Vanusa Paiva de Lima[1]Fisioterapeuta. Pós-graduada em Educação em Valores Humanos – UNIBEM Faculdades Integradas Espírita. Curitiba/Paraná/Brasil. Participação no Núcleo de Estudos de Pedagogia Social – … Continue a ler

Resumo:

A Educação em Valores Humanos alcança singularmente os indivíduos à medida que os aproxima de uma maneira mais afetiva, ética e solidária. Segundo Martinelli (1996) a EVH tem como proposta a edificação do caráter dos indivíduos continuadamente ao longo da vida através de reflexões críticas, estudos, vivências, principalmente para: o aprender a ser e o aprender a conviver. Com efeito, conhecer e conhecer-se ampliam significativamente os horizontes dos saberes possibilitando a melhoria no processo da aprendizagem e as transformações sociais que dela decorrem. O ensaio visual proposto “Valores na Escola” apresenta uma alternativa, transdisciplinar e cidadã, onde a utilização de técnicas específicas: harmonização integrativa, contações de histórias, citações reflexivas, atividades de musicalização e dinâmicas de grupo favorecem os desenvolvimentos individual e coletivo no sentido de equidade, cultura de paz e não violência. A experiência socioeducativa, aconteceu com alunos/as de 06 a 11 anos de idade, matriculados na Creche Escola “Adolfo Bezerra de Menezes”, localizada na comunidade de Maçaranduba, zona rural do município de São Gonçalo do Amarante, Rio Grande do Norte, Brasil, nos anos de 2015 a 2017. Possibilidades emancipatórias de ressignificar a educação pela e para a paz foram constatadas em ações concretas de transformação humana e social.

Introdução

O trabalho Afetos em Educação tem o seu cerne na emancipação dos indivíduos através do desenvolvimento de suas faculdades intelecto-afetivo com o foco no aprender a ser e no aprender a conviver. Reeducar pela paz e para a transformação social envolve a ética do cuidado, consigo, com o outro, com o planeta; em uma atenção plena à qualidade das relações humanas e das aprendizagens colaborativas.

O avanço da tecnociência trouxe descompassos inerentes às tensões socioeconômicas vigentes por exacerbar o individualismo, a intolerância, a animosidade, a incompreensão que desorganizam os processos da comunicação e de interação entre os indivíduos, grupos e instituições na sociedade contemporânea. Com efeito, observou-se a negligência do humano em detrimento da economia e da tecnologia; comprometendo a construção de laços afetivos e vínculos solidários ao longo da vida que são essenciais para o desenvolvimento integral dos seres humanos e a sustentabilidade planetária.

Pensar em desenvolver-se é alcançar possibilidades de conhecimentos, e de autoconhecimento capazes de resgatar o afetivo, as capacidades criativas, as potencialidades latentes dos indivíduos para restaurar a dignidade humana na alegria em aprender a SER cidadã(o) do Universo. Com efeito Batalosso (2012) corrobora essa questão com o seguinte:

A aprendizagem e o ensino da condição humana se caracterizam por um amplo e interminável processo do desenvolvimento da consciência, da sensibilidade e da atenção que integra as dimensões corporais, emocionais, afetivas, éticas, estéticas, espirituais, e sociopolíticas que, geralmente, tem sido ignoradas ou marginalizadas (pp.155-156).

Nesse cenário plural e complexo, o conhecimento e a prática dos valores humanos na comunidade escolar torna-se um contributo relevante por reunir oportunidades de aprendizagens individual e coletiva que cooperam para a formação do caráter/personalidade. Segundo Martinelli (1996) a unidade entre pensamentos, sentimentos, palavras e ações constitui o caráter, que se desenvolve na medida em que se busca um eu coerente, mais atento a si e aos outros, as comunicações, relações e aprendizagens.

Os valores humanos são os fundamentos morais e espirituais da consciência humana, conceitua Martinelli (idem); com efeito, a atenção aos bons valores inerentes ao humano como: o amor, a verdade, a paz, ação correta e a não violência, religa saberes e afetos em uma educação solidária para a (trans)formação humana e social, local e global, simultaneamente.

