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Revista nº 10 - Educação para o Desenvolvimento e para a Cidadania Global na Agenda 2030: Aprendizagens e Desafios para a Colaboração entre Atores (jun 2020)

 

Revista nº 10 - Educação para o Desenvolvimento e para a Cidadania Global na Agenda 2030: Aprendizagens e Desafios para a Colaboração entre Atores

 

Editorial

 

Vivemos em estado de crise. Não nos referimos à atual situação de pandemia em que nos encontramos. Com efeito, democraticamente – isto é, independentemente de características sociais construídas para nos diferenciar, tal como nacionalidade, etnia, profissão, entre tantas outras – estamos unidos e unidas num cenário que emerge do novo coronavírus e da COVID-19, e que nos relega para o confinamento social, para os relacionamentos virtuais, para o teletrabalho (e para o layoff ou mesmo para o desemprego) e para a certeza (se, por desatenção, não a tínhamos) de que o amanhã é incerto. No entanto, embora a pandemia esteja na ordem do dia e seja o tema que promete ocupar os nossos quotidianos nos meses que espreitam (de máscara posta) no horizonte, e embora sejamos globalmente afetados por ela, não o somos justamente. Por outras palavras, a pandemia pode afetar-nos, mas – e à semelhança de qualquer problema social – afeta-nos discriminadamente. Com efeito, aquelas pessoas que já se encontravam mais expostas à pobreza, à fome, à falta de acesso a cuidados de saúde e/ou de educação, à desigualdade, ao desemprego, à guerra e a todos os obstáculos a que os 17 Objetivos do Desenvolvimento Sustentável procuram aludir, são aquelas que estão mais vulneráveis ao vírus e seus potenciais impactos destrutivos. Por esta razão, reiteramos o ponto de partida deste editorial: vivemos em estado de crise.

Importa, portanto, continuar a expor estes e outros fatores estruturais que nos discriminam enquanto seres humanos com direitos básicos de existência e continuar a trazer à discussão um conjunto de práticas que podemos adotar para reduzir os hiatos que nos separam em privilegiados e desfavorecidos, “desenvolvidos” e “em desenvolvimento”, viventes e sobreviventes. É este tipo de reflexão que nos propomos fazer com o presente número da revista Sinergias - Diálogos Educativos para a Transformação Social.

Na secção dos Artigos, o provocador artigo de Momodou Sallah, A scholar-activist’s heretic attempts to “eradicate poverty” from a Southern perspective, through disruptive Global Youth Work, traz-nos uma perspetiva pessoal-profissional sobre dimensões importunas de Global Youth Work que poucas vezes serão abordadas da forma simples, direta e sem artifícios que aqui encontramos. Ao fazer colidir o olhar teórico com a experiência advinda da prática neste campo, o autor arroga a sua posicionalidade e partilha como é possível construir caminhos para se (tentar, continuamente) conciliar academia e ativismo, teoria e prática, becos sem saída e janelas de oportunidade.

Segue-se o artigo de João Chantre e Sara Poças, Geografias ED Braga e Pemba - projeto Salama!, onde nos é apresentado um projeto de cooperação missionária, entre a Igreja e a Sociedade Civil, que, imbuído de uma visão de Educação para o Desenvolvimento, visa contribuir para a concretização da Agenda 2030 em duas geografias distintas.

María Martínez Lirola, no seu artigo Diseño e implementación de actividades enmarcadas en la Educación para la Ciudadanía Global y la Educación para el Desarrollo en la educación superior, partilha uma proposta didática voltada para a promoção da Educação para a Cidadania Global (ECG) e para a Educação para o Desenvolvimento (ED), no quadro dos Objetivos para o Desenvolvimento Sustentável, numa unidade curricular sobre língua inglesa.

Por fim, o artigo Educação para o Desenvolvimento e Cidadania Global: da semântica à pragmática - uma integração no discurso pedagógico, da autoria de Gabriela Barbosa, traz-nos uma inspiradora e pertinente análise sobre a influência que a formação e a participação em projetos de Educação para o Desenvolvimento (ED) tiveram junto de duas docentes, ao nível do seu trabalho enquanto professoras e orientadoras de projetos de investigação de estudantes de mestrado em ensino de Língua Portuguesa e de História.

