HomeRevistaNúmero 3 - Fevereiro 2016

Arquivo

Categorias principais

Número 3 - Fevereiro 2016

Revista 3 - Colaboração entre Ensino Superior e Sociedade Civil: uma visão transformadora

 

Editorial

Depois de dois números da revista Sinergias - Diálogos educativos para a transformação social, nos quais vários artigos foram publicados tendo a Educação para o Desenvolvimento (ED) e a Educação para a Transformação Social (ETS) como chão comum, e nos quais foram refletidos conceitos, rumos e práticas no terreno com a participação de vários intervenientes relevantes a nível nacional e internacional, temos a satisfação de lançar o terceiro número continuando a propor reflexões e a construir pontes, para uma discussão alargada e participada sobre estas temáticas.

Com os dois primeiros números procurou-se uma aproximação gradual entre o trabalho no terreno das práticas da ETS e a comunidade científica nacional e internacional. Essa aproximação ganhou corpo na participação alargada na estruturação e edição da revista, na divulgação de artigos e na reflexão concreta e crítica sobre a relação entre o conhecimento científico e as práticas.

Criada no âmbito do projeto Sinergias ED - Conhecer para melhor agir1, a revista Sinergias pretende ser o veículo primordial desta ligação entre o conhecimento científico e o conhecimento das organizações, dito mais prático. Ao promover e/ou consolidar ligações entre estas duas dimensões, promove-se e consolida-se uma construção diferente de saberes e de processos de trabalho. Mas não só. No processo colaborativo de construção de saberes ligados, amplia-se consideravelmente o campo de ação da própria ED e lançam-se pequenos fios do que pode ser uma teia maior de uma comunidade ligada à Educação para o Desenvolvimento e para a Transformação Social.

O terceiro número da revista Sinergias – Diálogos educativos para a transformação social reflete estas ligações e a vontade de pisar terrenos comuns de um modo ainda pouco experimentado em Portugal. A revista volta-se para o projeto que a fez nascer, refletindo e dando visibilidade a algum do trabalho  feito nestes dois anos, mais concretamente no que diz respeito às parcerias entre Instituições de Ensino Superior (IES) e Organizações da Sociedade Civil (OSC). A falta de ligação entre a investigação e a ação em ED tem sido um dos constrangimentos assinalados pelos relatórios de acompanhamento da Estratégia Nacional de Educação para o Desenvolvimento, limitação essa que julgamos condicionar a quantidade e a qualidade da intervenção da ED em Portugal. O projeto Sinergias ED - Conhecer para melhor agir propôs-se interligar várias competências e conhecimentos dos atores de ED, relacionando a prática com a investigação, numa procura de diálogo horizontal entre estes dois mundos. Desta ligação esperava-se a produção de estudos a serem desenvolvidos por duplas de trabalho onde estariam representadas OSC, detentoras dos casos práticos no terreno, e IES, com maior experiência no desenvolvimento do trabalho de produção científica. Pretendia-se que os resultados e conclusões destes estudos pudessem ser importantes, não apenas como produção científica, mas também como oportunidade de auto-reflexão sobre as práticas, e de consequente aprendizagem, para as duas tipologias de atores envolvidos.

Neste terceiro número da revista Sinergias são, assim, publicados e difundidos seis estudos desenvolvidos colaborativamente entre IES e OSC. Desde o início do projeto Sinergias ED, esta experiência de trabalhos colaborativos tem sido estruturante do próprio projeto, tendo-se constituído enquanto processo de envolvimento com impacto em várias outras atividades e momentos. Os estudos que aqui se apresentam são um dos resultados deste processo de ligação, iniciado em dezembro de 2013 com a identificação e associação ao projeto de um conjunto alargado de OSC e de IES2, e fortalecido com a realização de quatro encontros presenciais e através do acompanhamento por parte da equipa do projeto, numa, nem sempre fácil, gestão da tensão entre o papel de dinamizador/facilitador dos processos conjuntos e a almejada autonomia e capacidade de autoiniciativa das instituições envolvidas.

A complexidade das temáticas abordadas pelos projetos e a reflexão sobre as problemáticas trabalhadas no terreno, aliadas à escassa experiência na colaboração na produção de conhecimento, propõem também uma dimensão reflexiva de como se trabalha e se reflete em conjunto. Os processos colaborativos entre IES e OSC expuseram diferentes ritmos, diferentes saberes e diferentes linguagens. Estas diferenças foram sendo trabalhadas, cada qual no seu próprio processo e de diferentes formas, refletindo o princípio da equidade na produção de saberes, isto é, de que os saberes fundamentados na prática empírica e na investigação científica têm ambos legitimidade e poderão, quando trabalhados dessa forma, produzir saber comum, estruturante para o conhecimento científico. Destes processos de trabalho colaborativo sobressai assim uma diversidade não só de temas, mas também de formas de os pensar e trabalhar. Alguns deles estão ainda no início, outros darão lugar a novos processos, sendo que todos refletem a conjugação entre o saber e o fazer, entre a investigação e a ação, entre os investigadores e os agentes de intervenção no terreno.

Como forma de contextualizar e aprofundar a reflexão à volta destes processos de ligação, Alejandra Boni elaborou um artigo introdutório ao caderno de estudos que aborda os trabalhos colaborativos publicados, relacionando-os com os inúmeros desafios na relação entre IES e OSC no que concerne à Educação para o Desenvolvimento e à Educação para a Transformação Social. Neste artigo são refletidos os processos colaborativos tendo em conta a geração de conhecimento de uma perspetiva transformadora, propondo vários conceitos importantes para esta discussão.

