pela escuta e pela partilha de saberes, em consonância com uma perspectiva formativa inspirada em Paulo Freire, que valoriza o tempo da experiência e da presença. Nelas emergem vivências temporais que extrapolam a cronologia dos relógios, nas quais cada participante experimenta, de modo singular, a passagem do tempo. Podemos chamá-lo de Aeon: tempo sagrado, sem medidas precisas; tempo da criatividade, da (re)invenção, tempo qualitativo, no qual o processo ganha centralidade e o percurso vivido e compartilhado passa a ter mais valor do que os resultados mensuráveis, escapando às métricas tradicionais de produtividade no contexto acadêmico (Kuhn, Cunha e Costa, 2015).
Leite (2021) afirma que há muitas experiências, em diferentes contextos educativos, pautadas pela convicção de que a educação, trabalhada na perspectiva da arte e por meio de expressões artísticas, pode contribuir no sentido da transformação da consciência e da ação dos indivíduos no mundo, tal como nos ensina Paulo Freire:
Adotar tal perspetiva na educação/formação implica considerar que, na confluência dos bens simbólicos e espirituais, temos a arte em todas as suas expressões impulsionando relações entre pessoas e grupos, renovando vivências, tecendo laços de solidariedade, criando imaginários e poéticas imprescindíveis para o conhecimento do outro e de si mesmo. Assim sendo, desenvolver-se com arte pode tornar a nossa vida mais alegre e o nosso olhar mais sensível à realidade quotidiana; pode contribuir para a criação de um rico imaginário, apoiado nas raízes e na criatividade coletiva do presente; e pode resgatar poéticas que dão um sentido à vida em comunidade pela alegria, o lúdico, a imaginação (Leite, 2021, p. 99).
Dinâmicas formativas que valorizam a consciência corporal, a estética do gesto, a experiência vivida e a linguagem poética contribuem para uma formação mais integral, articulando diferentes dimensões do humano no processo educativo e favorecendo outros modos de sentir, pensar e agir; na direção daquilo que Paulo Freire compreende como a vocação humana para o “ser mais”, isto é, para a superação de condições que limitam a humanização e a plena realização da existência (Freire, 1987; Leite, 2021).
Alinhavos finais
O estudo evidenciou que, no Coletivo “Linhas da FaE”, o bordado livre em defesa da educação pública constitui uma prática que articula encontro, criação e reflexão, produzindo espaços-tempos formativos onde se entrelaçam afetos, saberes e expressões culturais. Ao mobilizar dimensões estéticas, subjetivas e políticas da formação, essas experiências fortalecem a potência de práticas coletivas que acolhem memórias, identidades e gestos de resistência, reafirmando a educação pública como direito.
Nesse processo, o bordado se realiza como experiência formativa e linguagem: gera saberes, promove trocas, afina a escuta e desacomoda um modo de fazer acadêmico que separa racionalidade e sensibilidades. Assim, bordar se afirma como gesto de cuidado e ação política. O artigo contribui para o debate sobre Arte/Educação ao compreender o bordado como prática de mediação capaz de produzir processos formativos críticos no contexto universitário.
As experiências do Coletivo também evidenciam limites e desafios, sobretudo as tensões entre a criação de espaços de encontro, escuta e produção coletiva – muitas vezes situados em tempos intersticiais da vida universitária – e dinâmicas institucionais marcadas pelo produtivismo acadêmico e pela fragmentação de tempos e espaços. Soma-se a isso a necessidade de sistematizar e tornar mais visíveis os processos formativos, estéticos e políticos dessas práticas, fortalecendo sua continuidade e ampliando o diálogo entre arte e educação na universidade. Destacamos que o estudo analisa um conjunto específico de experiências, o que não permite generalizações sobre práticas artísticas na educação superior, indicando a necessidade de novas investigações em diálogo com outras experiências
Entre possibilidades e desafios, como nas cirandas – das Rodas de bordados, do girar da saia e das mãos que se unem para abençoar, bordar e pensar, evocando Cora Coralina e Paulo Freire -, o Coletivo “Linhas da FaE” (re)existe e não para: segue entrelaçando fios e pontos, afirmando que a educação pública se tece no diálogo, no esperançar e na força coletiva do anúncio de outros mundos possíveis.
Referências
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- Brandão, C. R. (s.d.). A pesquisa-ação-participativa e algumas experiências de criação compartida de saberes. Recuperado de https://apartilhadavida.com.br/wp-content/uploads/escritos/PESQUISA/PESQUISA%20PARTICIPANTE/A%20INVESTIGA%C3%87%C3%83O-A%C3%87%C3%83O-PARTICIPATIVA%20%20-%20rosa%20dos%20ventos%20-%20vers%C3%A3o%20menor.pdf.
- Ministério da Justiça. Comissão de Anistia. (2012). Arpilleras da resistência política chilena. Recuperado de https://bibliotecadigital.mdh.gov.br/jspui/handle/192/1084.
