HomeRevistaDebatePensando colaborativamente “Os Futuros da Educação”

 

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Alfredo Dias 1, Albertina Raposo 2, Joana Costa 3, Sara Borges 4

 

Na senda de uma tradição que remonta a 1972, a UNESCO lançou em setembro de 2019 a iniciativa “Futuros da Educação: Aprender a Transformar-se” 5, com o objetivo de reexaminar e repensar a maneira como a educação e o conhecimento podem contribuir para o bem comum mundial 6. Esta iniciativa é orientada por uma Comissão Internacional de alto nível com vários e várias especialistas de muitos âmbitos e regiões do mundo e - baseando-se num processo consultivo amplo e aberto que pretende envolver jovens, educadores e educadoras, a sociedade civil, governos, empresas e outros atores com interesse - está a promover um debate mundial sobre como o conhecimento e a aprendizagem podem ajudar a construir o futuro da humanidade e do planeta. Em novembro de 2021, esta Comissão Internacional irá publicar um relatório com uma visão de futuro sobre o que a educação pode vir a ser e, assim, criar linhas orientadoras para a ação política mundial.

Até final de novembro de 2020, a iniciativa “Futuros da Educação: Aprender a Transformar-se” promoveu uma primeira fase de auscultação e de recolha de contributos, que incluiu várias formas de participação - desde responder a um questionário, submeter um relatório aprofundado ou realizar um grupo focal de discussão dedicado ao tema. No seio da Comunidade Sinergias ED 7, lançou-se o desafio de organizar um momento de discussão no âmbito desta iniciativa e, assim, podermos contribuir para este debate mundial. Desta forma, foi criado um grupo de trabalho colaborativo que, partindo dos guiões sugeridos pela UNESCO para este efeito, planeou uma sessão online, no dia 16 de julho de 2020, na qual foram dinamizados dois grupos de discussão, envolvendo um total de 23 pessoas provenientes de entidades de âmbito académico e de entidades da sociedade civil, nomeadamente de Organizações Não-governamentais 8.

 

 

Contributos dos grupos de discussão

Os dois grupos de discussão centraram-se nos três temas/questões que foram propostos nesta iniciativa da UNESCO: tema 1 “O nosso mundo em mudança: Como vê o futuro? Quando se pensa em 2050...”; tema 2 “Propósitos gerais da educação. Tendo em consideração as visões de 2050 que acabam de ser descritas…”; e tema 3 “Implicações para a aprendizagem. Tendo em consideração as visões de 2050 e os objetivos coletivos de educação que acabam de ser descritos...".

A reflexão sobre o mundo e a educação em 2050 encontra-se fortemente influenciada pela conjuntura criada pelo fenómeno da pandemia COVID-19, em 2020, condicionando, em grande medida, as perspetivas que desenhamos para um futuro que já não podemos considerar como muito longínquo.

Sobre o primeiro tema, as mudanças aceleradas por que passam as nossas sociedades, agora a viver uma conjuntura marcada por uma pandemia, são geradoras de esperanças e de preocupações.

Os horizontes da esperança resultam dos movimentos de reflexão e debate que, de forma transversal, se generalizam na sociedade, promovendo a tomada de consciência sobre as questões políticas, económicas, socioculturais e ambientais que mais têm afetado a integração social, a valorização da diversidade cultural e o reforço da justiça social. Esta tomada de consciência pode contribuir para a criação de uma oportunidade de regeneração alicerçada a nível individual e coletivo: individual, com a promoção de valores como a generosidade e a solidariedade, e o desenvolvimento de competências nas áreas da criatividade, resiliência e flexibilidade; coletivo, com a intensificação das redes interpessoais e sociais, reinventando formas de governo mais justas, equitativas e sustentáveis, e reconfigurando formas de viver. Trata-se do renovar da esperança em torno da possibilidade de se estabelecer uma relação dos seres humanos com a natureza e pensar na sustentabilidade do planeta, embora se reconheça que tal só será possível se for equacionado o sistema económico capitalista.

As preocupações, a nível individual, centram-se numa perspetiva de futuro que prevê o agravar das situações de isolamento da vida individual/social de cada ser humano, reduzindo-se progressivamente os laços de solidariedade e de empatia. Numa escala social mais alargada, não pode ser ignorada a conjuntura política, económica, social e cultural que atravessamos, marcada pelos discursos extremistas e fundamentalistas e pelo espaço que vão ganhando os movimentos de extrema direita populista e fascista, nas sociedades europeias e um pouco por todo o mundo. Estas preocupações assumem uma nova dimensão com a perceção de que nas nossas sociedades (i) se vão instalando formas de manipulação, beneficiando de um espírito crítico pouco desenvolvido entre os cidadãos e cidadãs; (ii) se acentua a diluição da nossa memória coletiva, fundamental para a permanente (re)construção das nossas identidades; (iii) se evidencia uma incompatibilidade entre o modelo económico dominante e a capacidade de oferecer mais sustentabilidade ao planeta em que vivemos.