Ainda neste terceiro número da revista Sinergias, a entrevista é dirigida a Liam Wegimont, consultor da Global Education Network (GENE), pela mão de Tânia Neves e Sara Peres Dias. Nela reflete-se sobre o conceito de ED, o seu alcance e os seus atuais desafios. Apresenta ainda a ideia de 'dissensus', relacionando-a com a ED e com a necessidade de uma maior discussão sobre os conceitos, cada vez mais híbridos e complexos. Wegimont partilha também na entrevista a sua perceção sobre a relevância da ligação e trabalho colaborativo entre IES e OSC na melhoria da qualidade da intervenção nesta área.

Em linha com o tema da revista, é publicada a recensão crítica do trabalho Educar para la Ciudadanía Global en el espacio universitário - Buenas prácticas de colaboración entre ONGD y Universidad. Nesta recensão, elaborada por Ana Cano-Rodríguez, são refletidas algumas práticas de Educação para a Cidadania Global nas Universidades, ressaltando a necessidade de reforçar as relações e a formação entre os atores envolvidos: a Universidade e as ONGD.

Na leitura deste número da revista, vai transparecendo a ideia de que a produção de aprendizagens transformadoras e a criação de espaços comuns de conhecimento ligados a essas mesmas aprendizagens, é essencial para a transformação social e a construção de uma cidadania global. Acreditamos que, ao descrever várias formas de colaboração entre ensino superior e sociedade civil, e ao propor diferentes reflexões sobre os processos que lhes estão subjacentes, o conjunto de textos publicados poderá servir como apoio e estímulo para a consolidação de espaços comuns de aprendizagem, colaborativos e sinérgicos, perspetivando a Educação para o Desenvolvimento e a Educação para a Transformação Social como ferramenta essencial na construção de um bem-estar social verdadeiramente global.



[1] Ver mais sobre o projeto aqui

[2] Consultar as IES e OSC a colaborar com o projeto aqui. 

 

 

Ficha Técnica

Nome da Revista: “Sinergias – diálogos educativos para a transformação social”.

Propriedade: Centro de Estudos Africanos da Universidade do Porto e Fundação Gonçalo da Silveira, no âmbito do projeto Sinergias ED: Conhecer para melhor agir – promoção da investigação sobre a ação em ED em Portugal, co-financiado pelo Camões – Instituto da Cooperação e da Língua e apoiado pela Fundação Calouste Gulbenkian e pela Reitoria da Universidade do Porto.

Periodicidade: Semestral.

Design da capa e execução gráfica: Megaklique.

Edição: Fundação Gonçalo da Silveira e Centro de Estudos Africanos da Universidade do Porto.

Conselho Científico: Alejandra Boni (INGENIO-CSIC, Univ. Politècnica de Valencia.ES), Alexandre Furtado (Fundação para a Educação e Desenvolvimento.GB), Ana Isabel Madeira (Inst. Educação-Univ. de Lisboa.PT), Antónia Barreto (Escola Superior de Educação e Ciências Sociais-Inst. Politécnico de Leiria.PT), Cristina Pires Ferreira (Univ. de Cabo Verde.CV), Douglas Bourn (Inst. of Education-Univ. of London.UK), Elizabeth Challinor (Centro em Rede de Invest. em Antropologia-Univ. do Minho.PT), Júlio Santos (Inst. Educação-Univ. do Minho e Centro de Estudos Africanos da Univ. Porto.PT), Karen Pashby (Univ. of Alberta.CAN), Liam Wegimont (Global Education Network Europe), Luísa Teotónio Pereira (Centro de Intervenção para o Desenvolvimento Amílcar Cabral.PT), Manuela Mesa (Centro de Educación e Investigación para la Paz.ES), Maria Helena Salema (Inst. Educação-Univ. de Lisboa.PT), Maria José Casa-Nova (Inst. Educação-Univ. do Minho.PT), María Luz Ortega (Univ. Loyola Andalucia.ES), Matt Baillie Smith (Northumbria Univ.UK), Nuno Gonçalves (Pontificia Univ. Gregoriana.IT), Teresa Toldy (Univ. Fernando Pessoa.PT), Vanessa de Oliveira Andreotti (Univ. of British Columbia.CAN). 

Conselho Editorial: Alejandra Boni, Anita Cruz, Hugo Marques, Jorge Cardoso, La Salete Coelho, Rui da Silva e Tânia Neves.

Avaliadores do presente número: Cármen Maciel (Fac. Ciências Sociais e Humanas-Univ. Nova Lisboa.PT), Rui da Silva (Inst. Educação-Univ. do Minho e Centro de Estudos Africanos da Univ. Porto.PT), Sandra Oliveira (4Change; Centro em Rede de Investigação em Antropologia e Fac. Ciências Sociais e Humanas-Univ. Nova Lisboa.PT), Sara Poças (Fac. Psicologia e Ciências da Educação-Univ. do Porto e  Centro de Estudos Africanos da Univ. do Porto.PT), Teresa Martins (Escola Superior de Educação-Inst. Politécnico do Porto.PT), Vanessa Marcos (Instituto de Sociologia da Faculdade de Letras da Universidade do Porto.PT).

Revisão gráfica e de textos: Anita Cruz, Hugo Marques, Jorge Cardoso, Rui da Silva e Tânia Neves.

Informações de depósito legal e issn: ISSN 2183-4687

Revista com arbitragem científica: os artigos são da responsabilidade dos seus Autores.