Tiago Manuel da Hora[1]INET-md, NOVA FCSH. & Nuno Peixoto de Pinho[2]INET-md/CIPEM, ESE, Politécnico do Porto.
Raízes – Canções Feirenses, projeto criado em 2016 na Academia de Música de Santa Maria da Feira, exemplifica o potencial transformador da convergência de investigação, ensino e prática artística. Partindo da ausência de repertório publicado alusivo ao património feirense, este projeto centrou-se na investigação, recuperação, revisitação e criação de obras musicais, integrando-as no ensino especializado da música. Através de metodologias interdisciplinares que combinaram a etnomusicologia, pesquisa arquivística, musicologia histórica, criação e interpretação, o projeto envolveu ativamente alunos, professores, comunidade e investigadores. Os resultados incluíram a catalogação e edição digital do repertório, a promoção de apresentações públicas de parte desse património cultural requalificado e a composição de novas obras a partir de textos literários, enriquecendo o espólio musical feirense. O presente artigo descreve as práticas e o impacto pedagógico e cultural do projeto Raízes, um modelo exemplar de integração das artes na educação e como veículo de transformação social.
Palavras-chave: Património Musical; Requalificação; Prática Pedagógica; Ensino Artístico; Interdisciplinaridade.
Abstract
Raízes – Canções Feirenses (Roots – Songs from Santa Maria da Feira) is a project that was created in 2016 at the Santa Maria da Feira Music Academy. It exemplifies the transformative potential of the convergence of research, teaching, and artistic practice. In the absence of a published repertoire alluding to Feira’s heritage, the project focused on researching, recovering, revisiting and creating musical works and integrating them into specialised music teaching. Using interdisciplinary methodologies combining ethnomusicology, archival research, historical musicology, creation and interpretation, the project engaged students, teachers, the community and researchers in active participation. The results included cataloguing and digitally editing the repertoire, promoting public performances of this requalified cultural heritage and composing new works based on literary texts to enrich Feira’s musical heritage. This article describes the practices and the pedagogical and cultural impact of the Raízes project, which is an exemplary model for integrating the arts into education and using them as a vehicle for social transformation.
Keywords: Musical Heritage; Requalification; Pedagogical Practice; Artistic Education; Interdisciplinarity.
Resumen
Raízes (Raíces) – Canciones Feirenses, proyecto creado en 2016 en la Academia de Música de Santa Maria da Feira, ejemplifica el potencial transformador de la convergencia entre investigación, enseñanza y práctica artística. Partiendo de la ausencia de repertorio publicado relativo al patrimonio de Feira, este proyecto se centró en la investigación, recuperación, revisitación y creación de obras musicales, integrándolas en la enseñanza especializada de la música. A través de metodologías interdisciplinares que combinaron la etnomusicología, la investigación archivística, la musicología histórica, la creación y la interpretación, el proyecto implicó activamente a alumnos, profesores, comunidad e investigadores. Los resultados incluyeron la catalogación y edición digital del repertorio, la promoción de presentaciones públicas de parte de este patrimonio cultural revalorizado y la composición de nuevas obras a partir de textos literarios, enriqueciendo el acervo musical de Feira. El presente artículo describe las prácticas y el impacto pedagógico y cultural del proyecto Raízes, un modelo ejemplar de integración de las artes en la educación y como vehículo de transformación social.
Palabras clave: Patrimonio Musical; Revalorización; Práctica Pedagógica; Enseñanza Artística; Interdisciplinariedad.
Nas últimas duas décadas, a música tem ocupado um papel cada vez mais abrangente e versátil como veículo de transformação social. Essa função manifesta-se em múltiplos domínios: no ensino formal e informal da música e suas variantes e aplicações;[3]Para uma consulta sobre os conceitos de ensino formal e ensino informal, ou não formal, aplicados ao ensino da música, bem como das dinâmicas de aprendizagem formal e/ou informal em contexto de … Continue a ler na articulação com valências terapêuticas; como elemento conexo a ações cívicas e sociais; como ingrediente eficaz de associativismo comunitário e inclusão social (Mota e Lopes, 2017; Odena, 2024); como ferramenta essencial para muitos movimentos sociais (Rosenthal e Flacks, 2012).
Além de ter estabelecido um papel fundamental nas dinâmicas da vivência quotidiana dos indivíduos e sociedades (DeNora, 2000), a música é, de facto, uma área de aprendizagem e expressão artística que assume um carácter privilegiado para a formação de sinergias entre diferentes agentes, com valências e funções distintas, integrados num mesmo contexto. A prática e fruição musical em situações de aprendizagem formal e não formal potenciam formas de interação que favorecem o sentimento de compromisso e proporcionam uma “forma mais profunda de conhecimento” (Dillon, 2007, pp. 166–167)[4]“a deeper way of knowing” (Dillon, 2007, p. 165).. Isso é evidente no contexto escolar, como destaca Dillon, salientando a perceção dos próprios alunos, em que a prática de música em conjunto em contexto de aprendizagem assume um papel relevante para a sua formação social, sob diferentes perspetivas:
a forma como se associam a outros músicos enquanto “forma mais profunda de conhecimento”, o prazer da criação colaborativa, o sentimento de unidade gerado pelos encontros e um conjunto de significados sociais que podem ser transferidos para competências sociais em geral. Segundo o autor, estas ideias não são novas — as comunidades têm, desde há muito, utilizado a música para unificar, criar laços e ensinar competências de colaboração —, mas importa examinar o contexto em que estas experiências ocorrem em educação musical e as interações que nelas se estabelecem, de modo a perceber como poderão ser transferidas para um quadro educativo mais alargado (Dillon, 2007, p. 167)[5]The way they associate with other musicians as a “deeper way of knowing” […] the breadth of social the pleasure of collaborative making, […] a sense of unity gained from the encounters. All … Continue a ler.