- Coralina, C. (2023). Poemas dos becos de Goiás e estórias mais (24ª ed.). São Paulo, SP: Global.
- Freire, P. (1979). Educação e mudança (12ª ed.). Rio de Janeiro, RJ: Paz e Terra.
- Freire, P. (1987). Pedagogia do oprimido (17ª ed.). Rio de Janeiro, RJ: Paz e Terra. (Obra original publicada em 1968)
- Freire, P. (1989). Educação como prática da liberdade. Rio de Janeiro, RJ: Paz e Terra.
- Freire, P. (2004). Pedagogia da autonomia: Saberes necessários à prática educativa. Rio de Janeiro, RJ: Paz e Terra.
- Freire, P. (2021). Extensão ou comunicação? (23ª ed.). Rio de Janeiro, RJ: Paz e Terra. (Obra original publicada em 1969)
- hooks, b. (2017). Ensinando a transgredir: a educação como prática da liberdade (M. B. Cipolla, Trad.). São Paulo, SP: Martins Fontes. (Obra original publicada em 1994)
- hooks, b. (2021). Ensinando a comunidade: uma pedagogia da esperança. São Paulo, SP: Elefante.
- Kuhn, R., Cunha, A. C., & Costa, A. R. (2015). Sem tempo para brincar: As crianças, os adultos e a tirania dos relógios. Kinesis, 33(1), 103–118. Recuperado de https://periodicos.ufsm.br/kinesis/article/view/18230.
- Leite, Álvaro P. (2021). Paulo Freire e arte educação: Considerações sobre a estética freiriana e a arte na educação/formação. Educação, Sociedade & Culturas, 54, 85-103. Recuperado de https://ojs.up.pt/index.php/esc-ciie/article/view/51.
- Linhas da FaE. (2021). Entre a linha e a palavra: bordados para Paulo Freire. Coletivo Linhas da FaE. Recuperado de https://drive.google.com/file/d/1uWeY4eEL0sWrhS-CpWrKa40-bNYNUmp7/view.
- Preciosa, R. (2018). Costura, performance e pensamento: A máquina de costura como forma de escavação da memória. In: E. Corrêa & A. Schmidt (Orgs.). Arte e moda: entrelaçamentos. (pp. 83–97) Florianópolis, SC: UDESC.
- Villarroel, K. R. (2024). Artivismos textiles en América Latina: Mil agujas por la dignidad, bordados políticos accionados entre la digitalidad y la calle. Utopía y Praxis Latinoamericana. Recuperado de https://www.redalyc.org/journal/279/27980008005/html/.
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| 1 | Professora Adjunta da FaE/UFMG. Doutora e Mestre pela FaE/UFMG. Pós-doutorado UFPA e Universidade de Barcelona. Coordenadora do projeto “Linhas da FaE: Coletivo de bordado livre em defesa da Educação Pública (FaE/UFMG). |
|---|---|
| 2 | Graduada em Pedagogia pela FaE/UFMG e mestranda do Programa de Pós-graduação em Educação: Conhecimento e Inclusão Social pela mesma instituição. Integrante do projeto “Linhas da FaE: Coletivo de bordado livre em defesa da Educação Pública (FaE/UFMG). |
| 3 | Graduanda em Psicologia na Faculdade de Filosofia e Ciências Humanas da UFMG. Integrante do projeto “Linhas da FaE: Coletivo de bordado livre em defesa da Educação Pública (FaE/UFMG). |
| 4 | Graduada em Psicologia e especialista em Psicomotricidade pela Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais e mestranda do Programa de Pós-graduação em Educação: Conhecimento e Inclusão Social pela UFMG. Integrante do projeto “Linhas da FaE: Coletivo de bordado livre em defesa da Educação Pública (FaE/UFMG). |
| 5 | “Expressões artísticas premeditadas e intencionalmente políticas, que produzem algum efeito sobre o espaço público e digital” (Villarroel, 2024, p.01). |
| 6 | As autoras agradecem a todas as pessoas do Coletivo e das ações vinculadas, pelas trocas e aprendizados. |
| 7 | Disponível em: https://sistemas.ufmg.br/siex/VerIdentificacao.do?id=109672&tipo=Projeto&modo=abrir. Acesso em: 28 set. 2025. |
| 8 | O número de participantes nas atividades é variado. Nas Rodas de bordados semanais, gira em torno de 15 pessoas. Nas demais atividades, este número já chegou a 40 pessoas inscritas em uma oficina. |
| 9 | Ação atualmente em curso, prorrogável até julho/2026. |
| 10 | Termo utilizado pelo Coletivo Pontos de Luta (BH). |
| 11 | A título de exemplo, foi lançada na Rede Social Instagram do Coletivo (@linhasdafae) a pergunta: “O que a participação no projeto significou para você?”. |