A secção das Práticas abre com o texto Knowledge Exchange Partnerships on Global Citizenship Education at Bridge 47 - Building Global Citizenship, onde Talia Vela-Eiden apresenta o projeto Bridge 47 - Construção de uma Cidadania Global, ligado à meta 4.7 da Agenda 2030, nomeadamente o trabalho relacionado com as Parcerias de Intercâmbio de Conhecimento, onde se constroem pontes entre Instituições de Ensino Superior e de investigação e Organizações da Sociedade Civil. 

No texto A experiência do Sinergias das 2 às 3 e do roteiro  de conversas “Do Vime à Cesta” - Uma forma de reflexão e de questionamento coletivo crítico em tempos de pandemia, Beatriz Braga partilha a experiência da Comunidade Sinergias ED na dinamização das conversas “Sinergias das 2 às 3” e do roteiro “Do Vime à Cesta”, encontros de reflexão e questionamento coletivo crítico sobre o futuro que queremos criar no período pós-COVID-19 e de que forma nos podemos preparar para ele, especialmente ao nível das nossas práticas de Educação para o Desenvolvimento e Cidadania Global.

Mário Montez, no seu texto Activate - sinergias para a capacitação de atores de Desenvolvimento Comunitário, em Glasgow, entusiasma-nos com a sua narrativa do Activate Program, um programa educativo de capacitação de atores locais para o desenvolvimento das suas comunidades, promovido pela Universidade de Glasgow (Escócia) em conjunto com organizações locais.

Segue-se o texto Europa no Mundo - Por uma Europa Sustentável para Todos e Todas, de Pedro Cruz, coordenador do projeto "Europa no Mundo". Este projeto dedica-se à concretização dos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável e reúne 25 Organizações da Sociedade Civil que comungam do intuito de, em parceria e numa diversidade de valências a nível local, nacional e internacional, produzir conhecimento, partilhar experiências e processos de aprendizagem, comunicar e sensibilizar e, ainda, exercer influência política. 

Para fechar esta secção, uma oportunidade para conhecer melhor a MICAR, uma mostra de cinema anti-racista promovida pela SOS Racismo desde 2016, em MICAR - Mostra Internacional de Cinema Anti-Racista e as potencialidades das atividades culturais no combate anti-racista. Um convite a entrar em questões de reforçada premência e atualidade.

Na primeira parte da secção de Debate encontramos três textos dedicados ao atual contexto pandémico e aos seus desafios. Luísa Teotónio Pereira, em Mudanças da era da globalização, partilha as suas reflexões sobre os desafios que enfrentaremos no “tempo pós-pandemia”. Nesse tempo, pleno de incertezas mas também de oportunidades, o que mudará e o que permanecerá dependem, em larga medida, da nossa análise e da nossa ação. Stephen McCloskey desafia-nos a repensar a Educação para o Desenvolvimento no novo contexto mundial no seu texto COVID-19 has exposed Neoliberal-Driven ‘Development’: How Can Development Education Respond?. O autor apresenta algumas sugestões de como, enquanto educadores e educadoras, podemos orientar a nossa pedagogia na área da Educação para o Desenvolvimento. Massimiliano Lepratti e Giordana Francia, equipa coordenadora do projeto europeu Get up and Goals! Global Education Time, no texto Educação e COVID-19! Ou porque é que a pandemia evidencia o quão essencial é a educação para a cidadania global!, realçam a oportunidade que esta situação de crise pode trazer se a escola aproveitar para mobilizar competências da Educação para a Cidadania Global, para podermos analisar a situação de uma perspetiva geral e imaginar cenários futuros e possíveis ações.