Além do contexto escolar, e como o caso aqui em apreço pode comprovar, o caráter transformador de projetos de música coletivos, torna-se ainda mais visível quando aquilo que é produzido nesse ambiente se transfere também para a esfera pública e para a produção e fruição cultural local. Um caso paradigmático no contexto português, e digno de nota, é o reconhecido projeto Orquestra Geração, criado em 2007 e que, tendo como ponto de referência inicial a plataforma “El Sistema” (Venezuela)[6]El Sistema, ou Sistema Nacional de Orquestas y Coros Juveniles e Infantiles de Venezuela, foi criado em 1975, pelo maestro José Antonio Abreu, visando a inclusão social através da implementação … Continue a ler, tornou-se um caso de inquestionável sucesso como veículo de transformação social inclusiva preponderante para a formação e no percurso pessoal de largas dezenas de crianças e jovens através do ensino, da prática e da experiência musical articulada com o contexto escolar, designadamente como uma orquestra que, na verdade, atua como “agente de sociabilização, mecanismo de inclusão e mobilidade social, comunidade de prática territorialmente enraizada” (Mota e Lopes, 2017, p. 255).
O projeto em análise neste artigo resultou também de uma prática comunitária num contexto territorial concreto, em ambiente escolar. O seu carácter diferenciador e transformador não se centra na inclusão social, mas na recuperação e requalificação da cultura musical local, vista simultaneamente como objeto de prática educativa e de produção artística. Também ao contrário da Orquestra Geração e de outros projetos frequentemente citados na literatura como exemplos de educação musical e transformação social, este projeto não partiu, na sua conceção, de um modelo externo explícito, mas foi sendo delineado a partir de necessidades e condicionantes que emergiram do trabalho de investigação em torno de fontes musicais.
Neste artigo, pretendemos dar a conhecer este projeto Raízes – Canções Feirenses, que apresenta contornos singulares no contexto do ensino especializado da música em Portugal. Para tal, apresentamos o contexto em que se desenvolveu, as metodologias e áreas do conhecimento científico e artístico implementadas, bem como alguns resultados obtidos. Por forma a corresponder a esses objetivos, pretende-se levantar um conjunto de questões: Como se desenvolveram e articularam as diferentes variantes disciplinares que coexistiram neste projeto? Quais os benefícios que a multidisciplinaridade patente trouxe? Quais os desafios dessa mesma variedade de abordagens e componentes disciplinares? De que modo os alunos estiveram expostos a todas elas e quais as repercussões para a sua aprendizagem? Quais as metodologias aplicadas? Quais os pressupostos de transformação social percecionados com a realização deste projeto? Quais os contributos para a recuperação e difusão do património cultural trabalhado?
Criado em 2016, o projeto Raízes – Canções Feirenses pode ser visto como um exemplo singular da convergência de diferentes ramos da investigação, conhecimento, ensino e prática artística como meios capazes de gerar dinâmicas de produção artística, conhecimento histórico, criação contemporânea, recursos pedagógicos e a respectiva difusão para a sociedade civil. Um dos aspetos que confere um grau de singularidade inequívoca a este projeto é o facto de se terem aplicado num contexto escolar pré-universitário (e não académico) valências de investigação científica e de criação artística. Estes domínios raramente são introduzidos no ensino preparatório ou secundário. Os alunos habitualmente não têm contato com essas áreas na sua formação antes de enveredarem pelo ensino superior.
O projeto surgiu no seio da Academia de Música de Santa Maria da Feira (AMSMF), uma instituição dedicada ao ensino especializado da música (Reis e Costa, 2005)[7]Criada em 1955 por Gilberta Paiva (1915-2013), foi a primeira escola portuguesa de ensino artístico particular equiparada (na oferta pedagógica e em equiparação de exames) ao Conservatório … Continue a ler. A coordenação esteve a cargo de dois professores da Academia, António F. Silva (investigação e arranjos) e Nuno Peixoto de Pinho (INET-md/CIPEM, ESE-IPP) – investigação, edição, adaptação e transcrição de fontes musicais –, com consultoria científica do musicólogo Tiago Manuel da Hora (INET-md, NOVA-FCSH).
Originalmente, o objetivo consistia na compilação de repertório musical das Terras de Santa Maria, um património secular que permanece patente na cultura local, mesmo que muitas dessas “terras” já não pertençam ao concelho em questão.
As terras de Santa Maria, designação tradicional da região feirense, estiveram no senhorio do Condado da Feira, e, depois da Casa do Infantado, entre o reinado de D. Fernando (se recuarmos às primeiras doações régias) e o advento da monarquia constitucional. O seu primeiro foral foi outorgado por D. Manuel I, em Fevereiro de 1514, confundindo-se, por vezes, com um presumido foral inicial, as Inquirições de D. Afonso III, de 1251. Das antigas Terras da Santa Maria foram sendo desanexadas, ao longo do volver dos séculos, dezenas de freguesias, para incorporar concelhos vizinhos, como Vila Nova de Gaia, Oliveira de Azeméis, Vale de Cambra, Estarreja, Ovar, Arouca, Espinho, São João da Madeira e Murtosa. Ainda assim, o município feirense possui actualmente 31 freguesias, sendo a este respeito o maior do distrito[8]Sem autor. (1997). Recenseamento dos Arquivos Locais: Câmaras Municipais e Misericórdias. Lisboa: Ministério da Cultura; Arquivos Nacionais/Torre do Tombo. Vol. 9 – Distrito de Aveiro, p. 287..
O ponto de partida de Raízes, aquando da sua criação, foi o repertório de canções sobre o imaginário histórico feirense, com o objetivo da criação de um concerto alusivo a esse património. No entanto, após as primeiras incursões de investigação na tentativa de levantamento desse hipotético repertório de evocação das Terras de Santa Maria, a equipa deparou-se com o seguinte problema: a ausência de música publicada e um escasso repertório em fontes manuscritas. Face a essas circunstâncias, e havendo a sinalização prévia, transmitida oralmente, de uma prolífica atividade cultural feirense ao longo dos últimos 150 anos, o projeto Raízes reconfigurou-se, transformando-se numa iniciativa que, tanto quanto conseguimos apurar, apresenta contornos originais no contexto do ensino especializado da música em Portugal, pelo modo como articulou investigação em fontes musicais, criação artística e prática performativa em contexto pré‑universitário, sem recorrer a modelos previamente assumidos como referência (ao contrário do caso acima enunciado da Orquestra Geração).