A educação em valores humanos cria condições através da mobilização de pensamentos, sentimentos, sensações, intuições para que a bondade, a generosidade, o altruísmo, a compreensão da natureza humana se manifestem, do interior do ser para o exterior (social), na medida em que espaços dialógicos de acolhimento e de pertença são construídos e mediados com amor – fundamento do social (Maturana, 1996) – e intencionalidade pedagógica.

O ensaio visual VALORES NA ESCOLA retrata uma práxis socioeducativa realizada na Creche Escola “Adolfo Bezerra de Menezes” – localizada na comunidade de Maçaranduba, zona rural do município de São Gonçalo do Amarante, Rio Grande do Norte, Brasil – no período de 2015 a 2017 com os alunos na faixa etária de 06 a 16 anos. Nessa experiência de educação formal e não formal, buscou-se observar o impacto do conhecimento e da prática dos valores humanos como instrumentos de harmonia pessoal, qualidade das relações e aprendizagens na co-construção da paz para a cidadania planetária.

Aproximar e religar os saberes acadêmicos, da vida prática, da ética e estética na multidimensionalidade humana é reconhecer a necessidade de valorização dos mesmos para a realização de ações verdadeiramente emancipatórias e pacificadoras pela regeneração civilizacional. Partindo do reconhecimento da educação como um tesouro a descobrir indispensável ao progresso da humanidade em ideais da paz, da liberdade e da justiça social (Delors, 2010) surge a seguinte indagação:

– Qual a relevância da educação em valores humanos para o Desenvolvimento e a construção da paz?

Por caminhos metodológicos

Uma visão mais ampla que possa compreender e relacionar os fatos humanos se faz necessária para além do puramente epistemológico, entendido como a construção lógica ou exclusivamente cognitiva, mas também e, especialmente, que um novo olhar desponte na presença dos afetos englobando sentimentos, cuidado, empatia, sensibilidade como possibilidades de aceder ao conhecimento vivo que procede da experiência e promove à descoberta e integração dos diferentes níveis de realidade: teórico, prático, existencial e poético (Batalloso, 2012).

As técnicas aplicadas na vivência dos valores humanos nutriram-se da transdisciplinaridade, proposta por Moraes (2015)

…como metodologia aberta de construção do conhecimento que compreende e valoriza a diversidade humana, as relações culturais; a religação consigo mesmo, com o outro e com a natureza quando se parte do desenvolvimento de uma consciência menos fragmentada, mais solidária, fraterna, socialmente responsável e vitalmente mais comprometida (pp.30-32).

Em dois contextos foi realizada a vivência dos valores humanos na escola. No contexto formal de sala de aula integrado a estrutura curricular e também no contexto não formal como mediação – intervenção educativa e potencial positivo nas relações para a intercompreensão – em um processo cooperativo e mesmo preventivo no domínio da cultura de cidadania e educação para a paz (Silva, 2010).

De acordo com Damásio (2006) a literácia visual estabelece o princípio de que as imagens podem ser lidas e reprodutoras de um sentido para ser comunicado e distribuído. Assim, a leitura visual promove perspectivas mais amplas como um constituinte das práticas sociais do sujeito.

Imagine a peace é produzir caminhos solidários de esperança e Desenvolvimento a ressignificar os horizontes da Educação. Elucida Montessori (2004) “que a primeira verdadeira linha de defesa contra guerra é o próprio homem” (p.22). Com efeito, é essencial “rejeitar toda a educação que embrutece e atrofia os valores humanos, que transforma o ser humano em mais uma engrenagem da máquina social, que reprime e impõe limites à inteligência” (Pimenta, 2018, p.85). A práxis Valores na Escola promove o conhecimento e o desenvolvimento das boas e naturais qualidades humanas em identificação com o legado de Rousseau.

Afetos e a Paz


Fotografia 1 – Dra. Mércia Carvalho (in memoriam) – Fundadora e Diretora da Creche Escola “Adolfo Bezerra de Menezes” por 37 anos, com os alunos no dia da formatura dos doutores do ABC.
Fonte: Acervo da Creche Escola “Adolfo Bezerra de Menezes” (2015)

A – Contexto formal: cinco técnicas dos valores humanos


Fotografias 2,3,4,5 – Exercícios: cheirar a rosa (inspiração); apagar a vela (expiração).
Fonte: Acervo da autora atualizado (2022).