Esta secção encerra com o documento Expandiendo el bienestar en las interacciones entre universidad y sociedad. Reflexiones y propuestas de la Red Multibien, partilhado por Alejandra Boni, que coloca o seu olhar sobre a forma como esta rede, que inclui investigadores e investigadoras de sete países iberoamericanos (Argentina, Brasil, Colômbia, Costa Rica, Espanha, Portugal e Uruguai), tem potenciado relações entre universidade e sociedade que contribuam para a melhoria do bem-estar e da qualidade de vida das pessoas.

A secção Entrevista inicia com uma conversa entre La Salete Coelho, da Comunidade Sinergias ED, Antonio Sianes, da Fundação ETEA da Universidade Loyola Andalucía, e Talia Vela-Eiden, representante do projeto Bridge 47, na qual se reflete sobre oportunidades criadas pelo referido  projeto, a sua ligação à Agenda 2030, o desafio da colaboração entre atores, a constituição da Parceria de Intercâmbio de Conhecimento entre Portugal e Espanha e o trabalho desenvolvido no âmbito deste trabalho colaborativo.

Esta secção apresenta-nos, ainda, a conversa de Dalila P. Coelho com Carla Malafaia, onde se dá conta de uma inovadora investigação sobre movimentos na área do ativismo climático em Portugal. Neste diálogo, ficamos a saber mais acerca dos modos de “ser ativista”, das suas causas, da importância da dimensão visual da participação e do papel cada vez mais complexo e essencial das redes sociais para se entender o que é o ativismo climático juvenil. 

O Documento-chave que apresentamos é o Target 4.7 Roadmap, da responsabilidade do grupo Bridge 47, mas construído a muitas mãos, no encontro Envision 4.7 Event, decorrido em Helsínquia, em novembro de 2019. Este itinerário pretende ser um quadro de orientação para a implementação do Objetivo de Desenvolvimento Sustentável 4.7 na Europa. 

A secção das Recensões convida-nos a duas leituras. Primeiro, encontramos a recensão do livro The Bloomsbury Handbook of Global Education and Learning (editado por D. Bourn, pela Bloomsbury Academic, em 2020), pela mão de Maayke de Vries. A autora descreve-nos este livro como uma coleção impressionante de perspetivas diversificadas, muitas vezes contraditórias, vindas de atores de Educação Global de diferentes países, num conjunto de 30 ensaios que permitem um olhar compreensivo sobre o tema. Em seguida, João Queirós partilha as suas notas de leitura do livro Corpos Resistentes. Imigração, racismo e trabalho agrícola nos EUA, de Seth Holmes, aproveitando para fazer uma muito pertinente ligação com o atual momento de pandemia que vivenciamos e com a renovada afirmação da agricultura e do trabalho agrícola enquanto atividade essencial.

Na secção das Publicações e outras produções recentes são apresentadas cinco publicações recentes:o relatório Global Citizenship Education (GCE) for Unknown Futures - Mapping Past and Current Experiments and Debates (2019), da responsabilidade do projeto Bridge 47; a partilha Referencial de Educação para o Desenvolvimento nas Instituições de Ensino Superior: reflexões e experiências (2020), da responsabilidade do CIDAC - Centro de Intervenção para o Desenvolvimento Amílcar Cabral e da FGS - Fundação Gonçalo da Silveira; os recursos pedagógicos Coolbox - jogos para a igualdade de género e a não-violência (2018) e Reflexo - para uma nova relação entre a escola e as comunidades ciganas (2019) da responsabilidade da CooLabora; e, finalmente os Materiais Lúdico-Pedagógicos sobre Desenvolvimento Local desenvolvidos pela ANIMAR - Associação Portuguesa para o Desenvolvimento Local. 

O presente número da Revista Sinergias encerra com a habitual secção dedicada às Teses, na qual se partilha um conjunto de três dissertações de Mestrado e duas de Doutoramento com temas relacionados com a Educação para a Cidadania Global e com a Educação para o Desenvolvimento.

Damos por terminada esta introdução ao Número 10 da Revista Sinergias - Diálogos Educativos para a Transformação Social, que pretendemos esperançosa no futuro que estamos a construir hoje e motivadora do caminho a percorrer para lá chegarmos.