O projeto Raízes centrou-se, por conseguinte, na recuperação de repertório local, com origem nas Terras de Santa Maria (mesmo que não evocando ou fazendo referências diretas a esse património), e na sua posterior revisitação artística e performativa. Além disso, houve o intuito de que o repertório fosse alvo de uma reconstrução e/ou recriação musical e execução moderna em contexto escolar – mais concretamente, através do repertório trabalhado com a comunidade educativa da AMSMF, especificamente no quadro do Ensino Básico e Complementar/Secundário (alunos entre os 14 e os 18 anos)[9]O universo etário de alunos da AMSMF, à imagem da esmagadora maioria das instituições de ensino artístico especializado de música é compreendido entre os 3 e os 18 anos, podendo ser … Continue a ler. No entanto, não se restringiu ao domínio do contexto escolar, antes trazendo, isso sim, a escola para fora de portas, designadamente através da produção de alguns concertos que permitiram à comunidade local conhecer a produção artística que daí adveio (Figura 1). Para tal, além dos alunos das classes de conjunto (coro e orquestra) da AMSMF e do envolvimento de alguns dos professores da AMSMF (quer na orquestra, quer como solistas cantores), juntaram-se também outros artistas profissionais (como o barítono Jorge Corvelo ou o Coro Musicam Sacram e Rui Soares) e amadores (Coro Polifónico da Cruz), alargando o espectro de sinergias que esta iniciativa suscitou. Em síntese, entre 2016 e 2019 foram recuperadas e editadas 38 obras, incluindo arranjos, recriações e novas composições, das quais 35 foram efetivamente apresentadas em concerto. No total, participaram diretamente cerca de 60 alunos do Ensino Básico e Secundário, acompanhados por cerca de uma dezena de professores e por aproximadamente 50 músicos convidados (amadores e profissionais). A difusão deste repertório concretizou-se em oito apresentações públicas, que incluíram concertos, concertos-palestra e ações de mediação, designadamente duas sessões de entrega de partituras na Biblioteca Municipal de Santa Maria da Feira, acompanhadas de momentos de apresentação musical desse algum repertório. Estes indicadores quantitativos evidenciam a amplitude do envolvimento educativo, artístico e comunitário gerado pelo projeto e mostram como a recuperação e difusão deste repertório contribuíram para reforçar o movimento cultural no concelho, em diálogo estreito com a comunidade.
Figura 1 – Concerto do Projeto Raízes – Canções Feirenses no Cineteatro António Lamoso (2017),
com a Orquestra e Coro da Academia de Música de Santa Maria da Feira, sob direção de António Fernando Silva.
Para concretizar um projeto desta envergadura foi fundamental levar a cabo a preparação de uma candidatura ao Plano de Apoio ao Património Cultural da Câmara Municipal de Santa Maria da Feira. Através desse apoio de financiamento crucial, e da estreita articulação com algumas coletividades locais que se mostraram abertas à colaboração (ex.: Confraria da Fogaça da Feira, Museu Convento dos Loios), foi possível desenvolver um trabalho que revigorou o património e memória musical no presente, a partir do passado, para o futuro, através da ligação entre a música erudita e o património de tradição popular.
O processo de pesquisa e recolha decorreu entre 2016 e 2018, tendo a equipa identificado uma grande quantidade de fontes, bem como compositores, escritores e autores de obras eruditas feirenses do século XX. Este trabalho fundiu e fez convergir um alargado leque de metodologias de investigação e produção em diferentes domínios: etnologia, etnomusicologia, pesquisa arquivística e documental, musicologia histórica, criação musical contemporânea e execução musical. Também no domínio do trabalho em contexto escolar, tratou-se de um caso raro, mesmo no contexto do ensino da música, caracterizado por uma clara interdisciplinaridade, em que foi possível interligar a utilidade de diferentes disciplinas em torno deste projeto: história da música e história social e cultural em torno de Santa Maria da Feira, classes de conjunto (coro e orquestra), análise musical e técnicas de composição. Isso permitiu trazer, consequentemente, para a comunidade um novo núcleo de conhecimento histórico e um novo espólio de produção cultural, acarretando também um forte cariz formativo na comunidade (educativa e local), conferindo também, por essa via, um claro papel de transformação social resultante deste tipo de ações.
Raízes assumiu dois eixos fundamentais:
- identificação, inventariação e recuperação de fontes históricas que são as bases da formação da cultura local de uma determinada época e do legado histórico que deixaram para o presente;
- produção artística, do presente para o futuro, através da revisitação e recuperação levada a cabo em torno desse repertório antigo. Pesquisaram-se fontes históricas para a criação de novas obras contemporâneas.
Assiste-se, assim, a uma recuperação e requalificação criativa da cultura que, como diria Raymond Williams,
é ao mesmo tempo tradicional e criativa, isto é, é ao mesmo tempo os mais ordinários sentidos partilhados e os melhores sentidos individuais. Usamos a palavra cultura nesses dois sentidos: para significar todo um modo de vida — os sentidos comuns; para significar as artes e o conhecimento — os processos especiais de descoberta e esforço criativo (1958, p. 93).
Uma pesquisa e realização desta natureza consistem num trabalho com uma grande abrangência e complexidade de tipologias de fontes, que obriga à aplicação de uma grande variedade de metodologias: é necessário estudar a fundo a música impressa ou originais e cópias manuscritas; confrontar a informação histórica a partir da consulta de periódicos e bibliografia com referência ao contexto social, práticas culturais e outras manifestações que permitam um melhor enquadramento de figuras, situações e eventos que identificam o património musical em estudo; há ainda um importante trabalho de campo, no contacto com a memória oral de quem se disponibiliza a colaborar, quer na cedência de fontes particulares, quer na partilha, através de entrevistas, de conhecimento e memória por diferentes pessoas que através da sua colaboração desinteressada acrescentaram a este projeto um valor e profundidade de conhecimento histórico que seria impossível garantir de outra forma; e, por fim, o tratamento criativo (arranjos, orquestrações, novas criações) a partir das fontes identificadas. É disso exemplo a Canção das Fogaceiras, de meados de 1942, com música de Paulo de Sá e letra de Carlos Morais, agora revisitada, por via deste projeto, através de um arranjo de António Fernando Silva e orquestração de Nuno Peixoto de Pinho. Outro caso paradigmático encontramos na canção Assubí ao alto, que é a única peça do Cancioneiro de Arouca que evoca a Vila da Feira e serviu de mote para uma nova composição de Nuno Peixoto de Pinho, que traduz um trabalho artístico e o tratamento criativo das fontes, ou, em alguns casos, de partes delas. Esta nova versão, editada no âmbito do Raízes, partiu de um trecho melódico, a que se juntou uma adaptação literária do texto original.