Em relação ao segundo tema, mais dirigido para o que se espera da educação e da escola em 2050, os dois grupos de reflexão desenvolveram ideias que se complementam de forma coerente, numa perspetiva que assume como eixo central a promoção de valores humanos e sociais que garantam uma educação para a justiça social, entre o local e o global.

Algumas preocupações foram evidenciadas, nomeadamente quanto à capacidade dos diferentes sistemas educativos acompanharem os processos de acelerada mudança social, científica e tecnológica, mas de forma universal e inclusiva, devendo, para isso, valorizar as diferenças culturais e os vários domínios do saber. Por outro lado, teme-se que corramos o risco de perpetuar sistemas de ensino que privilegiam um saber reprodutivo e acrítico, em detrimento de uma educação virada para o desenvolvimento de competências orientadas para o pensamento crítico, a pesquisa e a investigação, e para a criatividade. A reflexão estendeu-se ainda aos perigos, que no ano de 2020 se tornaram mais evidentes, de acentuação das desigualdades sociais face às dificuldades que muitos experimentaram no acesso às novas tecnologias de informação e comunicação. Finalmente, foram ponderados os riscos que as sociedades enfrentam face a decisões políticas que se aproveitam da atual conjuntura para instalar mecanismos de hipervigilância dos indivíduos, pondo em causa direitos individuais e coletivos, muitas vezes atropelando o normativo constitucional.

Não obstante estas dúvidas e preocupações, os grupos de trabalho delinearam os caminhos que gostariam de ver trilhados até 2050 na área da educação e da escola, a fim de se definirem objetivos prioritários que permitam reforçar a luta pelos direitos humanos e contribuir para a construção de sociedades mais justas e solidárias.

Assim, foi definido um conjunto de objetivos gerais a alcançar em meados deste primeiro século do terceiro milénio:

  • reforçar a capacitação para “aprender a conhecer”, “aprender a fazer”, “aprender a ser” e “aprender a viver juntos”;
  • garantir que a educação é concebida numa lógica de aprendizagem ao longo da vida;
  • promover a abertura da escola à comunidade, reforçando as interações entre o local e o global;
  • conceber uma educação democrática, participativa e inclusiva, que contribua para uma formação cidadã que assuma a construção de sociedades mais justas, equitativas e sustentáveis;
  • adotar formas de ensinar e aprender baseadas em valores de cooperação, partilha de saberes e vivências, reconfigurando o papel tradicional de professores e professoras na sala de aula e na escola;
  • perspetivar uma educação que reconheça o planeta como uma casa universal, que se quer socialmente justa e sustentável;
  • centrar o ensino e a aprendizagem em torno de uma cidadania global, capacitando para o pensamento crítico, para a participação ativa na comunidade considerada nas interinfluências em diferentes escalas e para a intervenção em processos de transformação social.

No terceiro tema, sobre as implicações que estes objetivos poderiam desencadear nos processos de aprendizagem, os grupos de reflexão centraram-se na necessidade emergente em reajustar os modelos, os conteúdos, as formas e os espaços de aprendizagem atualmente predominantes.

Em ambos os grupos de reflexão foi reconhecida a importância de valorizar o conhecimento comunitário nos conteúdos de aprendizagem, ou seja, os conhecimentos produzidos com e para a comunidade de modo a valorizar e a incitar a memória coletiva. No entanto, os conteúdos de aprendizagem não se podem encerrar apenas sobre as experiências, os interesses e os sonhos das comunidades e devem ir simultaneamente ao encontro de conteúdos globais enquanto estes se mostram atuais, pertinentes e relevantes para a reflexão. Procura-se assim, a partir de uma dimensão local, educar para a uma cidadania global, tendo sempre como base a transversalidade da ética do cuidado 9. Para a construção de um modelo curricular que almeja um equilíbrio no diálogo positivo entre os conteúdos e as competências desenvolvidas nos diferentes domínios de saberes – saber-saber; saber-fazer e saber-ser –, torna-se imprescindível adotar uma perspetiva colaborativa na construção de conhecimento, onde todos os diferentes perfis da comunidade educativa, essencialmente dos/as estudantes, assumem um papel mais ativo, crítico e participativo na co-construção do mesmo.

