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Número 5 - Junho de 2017

 

Revista nº 5 - Cooperação e Educação para o Desenvolvimento: fronteiras certas e incertas

 

Editorial

Os caminhos da Educação para o Desenvolvimento (ED) estão umbilicalmente ligados à Cooperação para o Desenvolvimento, independentemente dos seus diferentes entendimentos, abordagens e práticas. Foi dentro desta última e quase sempre com atores a ela ligados que a ED nasceu e foi crescendo. Como em todas as relações umbilicais, as fronteiras, influências, interligações, complementaridades e pontos de rutura não são claras nem, muitas vezes, óbvias; bem pelo contrário. De um tempo original onde a ED “servia” declaradamente os interesses da Cooperação, sendo uma ferramenta de sensibilização e congregação de apoios para esta, vivemos hoje um outro tempo onde a ED construiu uma identidade própria, autonomizando-se em relação à Cooperação e aproximando-se de outras “educações” com vista à transformação social – isto sem que, necessariamente, tenha desaparecido a sua praxis original, percetível em muitas das abordagens políticas (quando, por exemplo, as mesmas são lideradas pelos ministérios e departamentos ligados ao ”mundo” da Cooperação para o Desenvolvimento) e em algumas das visões e práticas das instituições que trabalham em ED.

Ao mesmo tempo, o questionamento da capacidade e vontade de transformação social da Cooperação para o Desenvolvimento tem crescido, empurrado, quer por um tempo maior de prática que permite aferir, de forma mais real, os impactos de médio e longo prazo nas comunidades, nos países e nas regiões onde os atores da Cooperação têm desenvolvido o seu trabalho, como pelo evoluir da situação global desde o início deste século, nomeadamente o crescimento das desigualdades, dos conflitos, da degradação ambiental e das migrações forçadas.

A ED não tem ficado de fora deste crescente questionamento, cumprindo a sua missão de (auto)reflexividade crítica. Esta postura matricial não tem deixado de colocar a ED, por vezes, em campos percebidos como opostos para alguns dos atores da Cooperação, origem de incompreensões e afastamentos mútuos.

Por tudo isto, e estando a revista Sinergias também ela umbilicalmente ligada ao mundo da ED – logo, igualmente, da Cooperação – quer pelo projeto, quer pelas organizações que a originaram, dinamizam e sustentam, nesta 5ª edição pretendemos contribuir para a reflexão, diálogo, aprofundamento e encontro entre estes dois “mundos”, simultaneamente tão próximos e tão distantes.

Com este objetivo, o dossier temático deste número apresenta três artigos muito diferenciados na sua origem, língua e aproximação à matéria. O artigo de Sérgio Belda e Alejandra Boni parte de um estudo de caso sobre organizações do Estado Espanhol que mantiveram relações solidárias com organizações colombianas, para nos colocar uma muito interessante proposta de pensar a Cooperação Internacional como um espaço para desenvolver processos de Educação para a Cidadania Global Radical, (re)politizando-a em ordem a recuperar a sua agenda e o seu potencial transformador. David Sogge escreve-nos um artigo contundente, revelando-nos as “verdades inconvenientes” da Ajuda Externa para o Desenvolvimento a partir do questionamento do seu contínuo crescimento – um “sucesso”, – independentemente dos seus “falhanços” ao nível dos processos e resultados. O autor coloca em causa as reais agendas dos principais promotores desta “indústria”, ao mesmo tempo que alerta os “educadores globais e outros promotores da cidadania global” para o seu papel face a esta realidade. Por fim, Vanessa Andreotti, Renato Pereira e Eliana Edmundo centram o seu artigo na educação e nos pré-requisitos necessários para que esta possa desvendar e contrariar antigos e novos discursos alimentadores do atual “imaginário global dominante” que produz a ideia de um mundo dividido entre um “Norte” avançado e um “Sul” atrasado. O artigo termina com a proposta de um interessante exercício de autorreflexão para todos os educadores e educadoras interessados em percorrer “um outro caminhar”.

O dossier temático apresenta ainda duas entrevistas de diferentes personalidades do mundo do Desenvolvimento; diferentes, quer em termos de geografia, quer em termos de posicionamento institucional. Augusta Henriques, fundadora da ONG guineense Tiniguena apresenta-nos o percurso da ED nesta organização, desde a sua fundação, em 1991, e da sua constante interação com a Cooperação. Samuel Poos, coordenador do Trade for Development Center da Agência Belga de Desenvolvimento, fala-nos da intervenção da sua instituição, que articula diferentes dimensões que interligam, no âmbito do Comércio Justo, Cooperação, Sensibilização e Influência Política.

Ainda relacionado com o tema principal deste número, inaugura-se também nesta edição uma nova rubrica – Debate – onde Helmuth Hartmeyer, até há pouco tempo Presidente da Direção do GENE - Global Educational Network Europe, expõe uma leitura crítica do Objetivo de Desenvolvimento Sustentável nº 4, relacionado com a Educação, na perspetiva da ED. A temática central deste número fecha com a recensão, realizada por Rui da Silva, do livro “Global Education Policy and International Development: New Agendas, Issues, and Policies”, organizado por Antoni Verger, Mario Novelli e Hulya Kosar Altinyelken.