Verificou-se ainda a criação musical original inspirada neste património histórico, com duas obras compostas de raiz por Nuno Peixoto de Pinho. Uma delas, O Romper das Grilhetas, com texto de Judite Lopes, foi estreada no Convento dos Lóios, em 2017, pelo coro e orquestra da AMSMF, precisamente numa das primeiras apresentações públicas do projeto Raízes – Canções Feirenses (Figura 2). Por sua vez, Flores de Santa Maria (2018) foi inspirada em três obras para piano que integram o Álbum para a Juventude Portuguesa, composto em 1933 por Ruy Coelho (1893-1986). A escolha deste material relacionou-se com o facto de ter sido estudado e trabalhado na disciplina de Análise e Técnicas de Composição (ATC), no âmbito do conteúdo programático dedicado ao Nacionalismo Português. Durante as atividades criativas desta disciplina, o professor utilizou essas peças como método pedagógico, dando origem a recriações realizadas pelos alunos — experiências que estiveram na base da conceção desta obra. O texto de Flores de Santa Maria foi adaptado por António F. Silva, a partir de frases presentes nos textos de Carlos Peixoto (Santa Maria de Lamas), nomeadamente a marcha “As Flores da Nossa Terra” e a valsa “Canção do Emigrante”[10]A valsa “Canção do Emigrante” integrou a revista Aqui é Lamas (1952), enquanto “As Flores da Nossa Terra” e “Canção do Emigrante” foram apresentadas em simultâneo nas revistas Lamas … Continue a ler. Foram igualmente relevantes: a articulação pedagógica com o trabalho curricular, que permitiu integrar a recriação musical em disciplinas como ATC; o recurso a processos participativos, em que os alunos contribuíram ativamente na criação de repertório; a valorização das parcerias institucionais com coletividades e arquivos locais, essenciais para o acesso a fontes; e, ainda, o recurso a tecnologias digitais. É o caso da obra Quem é?, escrita para coro a oito vozes, que utiliza um texto extraído de uma gravação realizada no âmbito do projeto feirense 140 Mil Memórias[11]O projeto 140 Mil Memórias foi o projeto-âncora do Imaginarius Centro de Criação (2018–2019), e constituiu-se como um “museu participativo” construído a partir de histórias, objetos, … Continue a ler. A gravação corresponde ao depoimento da Dona Preciosa Martins, que afirma: “E hoje quem cultiva as terras? Os velhinhos não podem, os novos não querem, os novos só querem bailes, comes e bebes. Quem é que leva o estrume e a enxada para o campo? Quem é?”. A partir desta matriz oral, a melodia foi criada pelo aluno José Barbosa e posteriormente harmonizada por Nuno Peixoto de Pinho. A obra foi depois selecionada para integrar a exposição promovida pelo projeto 140 Mil Memórias, realizada em 2019 no Museu Convento dos Lóios, onde o público podia ouvir a gravação do testemunho original, seguida da sua recriação coral. Importa ainda referir que os próprios alunos assumiram a responsabilidade pela edição digital do manuscrito, experiência esta que lhes permitiu consolidar competências técnicas de notação e edição musical.
Figura 2 – Concerto do Projeto Raízes – Canções Feirenses com a Orquestra da Academia de Música de
Santa Maria da Feira e o Coro Polifónico da Cruz. Em primeiro plano, da esquerda para a direita:
Judite Lopes, Mafalda Campos Leite, David Lopes, António Fernando Silva, Nuno Peixoto de Pinho e Tiago Hora.
Para além desta experiência coral, foram realizadas outras ações com repertório orquestral, em que os alunos tiveram a responsabilidade de proceder à extração das partes orquestrais a partir da partitura geral, utilizadas depois por eles próprios nas aulas de Classes de Conjunto (Orquestra). Esta prática revelou grande valor formativo, por expô-los a aspetos concretos da execução coletiva: prever locais estratégicos de viragem de páginas, ajustar o tamanho da fonte para garantir legibilidade, introduzir alterações em dinâmicas, ligaduras de expressão ou arcadas. Estas intervenções foram incorporadas diretamente nas respetivas partes, permitindo aos alunos compreender na prática a estreita relação entre o trabalho de edição musical e as exigências da interpretação performativa. Os alunos foram, ainda, responsáveis pela definição das marcas de ensaio, tarefa diretamente relacionada com a organização formal da obra e as suas subdivisões internas em secções/partes, o que reforçou a dimensão analítica da aprendizagem e a consciência da arquitetura musical das peças.
Figura 3 – Manuscrito (para coro a 4 vozes) e edição digital (adaptação para coro e orquestra) de Vila da Feira,
Oh Terra Querida.
Este trabalho resultou, então, de um grande espectro de metodologias, por forma a se poder alimentar o retrato da vida cultural, social e artística local de décadas passadas, mas também do presente. Outro enfoque foi o de criar várias versões de uma mesma obra, em diferentes formatos, para que se possam adequar aos mais diversos espaços educativos e performativos, possibilitando uma maior e mais diversificada divulgação desse repertório pelo facto de essas diferentes versões poderem fazer circular uma mesma obra mediante diferentes efetivos musicais (i. e., voz e piano, voz e orquestra, entre outras possibilidades). Inicialmente, optou-se por dar prioridade a fontes musicais que chegaram ao nosso conhecimento por via da comunidade escolar, designadamente por alguns professores da AMSMF que, tendo a sua atividade artística alicerçada em Santa Maria da Feira, partilharam algum do repertório que se enquadrou neste projeto. Assim, as primeiras obras foram essencialmente de repertório para coro ou para voz e piano, sobretudo centrado em música de teatro de revista e repertório coral na tradição orfeónica da viragem para o século XX.