  1. Harmonização – Valor Humano: Calma – Educando a Respiração


Fotografias 6,7 – Respiração e relaxamento corporal: Elevação da cabeça (extensão da coluna cervical) faz a inspiração. Abaixamento da cabeça (flexão da coluna cervical) faz a expiração.
Fonte: Acervo da autora atualizado (2022).

  1. Contação de histórias – Valor Humano: Responsabilidade


Fotografias 8,9,10,11– A semente do amor – História sobre a fundação da creche/ escola “Adolfo Bezerra de Menezes”.
Fonte: Acervo da autora atualizado (2022).

  1. Canto em grupo – Valor Humano: Compreensão


Fotografias 12,13,14,15,16,17– Música “Cativar é Amar”.
Fonte: Acervo da autora atualizado (2022).

  1. Citações – Valor Humano: Honestidade


Fotografias 18,19,20,21,22,23 – Regra de Ouro.
Fonte: Acervo da autora atualizado (2022).

  1. Dinâmica de Grupo – Valor Humano: Respeito


Fotografias 24,25,26,27,28,29 – Bingo dos Valores – Respeito pelas diferenças, pelo planeta, pelas escolhas, pelas vidas.
Fonte: Acervo da autora atualizado (2022).

B – Contexto não formal – Mediação socioeducativa produtora de sentido(s). Realizada na FPCEUP.


Fotonovela Valores na Escola realizada para créditos das unidades curriculares: Laboratório Multimédia e Educação. SIMF: Contextos de Trabalho em Educação e Mediação. (FPCEUP – 2018/2019).

 

A mediação socioeducativa acima ilustrada tem em Silva (2010) a seguinte reflexão:

A mediação constitui-se como uma ação múltipla com potencialidades (trans)formadoras, cujo objetivo forma para a responsabilidade e cooperação, a partir da elevação da auto-estima e da autonomia. Esta formação não se pode reduzir a uma estrita intervenção curativa, de reposição da ordem ou reestabelecimento da comunicação, mas deve assentar na finalidade de uma educação para os valores, ou como define Charney (1993), num ‘currículo para a literácia ética’ do qual se ensine e se aprenda a dar e a receber atenção e a cuidar e cooperar com os outros. Com efeito, para além da transmissão cultural do conhecimento, a escola em sua função educativa deve assumir o desenvolvimento de capacidades e competências essenciais para a participação responsável dos novos cidadãos (p.257).

Na vivência escolar criaram-se possibilidades de acolhimento e sentimento de pertença aos alunos em conflito. Em um ambiente natural, recursos como música, escuta ativa e estímulos a reflexão oportunizaram atenção e cooperação favorecendo a comunicação, a interação e a intercompreensão. De acordo Mello (1999) “a mediação permeada pela Transdisciplinaridade enquanto lógica do terceiro incluído e níveis de Realidade remetem à ideia do mediador como um transmissor de sensação, de sentimento, de direção, e de sentido”. (p.2).

Conclusão

Para Morin (2011) novas práticas pedagógicas são necessárias para que os indivíduos possam enfrentar as mais variadas crises sociais, econômicas, políticas, ambientais que colocam em risco a sustentabilidade planetária. Uma educação que se volte para a condição humana no desenvolvimento da compreensão, da sensibilidade, da ética na diversidade cultural, na pluralidade de indivíduos para ser transformadora.

A proposta Afetos em Educação coopera para a religação de saberes e aprendizagens através de vivências dos valores humanos, onde a atenção, o cuidado, a empatia se constituem fundamentais para o desenvolvimento humano integral e sustentável. No aprender a ser buscou-se o conhecimento de si mesmo (pensamentos, sentimentos, palavras e atitudes), no cultivo das boas qualidades da natureza humana, desenvolvendo a compreensão do outro e a percepção das interdependências para a sinergia entre o saber e o ser contribuindo na formação do caráter.

De acordo com Batalosso (2012) os problemas mais importantes da vida, da humanidade, do planeta e das pessoas, como sujeitos individuais e coletivos são sempre globais, contextuais e relacionais; sendo necessário reunir estratégias, procedimentos e métodos que desenvolvam no indivíduo a capacidade de ser coerente, harmônico, autêntico.

O aprender a conviver pela experiência dos valores humanos no ensaio visual, trouxe um desafio que é o da unidade entre o pensar, o sentir, o falar e o agir de maneira integrada e coerente para a maturação contínua da personalidade em uma aprendizagem ativa de cidadania e cultura de paz.