De destacar, ainda, o aparecimento neste número da rubrica Outros Diálogos que, estando desligada do tema principal, pretende dar a conhecer artigos relevantes no quadro das finalidades da revista. Inauguram a rubrica Carla Inguaggiato e La Salete Coelho com um artigo que apresenta os principais resultados de um estudo que analisou comparativamente as políticas de implementação da Educação para a Cidadania Global no ensino básico em 10 países europeus, com um enfoque especial no caso português. Margarida Magalhães e Luísa Aires, por seu lado, escrevem sobre os cursos online, oferecidos em contexto multicultural, na área da Educação Global, analisando-os no seu potencial de desenvolvimento de competências interculturais.

Congratulamo-nos, por fim, com o alargamento das línguas de publicação para o francês, aumentando assim o potencial de diálogo entre diferentes linhas de trabalho e investigação, principal razão de ser da nossa revista.

Como é habitual, publicam-se ainda diversos materiais e recursos recentes, bem como resumos de trabalhos académicos considerados relevantes nos domínios da Educação para a Transformação Social.

Esperamos que este número em volta da reflexão, diálogo, aprofundamento e encontro entre Cooperação e Educação para o Desenvolvimento possa ser mais um contributo da revista Sinergias a favor de uma educação e de uma ação transformadoras.

 

 


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Ficha Técnica

Nome da Revista: “Sinergias – diálogos educativos para a transformação social”.

Propriedade: Centro de Estudos Africanos da Universidade do Porto, CIDAC – Centro de Intervenção para o Desenvolvimento Amílcar Cabral e Fundação Gonçalo da Silveira, no âmbito do projeto Sinergias ED: fortalecer a ligação entre investigação e ação na Educação para o Desenvolvimento em Portugal, cofinanciado pelo Camões – Instituto da Cooperação e da Língua, apoiado pela Fundação Calouste Gulbenkian e pela Reitoria da Universidade do Porto.

Periodicidade: Semestral.

Design da capa e execução gráfica:Megaklique.

Edição: Centro de Estudos Africanos da Universidade do Porto, CIDAC – Centro de Intervenção para o Desenvolvimento Amílcar Cabral e Fundação Gonçalo da Silveira.

Conselho Científico: Alejandra Boni (INGENIO-CSIC, Univ. Politècnica de Valencia.ES), Alexandre Furtado (Fundação para a Educação e Desenvolvimento.GB), Ana Isabel Madeira (Inst. Educação-Univ. de Lisboa.PT), Antónia Barreto (Escola Superior de Educação e Ciências Sociais-Inst. Politécnico de Leiria.PT), Cristina Pires Ferreira (Univ. de Cabo Verde.CV), Douglas Bourn (Inst. of Education-Univ. of London.UK), Elizabeth Challinor (Centro em Rede de Invest. em Antropologia-Univ. do Minho.PT), Filipe Martins (Centro Estudos de Desenv. Humano da Univers. Católica Portuguesa; Rede Inducar), Júlio Santos (Inst. Educação-Univ. do Minho e Centro de Estudos Africanos da Univ. Porto.PT), Karen Pashby (Univ. of Alberta.CAN), Liam Wegimont (Global Education Network Europe), Luísa Teotónio Pereira (Centro de Intervenção para o Desenvolvimento Amílcar Cabral.PT), Manuela Mesa (Centro de Educación e Investigación para la Paz.ES), Maria Helena Salema (Inst. Educação-Univ. de Lisboa.PT), Maria José Casa-Nova (Inst. Educação-Univ. do Minho.PT), María Luz Ortega (Univ. Loyola Andalucia.ES), Matt Baillie Smith (Northumbria Univ.UK), Nuno da Silva Gonçalves (Pontificia Univ. Gregoriana.IT), Teresa Toldy (Univ. Fernando Pessoa.PT), Vanessa de Oliveira Andreotti (Univ. of British Columbia.CAN).

Conselho Editorial: Antonio de la Fuente, Hugo Marques, Jorge Cardoso, La Salete Coelho, Luísa Teotónio Pereira, Miguel Silva e Tânia Neves.

Avaliadores do presente número: Ana Isabel Madeira (Inst. Educação-Univ. de Lisboa.PT), Cármen Maciel (ADRA-Portugal), Eleanor Brown (Centre for Education and Social Justice, University of York), Júlio Santos (Inst. Educação-Univ. do Minho e Centro de Estudos Africanos da Univ. Porto.PT), María Luz Ortega (Univ. Loyola Andalucia.ES), Teresa Martins (Escola Superior de Educação-Inst. Politécnico do Porto.PT).

Revisão gráfica e de textos: Anita Cruz, Hugo Marques, Jorge Cardoso, La Salete Coelho, Luísa Teotónio Pereira, Miguel Silva, Sandra Fernandes, Rita Caetano, Rui da Silva e Tânia Neves.

Informações de depósito legal e issn: ISSN 2183-4687

Revista com arbitragem científica: os artigos são da responsabilidade dos seus autores.