A relação, já atrás referida, entre a música erudita e o repertório de tradição popular constituiu um dos tónicos dominantes deste projeto; não se trata, de todo, de uma novidade. Mesmo se circunscrevermos ao panorama português, a partir das últimas décadas do século XIX, o interesse pela inspiração no património musical popular deu-se muitas vezes demarcado de correntes político-sociais e, sobretudo, impulsionado por um interesse pelo conhecimento histórico, cultural e etnológico, frequentemente refletido, por exemplo, nos cancioneiros que se foram compilando desde a viragem para o século XX[12]São exemplos mais conhecidos o Cancioneiro de músicas populares compilado por César das Neves, entre 1893 e 1898, ou o Cancioneiro Popular Português elaborado por Michel Giacometti e F. … Continue a ler. Outra vertente reside na inspiração na música tradicional como recurso fundamental da criação erudita – encontramos exemplos paradigmáticos na obra de José Vianna da Motta (1868-1948), de Luís de Freitas Branco (1890-1955) ou de Lopes-Graça (1906-1994), entre outros. Simultaneamente, a partir de meados da década de 1930, assistiu-se a um processo de fusão entre a criação e prática popular e formas que eram historicamente do domínio erudito. É o caso do teatro de revista, da opereta e do teatro musicado. Estes e outros novos modelos de manifestações de prática musical e artística locais, como também o canto coral marcado pelo movimento orfeónico, têm como denominador comum a fusão entre a prática amadora e a experiência profissional – o próprio Orfeão Feirense surge nesse contexto, tornando-se na viragem de século, um elemento central da vida musical local (Carlos, 2011). Estes modelos proliferaram desde o início do século XX, tanto nos grandes centros urbanos, como também nas periferias, onde a revista, o teatro e a prática de concertos, com um carácter de associativismo muito marcado, foram os principais elementos dinamizadores da vida social e cultural desses locais, como foi precisamente o caso da Vila da Feira. Um exemplo de uma canção que foi resgatada por este projeto e que se insere nesse domínio é “Aqui nasceu Portugal”, pertencente à revista Salada Russa (1941), com o propósito de angariação de fundos para a construção de um novo quartel para os Bombeiros da Vila da Feira. Outro exemplo deste tipo é a canção “As Fogaceiras”, que integrou a revista O Preço da Alegria, estreada em 1978 no Cineteatro de Santa Maria de Lamas.
A circulação destas revistas por diferentes locais de apresentação pública (salas de concerto ou teatros) e a reconstituição dessa orgânica obriga, muitas vezes, a alargar a pesquisa além das canções específicas, por forma a poder-se conhecer melhor o contexto em que estas foram sendo apresentadas ao público. Nestes dois casos concretos há ainda a possibilidade de tentar chegar mais perto desses acontecimentos históricos através do contacto com pessoas que participaram ou familiares desses mesmos intervenientes.
Os resultados alcançados foram francamente positivos e permitiram concretizar um conjunto assinalável de objetivos: a recolha de repertório até então não catalogado e/ou não arquivado, muitas vezes existente em formatos que dificultavam a sua interpretação; o enriquecimento do escasso repertório erudito identificado, atualizado criticamente para o panorama musical dos dias de hoje através de revisão e edição digital, permitindo múltiplas interpretações; a valorização de fontes primárias na composição ou arranjo de novas obras, integrando traços originais mas respeitando temas e textos autênticos; a criação de novos trabalhos a partir de textos literários relacionados com Santa Maria da Feira; o alargamento do espólio musical feirense; e, finalmente, a sua disponibilização e divulgação pública.
O âmbito cronológico revelou-se particularmente amplo, desde a viragem para o século XX até ao final da década de setenta, só considerando as fontes originais, dado que, como referido anteriormente, a isso podemos juntar o trabalho criativo desenvolvido no âmbito do projeto, alargando esse âmbito cronológico até 2018 – mais de um século em espólio.
Do ponto de vista da identificação e atribuição da autoria das obras, apesar de termos uma informação consistente que foi sendo reunida, nem sempre foi possível determinar com absoluta certeza o enquadramento histórico de determinadas obras – nem a sua cronologia exata ou autoria. Mesmo assim, foi possível identificar diversas personalidades que assumiram uma atividade importante dentro da criação deste repertório revitalizado.
Entre estas destacam‑se, por exemplo, António Aguiar Cardoso – caso em que foi, inclusivamente, possível aprofundar mais a investigação de carácter biográfico (Hora et al., 2019) – e outras figuras associadas a diferentes aspetos deste repertório: Vaz Ferreira, político e autor do texto Aqui nasceu Portugal; António Martins, compositor e arranjador de peças de teatro escritas por Domingos Trincão; Carlos Peixoto e Onofre Melo, ligados à criação musical e à prática artística local; Paulo de Sá, guitarrista de fado e autor da Canção das Fogaceiras, com letra de Carlos Moraes; Horácio Alvim, guitarrista e autor de alguns temas musicais; e José Arroja, cuja intervenção se encontra documentada, mas sobre o qual não existe total certeza quanto ao papel específico que desempenhou neste repertório. A existência de um número considerável de músicos amadores feirenses que conciliaram as suas profissões com a prática artística, contribuindo decisivamente para a vida cultural no concelho, é um importante campo que ficou sinalizado com este projeto, sendo-lhes devido agora um justo estudo e divulgação. Nesse sentido, este projeto contribuiu para expandir não apenas o conhecimento musical, mas também o histórico-cultural das dinâmicas que, em diferentes períodos, marcaram a vida cultural feirense e, igualmente, de localidades vizinhas, como Mozelos, Espinho, São Paio de Oleiros, São João da Madeira, Argoncilhe ou Santa Maria de Lamas.
Deste quadro tão amplo emergiu igualmente uma gama alargada de informação relacionada não apenas com o conteúdo musical e literário das obras, mas também com os diferentes contextos em que estas foram concebidas, apresentadas e transmitidas.
Mesmo assim, um aspecto a salientar é o vasto repertório de música para teatro, música erudita ou música sacra, que se encontra incógnito ou disperso, ainda a necessitar de ser resgatado e catalogado; um espólio que importa atualizar, de modo a possibilitar a sua divulgação em múltiplas formas, para o (re)conhecimento público das novas gerações.
Importa ainda referir que as dinâmicas promovidas pelo projeto fomentaram importantes contributos da própria comunidade. Exemplo disso foi o concerto-palestra Canções Feirenses, em janeiro de 2019, que, além de dar a conhecer os primeiros resultados à população, originou a oferta ao projeto de um conjunto de manuscritos (ver Figura 4) do compositor António Aguiar Cardoso (1862–1937). Este gesto, recebido com sentido de responsabilidade, possibilitou a catalogação de uma parte substancial do seu espólio (ver Quadro 1), constituindo um contributo inestimável para o enriquecimento do património musical feirense.