Duas coisas são necessárias para a paz no mundo, elucida Montessori (2004), “em primeiro lugar, um homem novo, o surgimento de um homem melhor, e depois a construção de um ambiente que não deve fixar os limites às aspirações infinitas do homem” (p.41). Um mundo novo para um homem novo; será uma utopia?

Empiricamente, a proposta socioeducativa Afetos em Educação apresentou possibilidades de ressignificar o ensino-aprendizagem, com verdade, beleza e bondade, reunindo múltiplos saberes em uma teia de valores universais expressando o que podemos fazer pela paz, para (trans)formação humana e social.

O nome real de uma educação transformadora é que ela seja humanizadora. Será então libertadora na medida em que sempre aciona, acompanha e desafia o aprendizado da condição humana (…). A condição humana refere-se insuperavelmente ao amor, que é por ele e com ele que nos tornamos humanos (Alejandro Cussianovich, 2007).


Fotografia 30 – Formatura dos Doutores do ABC – Creche Escola “Adolfo Bezerra de Menezes”.
Fonte: Acervo da Creche Escola ABM (2015).

Referências

  • Batalosso, J. M. (2012). Educação e condição humana. In Moraes, M. C., Almeida, M. C. (Coords). Os sete saberes necessários à educação do presente – por uma educação transformadora. (149-180). Rio de Janeiro: Wak Editora.
  • Cussianovich, A. Aprender la condición humana. Ensayo sobre pedagogía de la ternura. Lima (Peru), 2007. In Moraes, M. C., Almeida, M. C. (Coords). Os sete saberes necessários à educação do presente – por uma educação transformadora. (149-180). Rio de Janeiro: Wak Editora.
  • Damásio, Manuel José et al. (2006). A construção da percepção em imagem digital e o desenvolvimento de novas formas de literácia visual.
    https://pt.scribd.com/document/263110021/A-construcao-da-percepcao-em-imagem-digital-pdf.
  • Delors, J. (2010). A educação ou a utopia necessária. In Delors et al. Educação um tesouro a descobrir.
    https://unesdoc.unesco.org/ark:/48223/pf0000109590_por/PDF/109590por.pdf.multi.
  • Martinelli, M. (1996). Aulas de transformação – o programa de educação em valores humanos. São Paulo: Peirópolis.
  • Maturana, H. R. (1996). El sentido de lo humano. In Moraes, M. C., Almeida, M. C. (Coords). Os sete saberes necessários à educação do presente – por uma educação transformadora. (149-180). Rio de Janeiro: Wak Editora.
  • Mello, Maria F (1999). Mediação permeada pela transdisciplinaridade. Retirado em Fevereiro 01, 2019 de http://cetrans.com.br/assets/textos/mediacao-permeada-pela-transd.pdf.
  • Morin, E. (2011). Os sete saberes necessários a educação do futuro. São Paulo: Cortez Editora.
  • Montessori, M. (2004). A educação e a paz (Sonia Alvarenga Braga, Trad.) Campinas, SP: Papirus.
  • Moraes, M. C. (2015). Transdisciplinaridade, criatividade e educação: Fundamentos ontológicos e epistemológicos. São Paulo: Papirus.
  • Pimenta, J. S. (2108). Educação para a paz. Construir o mundo que se espera. Educação, Sociedade & Culturas, 53, 83-96.
  • Silva, Ana et al (2010). Novos actores no trabalho em educação: os mediadores socioeducativos. Revista Portuguesa de Educação 23(2), 119-151.

References
1 Fisioterapeuta. Pós-graduada em Educação em Valores Humanos – UNIBEM Faculdades Integradas Espírita. Curitiba/Paraná/Brasil. Participação no Núcleo de Estudos de Pedagogia Social – NEPS – Universidade Federal do Paraná UFPR. Curitiba/Paraná/Brasil. Educadora em Valores Humanos na Creche Escola “Adolfo Bezerra de Menezes” São Gonçalo do Amarante/Rio Grande do Norte/Brasil. Curso em andamento de Licenciatura em Ciências da Educação com participação no Projeto de Iniciação Científica de Educação para a Cidadania Global – FPCEUP.

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