A comunidade educativa assumirá, em 2050, uma influência no romper da homogeneização que dominou o ensino nas últimas décadas, provocando também significativas alterações nas metodologias de aprendizagem. Através de um envolvimento de perfis mais diversos de agentes nos processos educativos, as responsabilidades dos professores e professoras reconfigurar-se-ão, passando a assumir um papel de orientação e facilitação de metodologias de aprendizagens, dando espaço aos/às estudantes para que sejam eles/as também responsáveis pela própria construção do seu percurso de aprendizagem. Em 2050, as metodologias de aprendizagem serão mais diversas, flexíveis e inovadoras pois implicarão, para além de uma educação formal, uma maior valorização da educação não-formal, de espaços virtuais e de projetos multidisciplinares, o que permitirá uma maior democratização na aprendizagem e no sistema educativo. De forma a acompanhar as mudanças dos conteúdos e das metodologias de aprendizagem, torna-se essencial repensar e reajustar os processos de avaliação que deverão ir ao encontro das aprendizagens e não meramente dos conteúdos implicados.

Assumindo-se uma relação mais próxima entre a Comunidade e a Escola e reconhecendo-se uma aprendizagem ao longo da vida, torna-se necessário redefinir os espaços de aprendizagem. Em 2050, iniciativas educativas como as Comunidades de Aprendizagem 10 permitirão, para além de uma maior horizontalidade nas relações e na partilha de responsabilidades dentro do sistema educativo, a descentralização e desmaterialização da existência de locais específicos de aprendizagem, contribuindo assim para a construção de uma visão holística sobre a educação e sobre a necessária diversidade de protagonistas, conteúdos, metodologias, espaços e tempos educativos.

 

Aprendizagens colaborativas criadas a partir deste processo de discussão e participação

Partindo do trabalho colaborativo desenvolvido entre membros da Comunidade Sinergias ED, que resultou na produção de um plano de sessão, foram propostos e desenvolvidos mais dois grupos de discussão em contexto académico. Nestes grupos, as moderadoras envolvidas ajustaram o plano de sessão à(s) realidade(s) específica(s), trabalhando a partir daí.

A existência deste plano de sessão criado e trabalhado de forma colaborativa foi, inequivocamente, o fator que permitiu que estes grupos fossem criados, pelo sentimento de confiança que gerou entre as moderadoras. Tendo as sessões decorrido em julho, altura de final de semestre com todo o esforço centrado nas avaliações finais, a existência de um plano de sessão desenhado colaborativamente, que por um lado respondia ao que era recomendado pela UNESCO mas que, por outro lado, permitia uma boa estrutura de sessão, com clara definição de tarefas e de tempos e já adaptado a uma sessão não-presencial, foi sem dúvida o elemento gerador da possibilidade de criação de novos grupos de discussão.

Um primeiro grupo foi formado com elementos do conselho pedagógico de uma instituição de ensino superior com interesse e/ou disponibilidade para o colocar em prática. Esse facto permite vincular a ideia de um conselho pedagógico como órgão que, para além do seu caráter consultivo e das reuniões agendadas, se encontra para refletir sobre questões diretamente inerentes à Instituição e em que os membros estão sensibilizados/as para a possibilidade de intervir ativamente na instituição pensando e dialogando sobre temas de interesse comum. Deste trabalho colaborativo resultou também uma comunicação em congresso. O grupo constituiu-se com três moderadoras e cinco participantes, entre os quais uma aluna, tendo as moderadoras recolhido o conjunto de contributos deixados, mas ficando em segundo plano, orientando e redirecionando a conversa, de forma pouco invasiva, como recomendado pela UNESCO.

Contando com três moderadoras, o segundo grupo reuniu 6 estudantes de ensino superior de duas instituições diferentes, tendo em comum o facto de as suas formações serem todas na área de Ambiente/Engenharia do Ambiente (CTeSP 11-1, Licenciatura-4 e Mestrado-1). Este encontro foi marcado pela participação conjunta de docentes e participantes, por se considerar que a partilha dos diferentes pensares, saberes e sentires enriquece a discussão e contribui para uma maior horizontalidade na relação entre diferentes atores.