Figura 4 – Manuscritos de António Aguiar Cardoso (1862-1937),
espólio cedido ao projeto Raízes.
Ainda que circunscrito a episódios pontuais, o impacto do projeto ultrapassou as fronteiras locais. Destaca-se, a título ilustrativo, a interpretação da “Canção da Tristeza”, de Aguiar Cardoso, pela Orquestra Xiquitsi, em Moçambique, sob a direção do Maestro José Eduardo Gomes. Casos como este sublinham que o repertório desperta interesse para além da comunidade local de origem, confirmando a pertinência da sua valorização e difusão em contextos artísticos diversificados.
Os resultados obtidos constituem, por fim, um legado que transcende o âmbito imediato do projeto, ao disponibilizar um acervo atualizado e acessível, oferecido em versão digital e gratuita a todas as escolas de música do concelho de Santa Maria da Feira, bem como publicamente acessível através do website da escola[13]O acervo digital do projeto pode ser consultado em: https://www.academiamusicasmf.com/projeto-raizes.html.. Este acervo representa um recurso que poderá potenciar novas investigações, recriações e práticas performativas no futuro. Nesse sentido, apresenta-se no Quadro 1 uma listagem das obras editadas no âmbito do projeto.
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Código |
Título |
Compositor |
Instrumentação |
Observação |
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PR.001 |
O Romper das Grilhetas |
Nuno Peixoto de Pinho |
Coro e Orquestra |
Texto de Judite Lopes |
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PR.002 |
As Fogaceiras (1) |
Onofre Melo |
Voz e orquestra |
Baseada na obra “As Fogaceiras” da Revista “O Preço da Alegria” (1978). |
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PR.003 |
Assubi ao Alto |
Nuno Peixoto de Pinho |
Voz e orquestra de cordas |
Baseado no tema popular “Assubí ao Alto” com texto adaptado por A. Fernando Silva |
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PR.004 |
Flores de Santa Maria |
Nuno Peixoto de Pinho |
Coro e Orquestra de Cordas |
Textos de Carlos Peixoto com adaptação A. F. Silva |
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PR.005 |
Quem é? |
Nuno Peixoto de Pinho |
Coro a 8 partes |
Melodia de José Barbosa |
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PR.006 |
Queijo, Manteiga, Fogaça e Caladinhos (2) |
António Martins |
Voz, contrabaixo e multipercussão I e II. |
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PR.007 |
Aqui Nasceu Portugal |
António Martins |
Voz, guitarra e instrumento melódico |
Letra de Henrique Vaz Ferreira (1941). Adaptação pelos alunos da disciplina de ATC 3 (2017-2018) |
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PR.008 |
Aqui Nasceu Portugal |
António Martins |
Voz e orquestra de cordas |
Texto de H. Vaz Ferreira (1941). |
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PR.009 |
As Fogaceiras (3) |
Onofre de Melo |
Voz e orquestra de cordas |
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PR.010 |
Canção da Tristeza (4) |
Aguiar Cardoso |
Voz e guitarra |
Texto de Ermígio Moniz (pseudónimo de Aguiar Cardoso). |
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PR.011 |
Canção da Tristeza (4) |
Aguiar Cardoso |
Voz e orquestra de cordas |
Texto de Ermígio Moniz (pseudónimo de Aguiar Cardoso). Adaptação pelos alunos da disciplina de ATC 2 (2017-2018). |
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PR.012 |
Canção da Fogaceira (3) |
Paulo de Sá |
Voz e orquestra de cordas |
Texto de Carlos Moraes. |
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PR.013 |
Quem é? |
Nuno Peixoto de Pinho |
Coro e piano |
Melodia de J. Barbosa (aluno de ATC 2 (2017-2018) |
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PR.014 |
O Romper das Grilhetas |
Nuno Peixoto de Pinho |
Coro, oboé, piano e orquestra de cordas |
Texto de Judite Lopes |
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PR.015 |
O Romper das Grilhetas |
Nuno Peixoto de Pinho |
Coro e piano |
Texto de Judite Lopes |
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PR.016 |
Trova da Vila da Feira |
António Toscano |
Voz e orquestra de cordas |
Texto de Leonel Neves Arranjo de A. F. Silva |
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PR.017 |
Tantum Ergo [1 e 2] (5) |
Aguiar Cardoso |
[1] Solista e coro a duas vozes e piano/órgão [2] coro a duas vozes e piano/órgão |
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PR.018 |
Ave Maria [1 e 2] (5) |
Aguiar Cardoso |
Voz e piano |
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PR.019 |
Cântico a Maria Santíssima (5) |
Aguiar Cardoso |
Coro orfeónico (2T, Bar, B) |
Dedicado ao Orfeão Feirense. |
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PR.020 |
Missa (5) |
Aguiar Cardoso |
Coro a 2 vozes e órgão/piano |
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PR.021 |
Te Deum (5) |
Aguiar Cardoso |
Coro alternado a 2 vozes e órgão/piano |
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PR.022 |
Cântico ao Sagrado Coração de Jesus (5) (6) |
Aguiar Cardoso |
Coro a duas vozes e piano/órgão |
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PR.023 |
Salutaris (5) |
Aguiar Cardoso |
Coro a 3 vozes (2T e B) e órgão |
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PR.024 |
Cântico ao Sagrado Coração de Jesus (5) (7) |
Aguiar Cardoso |
Solista, coro a 2 vozes e pequeno grupo instrumental [fl., 3 cl. 2 sax. e contrabaixo] |
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PR.025 |
Missa [brevis] (1) (6) (Kyrie e Gloria) |
Aguiar Cardoso |
Coro e Orquestra |
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PR.026 |
Te Deum (1) |
Aguiar Cardoso |
Coro a 4 vozes [alternado] e orquestra |
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PR.027 |
Cancão da Tristeza (solista e orquestra) (1) |
Aguiar Cardoso |
Clarinete solo e orquestra de cordas |
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PR.028 |
Ave Maria 2 (1) |
Aguiar Cardoso |
Solista, coro e orquestra |
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PR.029 |
Cântico a Maria Santíssima (1) (6) |
Aguiar Cardoso |
Coro a 4 vozes e Orquestra de Câmara |
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PR.030 |
Te Deum (2) (6) |
Aguiar Cardoso |
Coro misto e piano/ou/órgão |
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PR.031 |
Cântico a Maria Santíssima (2) (6) |
Aguiar Cardoso |
Coro misto |
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PR.032 |
Missa [brevis] (2) (Kyrie e Gloria) |
Aguiar Cardoso |
Coro a duas vozes e piano/órgão |
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PR.033 |
Vila da Feira, oh terra querida (2) |
Alfredo Maya |
Voz solista, coro e orquestra sinfónica |
Harmonização de Gabriel Portela, J. Barbosa, Manuel Guerra e Rodrigo da Silva (alunos de ATC 2 (2016-2017) |
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PR.034 |
Queijo, Manteiga, Fogaça e Caladinhos (5) |
António Martins |
Voz e Piano |
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PR.035 |
A Rainha do Castelo (1) |
Edwiges Helena Pacheco |
Coro e orquestra |
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PR.036 |
As Aventuras de Um Trovador |
Nuno Peixoto de Pinho |
Orquestra Sinfónica |
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PR.037 |
Canção da Fogaceira (7) |
Paulo de Sá |
Coro e orquestra |
Texto de Carlos Moraes. |
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PR.038 |
Trova da Vila da Feira (8) |
António Toscano |
Coro e orquestra |
Texto de Leonel Neves. |
Quadro 1 – Obras editadas pelo projeto Raízes – Canções Feirenses.