 


Ficha Técnica

Nome da Revista: “Sinergias – diálogos educativos para a transformação social”.

Propriedade: Centro de Estudos Africanos da Universidade do Porto (CEAUP) e Fundação Gonçalo da Silveira (FGS), no âmbito do projeto Sinergias ED: consolidar o diálogo entre investigação e ação na Educação para o Desenvolvimento em Portugal, cofinanciado pelo Camões – Instituto da Cooperação e da Língua I.P., apoiado pela Reitoria da Universidade do Porto.

Periodicidade: Semestral.

Grafismo e Paginação: Megaklique e Cláudia Pereira.

Edição: Centro de Estudos Africanos da Universidade do Porto (CEAUP) e Fundação Gonçalo da Silveira (FGS).

Conselho Científico: Alejandra Boni (INGENIO-CSIC, Univ. Politècnica de Valencia.ES), Alexandre Furtado (Fundação para a Educação e Desenvolvimento.GB), Ana Isabel Madeira (Inst. Educação-Univ. de Lisboa.PT), Antónia Barreto (Escola Superior de Educação e Ciências Sociais-Inst. Politécnico de Leiria.PT), Cristina Pires Ferreira (Univ. de Cabo Verde.CV), Dalila P. Coelho (Centro de Investigação e Intervenção Educativas-Univ. do Porto.PT), Douglas Bourn (Inst. of Education-Univ. of London.UK), Elizabeth Challinor (Centro em Rede de Invest. em Antropologia-Univ. do Minho.PT), Filipe Martins (Centro Estudos de Desenv. Humano-Univers. Católica Portuguesa; Rede Inducar), Júlio Santos (Centro de Estudos Africanos-Univ. Porto.PT), Karen Pashby (Univ. of Manchester.UK), Liam Wegimont (Global Education Network Europe), Luísa Teotónio Pereira, Manuela Mesa (Centro de Educación e Investigación para la Paz.ES), Maria Helena Salema (Inst. Educação-Univ. de Lisboa.PT), Maria José Casa-Nova (Inst. Educação-Univ. do Minho.PT), María Luz Ortega (Univ. Loyola Andalucia.ES), Matt Baillie Smith (Northumbria Univ.UK), Nuno da Silva Gonçalves (Pontificia Univ. Gregoriana.IT), Teresa Toldy (Univ. Fernando Pessoa.PT), Vanessa de Oliveira Andreotti (Univ. of British Columbia.CAN).

Conselho Editorial: Amanda Franco, Dalila P. Coelho, Joana Costa, Jorge Cardoso, La Salete Coelho e Sara Borges.

Na origem deste número estiveram envolvidos ainda António Sianes, da Fundación ETEA da Universidade Loyola Andalucía, e membros da Comunidade Sinergias ED.

Avaliadores do presente número: Amanda Franco (Centro de Investigação Didática e Tecnologia na Formação de Formadores-Univ. de Aveiro), Andreia Soares (Rede Inducar), António Sianes (Fundación ETEA da Univ. Loyola Andalucía), Helena Salema (Inst. Educação-Univ. de Lisboa) e Teresa Martins (Escola Superior de Educação-Inst. Politécnico do Porto).

Traduções, revisão gráfica e de textos: Amanda Franco, Cláudia Pereira, Dalila P. Coelho, Isabel Lacerda, Joana Costa, Jorge Cardoso, La Salete Coelho e Sara Borges.

Informações de depósito legal e issn: ISSN 2183-4687

Revista com arbitragem científica: os artigos são da responsabilidade dos seus autores.

Bridge 47 was created to bring people together to share and learn from each other. We mobilise civil society all around the world to do their part for global justice and eradication of poverty with the help of Global Citizenship Education.We believe everyone can change the world. With the help of Global Citizenship Education, we can learn to do things better, to live by values that make a difference. Global Citizenship Education encourages us to reflect upon our as-sumptions, make informed decisions and demand policies that create a more fair and equal world.

 


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