Realça-se a importância de se terem realizado estes dois momentos não esperados, com o principal objetivo de contribuir para a discussão coletiva em torno do eixo “Educação em 2050”, que refletem motivação para a ação, responsabilidade e sentido crítico. Representam, sobretudo, a intenção de mobilizar saberes e formas de estar e de pensar na compreensão da realidade e na abordagem às temáticas do quotidiano, não pela produção de respostas rápidas e fáceis, mas pelo pensar coletivo a partir do questionamento proposto.

 

Notas conclusivas

O desafio lançado pela UNESCO em setembro de 2019, sob o lema “Futuros da Educação: Aprender a Transformar-se”, tendo por finalidade generalizar uma reflexão sobre os futuros possíveis para a Educação em 2050, revela a importância de que se revestem estas iniciativas que, numa escala mundial, ajudam a promover espaços de diálogo e reflexão em torno de problemáticas que nos afetam à escala local e nacional.

A iniciativa de, no âmbito da Comunidade Sinergias ED, se responder ao desafio da UNESCO, abriu a porta para que se desencadeasse uma dinâmica muito positiva, que nos permitiu identificar algumas das fraquezas do sistema educativo em Portugal. Foi possível ir ainda mais longe e os grupos de trabalho envolvidos nesta experiência colaborativa e reflexiva identificaram também soluções e apontaram caminhos possíveis para que se iniciassem ou dessem continuidade a movimentos de mudança, não obstante as limitações do contexto atual. Uma nota ficou clara: a necessidade de uma contínua valorização da Educação para a Cidadania Global, enquanto perspetiva que contribui para a formação de cidadãos e cidadãs portadoras de um pensamento crítico e motivadas para a participação em processos de transformação social.

Finalmente, uma última reflexão deve ser sublinhada, isto é, a importância de promover estes momentos de partilha e de reflexão, envolvendo docentes de vários níveis de ensino e membros da sociedade civil, demonstrando a necessidade de alargar este debate, dentro da escola e fora dela, reforçando as pontes entre a sala de aula e as comunidades que a envolvem, dela fazendo parte.

 


[1] Escola Superior de Educação do Politécnico de Lisboa.

[2] Instituto Politécnico de Beja & MARE.Nova - Centro de Ciências do Mar e do Ambiente.

[3] Centro de Estudos Africanos da Universidade do Porto (CEAUP) e membro da equipa do projeto Sinergias ED.

[4] FGS e membro da equipa do projeto Sinergias ED.

[5] Saiba mais sobre esta iniciativa em https://es.unesco.org/futuresofeducation/la-iniciativa.

[6] Enquanto entidade promotora de políticas mundiais, a UNESCO foi produzindo vários documentos-chave na área da Educação ao longo de várias décadas, tais como “Aprender a ser: a Educação do futuro”, em 1972, de Edgar Faure; “Educação: Um tesouro a descobrir”, em 1996, de Jacques Delors; e “Os sete saberes necessários à educação do futuro”, em 1999, de Edgar Morin. A iniciativa “Futuros da Educação” enquadra-se nesta tradição e tem como objetivo final a produção de um novo relatório que nos ajude a repensar as políticas da educação até 2050.

[7] A Comunidade Sinergias ED é uma comunidade de ativistas e profissionais da academia e da sociedade civil com intervenção na área da Educação para o Desenvolvimento e Cidadania Global/Educação Transformadora em Portugal. Nasceu no âmbito do projeto Sinergias ED e leva a cabo várias atividades.

[8] Aceda aos relatórios dos grupos de discussão em http://www.sinergiased.org/index.php/biblioteca/sinergias-das-2-as-3.

[9] O conceito de ética do cuidado, da autoria de Carol Gilligan, defende a existência de uma ética que, indo além do enfoque sobre a justiça dos atos e do carácter de quem age, centra a sua atenção na criação de relações positivas de cuidado entre pessoas, assumindo que todas as pessoas são sujeitos morais capazes de cuidar. Este conceito é utilizado, hoje em dia, numa perspetiva de ecologia integral por pensadores como Leonardo Boff que vêem a ética do cuidado extensível a todo o tipo de relações, nomeadamente as que se estabelecem com o planeta.

[10] O educador José Pacheco defende que as Comunidades de Aprendizagem são “práxis comunitárias baseadas em um modelo educacional gerador de desenvolvimento sustentável. É a expansão da prática educacional de uma instituição escolar para além de seus muros, envolvendo ativamente a comunidade na consolidação de uma sociedade participativa.” Defende ainda que esta comunidade de aprendizagens pode assumir uma dimensão territorial ou virtual.

[11] Curso Técnico Superior Profissional.