1Orquestração e adaptação de N. Peixoto de Pinho.
2Adaptação de Nuno Peixoto de Pinho
3Orquestração de António Fernando Silva
4Partitura editada pela Casa Eduardo da Fonseca (Porto).
5Edição fiel ao manuscrito, com correções pontuais de erros evidentes.
6Contém uma orquestração para Coro a duas vozes e Orquestra de António Martins.
7Orquestração de A. Martins
8Arranjo de António F. Silva e orquestração de N. Peixoto de Pinho
Este projeto poderá, idealmente, servir como modelo para futuras ações similares em outros centros de ensino pré-universitário, permitindo a recuperação e revisitação contemporânea do respetivo património musical e cultural local, aplicado também como ferramenta pedagógica que permite também aos alunos contactarem com novos domínios científicos e artísticos, alargando sobremaneira a sua experiência e potencial de valências acumulados nessa fase de estudos. Trata-se, assim, de um caso claro da integração das artes em processos educativos, através de uma prática pedagógica híbrida que conjuga o ensino formal e não-formal, enquadrada numa iniciativa que permite dar uma resposta a lacunas e desafios no quadro do conhecimento histórico e cultural do território em que se insere.
Mais do que recuperar repertório e memórias locais, Raízes reforçou o diálogo entre a escola, a comunidade e o território, criando um legado acessível que alimenta tanto a identidade cultural local e investigação futura, repercutindo-se também num lastro de transformação social. O facto de parte deste repertório já ter sido interpretado em contextos académicos (ao nível do Ensino Básico e Secundário de Música) confirma o seu potencial de difusão interpretativa, sendo que as revisões formais e técnicas foram realizadas de modo a corrigir eventuais questões de ordem editorial e interpretativa. Com a disponibilização em formato digital e de acesso público, abre-se igualmente a possibilidade de novas recriações artísticas e estudos musicológicos, conferindo sustentabilidade e continuidade a uma ação que, nascida localmente, adquiriu um alcance pedagógico, cultural e patrimonial de grande amplitude.
Para trabalhos futuros, seria de grande pertinência aprofundar a medição do impacto comunitário e social destas ações. Tal investigação permitiria compreender de que forma o projeto reforçou a identidade cultural local e como aproximou a comunidade, a escola, os arquivos e as coletividades, quantificando e qualificando os seus efeitos a longo prazo.
Na atualidade, o projeto prossegue o seu caminho com novos contributos para a valorização do património musical feirense. Encontra-se em curso a edição integral da obra de António Martins (1889–1968), compositor que deixou um contributo expressivo com fortes ligações ao contexto local.
Do ponto de vista das implicações para outros contextos educativos, os indicadores aqui apresentados — número de obras recuperadas e editadas, participantes envolvidos e ações públicas realizadas — demonstram que projetos desta natureza podem articular, de forma realista, objetivos artísticos, patrimoniais e pedagógicos em escolas de ensino especializado ou em contextos pré‑universitários. A experiência de Raízes – Canções Feirenses sugere que a integração de repertório local, pesquisa histórica e práticas colaborativas em articulação com a comunidade constitui um modelo com potencial de replicação noutros territórios e de adaptação a diferentes escalas e realidades institucionais.
O projeto Raízes – Canções Feirenses evidencia que a preservação e a prática do património musical local não são apenas um exercício de memória, mas uma forma de educação e de transformação cultural. Este projeto encontra eco na afirmação de H. Arendt de que “a ação, ao contrário da fabricação, nunca é possível em isolamento” (1958, p. 201). Ao integrar repertórios esquecidos no espaço escolar e ao envolver a comunidade nesse processo, construiu-se um caminho em que arte e educação dialogam continuamente, fortalecendo identidades e abrindo horizontes de futuro. Mais do que resgatar o passado, trata-se de o reinscrever no presente, de modo a garantir que a memória coletiva se mantenha viva, partilhada e enraizada.
Referências
- Arendt, H. (2001). A condição humana (R. Raposo, Trad.). Forense Universitária. (Obra original publicada em 1958).
- Baker, G. (2014). El Sistema: Orchestrating Venezuela’s youth. Oxford University Press.
- Cain, T. (2013). ‘Passing it on’: beyond formal or informal pedagogies. Music Education Research, 15(1), 74–91.
- Carlos, R. (2011). Orfeão da Feira: 100 anos de história em imagens, 1911–2011. Centro de Cultura e Recreio do Orfeão da Feira.
- Castelo-Branco, S. (Ed.). (2010). Enciclopédia da música em Portugal no século XX. Temas e Debates; Círculo de Leitores.
- DeNora, T. (2000). Music in everyday life. Cambridge University Press.
- Dillon, S. (2007). Music, meaning and transformation: Meaningful music making for life. Cambridge Scholars Publishing.
- Ferreira, S., & Vieira, M. H. (2013). Práticas formais e informais no ensino da música: Questionando a dicotomia. Revista Portuguesa de Educação Artística, 3, 85–95.
- Folkestad, G. (2005). The local and the global in musical learning: Considering the interaction between formal and informal settings. In P. Campbell (Ed.), Cultural diversity in music education (pp. 23-27). Australian Academic Press.
- Folkestad, G. (2006). Formal and Informal learning situations or practices vs formal and informal ways of learning. British Journal of Music Education, 23(2), 135-145.
- Gordon, E. (2005). Teoria da aprendizagem musical para recém-nascidos e crianças em idade pré-escolar. Fundação Calouste Gulbenkian.
- Green, L. (2008). Music, informal learning and the school: A new classroom pedagogy. Ashgate.
- Hora, T. M., Peixoto de Pinho, N., & Silva, A. (2019). Um compositor a descobrir: António Aguiar Cardoso – Uma redescoberta em Terras de Santa Maria, Glosas, 20, 140-144.
- Kertz-Welzel, A. (2021). Rethinking music education and social change. Oxford University Press.
- Mota, G., & Lopes, J. T. (2017). Crescer a tocar na Orquestra Geração. Verso da História.
- Odena, O. (ed.) (2024). Music and social inclusion. International research and practice in complex settings.
- Paiva, G. (1959, 31 de março). Em cada distrito do país devia existir uma academia de música. Diário Ilustrado.
- Reis, T., & Costa, L. (2005). A escola que mudou o ensino da música em Portugal. Academia de Música de Santa Maria da Feira.
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- Storsve, G. (2024). Formal, informal, and non-formal learning as analytic categories for research in music education. International Journal of Music Education, 1-19.
- Williams, R. (1958). Culture and society. Chatto and Wintus.
[+]
| 1 | INET-md, NOVA FCSH. |
|---|---|
| 2 | INET-md/CIPEM, ESE, Politécnico do Porto. |
| 3 | Para uma consulta sobre os conceitos de ensino formal e ensino informal, ou não formal, aplicados ao ensino da música, bem como das dinâmicas de aprendizagem formal e/ou informal em contexto de pedagogia musical, sugerimos a consulta de: Cain, 2013; Ferreira & Vieira, 2013; Folkestad, 2005, 2006; Gordon, 2005; Green, 2008; Storsve 2024. |
| 4 | “a deeper way of knowing” (Dillon, 2007, p. 165). |
| 5 | The way they associate with other musicians as a “deeper way of knowing” […] the breadth of social the pleasure of collaborative making, […] a sense of unity gained from the encounters. All of these themes are social meaning outcomes, which may be independent of musical experience and transferable to social skills in general. Certainly, they are not new ideas and communities have always used music with these purposes in mind to unify, bond and teach collaborative skills. What is important here is that we are able to examine the context in which these are seen and the interactions that occur within a music education setting and discern how these might be transferable to a broader educational environment (Dillon, 2007, p. 167). |
| 6 | El Sistema, ou Sistema Nacional de Orquestas y Coros Juveniles e Infantiles de Venezuela, foi criado em 1975, pelo maestro José Antonio Abreu, visando a inclusão social através da implementação de núcleos de orquestras e coros em bairros venezuelanos. Destacam-se efetivos de grande qualidade artística à escala internacional resultantes deste projeto, como é o caso da Orquestra Sinfónica Simón Bolívar, ao mesmo tempo que este projeto tem impulsionado diversas carreiras de músicos profissionais – é exemplo Gustavo Dudamel, atualmente maestro titular da Orquestra Filarmónica de Los Angeles. Apesar das críticas recentes quanto ao seu funcionamento no contexto político e à retórica da sua promoção, El Sistema mantém-se como uma referência mundial, servindo de modelo a iniciativas semelhantes em diversos países (Baker, 2014). |
| 7 | Criada em 1955 por Gilberta Paiva (1915-2013), foi a primeira escola portuguesa de ensino artístico particular equiparada (na oferta pedagógica e em equiparação de exames) ao Conservatório Nacional, fora dos centros urbanos, numa descentralização do ensino da música necessária e fulcral, com o intuito de “divulgar, pela população, o ensino musical, educar-lhe o gosto pela música elevada, aproveitar vocações artísticas que existiam em todo o país e que não têm oportunidade de se manifestarem, contribuindo, igualmente, para a formação do verdadeiro profissionalismo entre os músicos portugueses” (Paiva, 1959). Ao exemplo da AMSMF, viriam a suceder outros, fazendo chegar o ensino da música a um número mais alargado e descentralizado de pessoas. |
| 8 | Sem autor. (1997). Recenseamento dos Arquivos Locais: Câmaras Municipais e Misericórdias. Lisboa: Ministério da Cultura; Arquivos Nacionais/Torre do Tombo. Vol. 9 – Distrito de Aveiro, p. 287. |
| 9 | O universo etário de alunos da AMSMF, à imagem da esmagadora maioria das instituições de ensino artístico especializado de música é compreendido entre os 3 e os 18 anos, podendo ser extravasado por raríssimos casos de alunos com mais de 18 anos, sobretudo frequentadores de cursos livres. |
| 10 | A valsa “Canção do Emigrante” integrou a revista Aqui é Lamas (1952), enquanto “As Flores da Nossa Terra” e “Canção do Emigrante” foram apresentadas em simultâneo nas revistas Lamas à Vista (1967), Abelhinhas ao Cortiço (1973) e Revista das Revistas (1982). Todas estas revistas foram escritas e dirigidas por Carlos Peixoto e levadas à cena pelo Grupo Cénico e Beneficente de Santa Maria de Lamas (ativo entre 8 de dezembro de 1946 e 1984). |
| 11 | O projeto 140 Mil Memórias foi o projeto-âncora do Imaginarius Centro de Criação (2018–2019), e constituiu-se como um “museu participativo” construído a partir de histórias, objetos, imagens e sons recolhidos em todas as freguesias de Santa Maria da Feira. |
| 12 | São exemplos mais conhecidos o Cancioneiro de músicas populares compilado por César das Neves, entre 1893 e 1898, ou o Cancioneiro Popular Português elaborado por Michel Giacometti e F. Lopes-Graça (publicado em 1981), ao mesmo tempo que se desenvolveram cancioneiros de carácter local, como o Cancioneiro de Arouca, o qual encontra eco em algum repertório trabalhado no âmbito do projeto Raízes. |
| 13 | O acervo digital do projeto pode ser consultado em: https://www.academiamusicasmf.com/projeto-raizes.html. |