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Juventudes Partidárias portuguesas & Cidadania Global

Luís Mah1, Sara Dias2 e Dalila Teixeira3

 
 

Resumo: Análise preliminar e exploratória comparativa sobre as perspectivas de uma amostra de jovens portugueses participantes em Juventudes Partidárias portuguesas relativamente às temáticas ligadas à Cooperação e Educação para o Desenvolvimento, à luz da proposta e resultados do Eurobarómetro “O Ano Europeu do Desenvolvimento – As Opiniões dos Cidadãos sobre Desenvolvimento, Cooperação e Ajuda”.

Palavras-chave: Juventude; Cooperação Internacional; Ano Europeu do Desenvolvimento.

 

Abstract: Comparative preliminary and exploratory analysis of the prospects for a sample of Portuguese youth participating in Youth Portuguese Partisan relation to themes related to Cooperation and Development Education in the light of the Eurobarometer proposal and results of “The European Development Year - The Opinions of Citizens on Development, Cooperation and Aid”.

Keywords: Youth; International Cooperation; European Year for Development.

 

Resumen: Análisis preliminar y exploratoria comparativo sobre las perspectivas de una muestra de jóvenes portugueses participantes en Juventudes Partidárias en relación a los temas afines a la Cooperación y Educación para el Desarrollo, contrastándolos con la propuesta y los resultados del Eurobarómetro “Año Europeo del Desarrollo - Opiniones de los ciudadanos sobre Desarrollo, Cooperación y Ayuda”.

Palabras-clave: Juventud; Cooperación Internacional; Año Europeo del Desarrollo.

 

 

1.   Introdução

Em 2014 a DG Devco (Direção Geral para a Cooperação Internacional e Desenvolvimento) da Comissão Europeia encomendou um Eurobarómetro destinado a auscultar as opiniões das cidadãs europeias e dos cidadãos europeus sobre um conjunto de questões da área da cooperação e desenvolvimento internacional. Os resultados deste Eurobarómetro, intitulado “O Ano Europeu do Desenvolvimento – As Opiniões dos Cidadãos sobre Desenvolvimento, Cooperação e Ajuda”, foram tornados públicos em Janeiro de 2015 de modo a coincidir com o início do Ano Europeu do Desenvolvimento.

A sondagem decorreu durante um período em que se assistia regularmente nos media, e de forma significativa, a acontecimentos violentos no Médio Oriente (Palestina, Síria e Iraque) bem como à epidemia do Ébola na costa ocidental de África. A significativa cobertura mediática destes eventos pode, segundo o Eurobarómetro, ter influenciado as respostas de quem respondeu ao questionário.

O questionário foi feito pela TNS, uma empresa de sondagens a nível europeu, nos 28 Estados membros da União Europeia (UE) entre 13 e 22 de Setembro de 2014. Foram entrevistado(a)s em presença 28,050 pessoas de diferentes grupos sociais e demográficos, em sua casa e na sua língua materna e em nome da DG Devco.

A nível europeu e para o grupo demográfico que interessa para este trabalho – jovens – o Eurobárometro revela que, em geral, os jovens entre os 14-25 anos são mais positivos sobre a questão do desenvolvimento do que os mais velhos com idades superior aos 25 anos. No entanto parecem ter um envolvimento menos pessoal na área.

Os jovens europeus pensam, que é importante ajudar pessoas em países em desenvolvimento (88% contra 84% para os que têm mais de 25 anos). Tendem também a pensar que a UE deve manter os compromissos assumidos em termos de ajuda ao desenvolvimento (54% contra 52% para os que têm mais de 25 anos).

Os mais jovens europeus são mais optimistas quanto ao impacto que as acções individuais podem ter na ajuda a países em desenvolvimento (56% contra 49% para os que têm mais de 25 anos). Revelam também que têm maior predisposição para pagar mais por produtos de países em desenvolvimento (55% contra 48% para os que têm mais de 25 anos).

Ao mesmo tempo, os mais jovens europeus envolvem-se menos a nível pessoal na ajuda a países em desenvolvimento (29% contra 35% para os que têm mais de 25 anos). Quando se envolvem é através de doações (22% contra 30% para os que têm mais de 25 anos). Os níveis de voluntariado (7% contra 6% para os que têm mais de 25 anos) e de activismo político (3% para ambos) são praticamente idênticos entre ambas as faixas etárias.

Ambas as faixas etárias concordam também que os três principais desafios são a saúde, a educação e a paz e segurança. Por outro lado, também são unânimes no que consideram ser os principais factores para se ter uma vida em condições decentes: (1) acesso a cuidados médicos, (2) acesso a água, saneamento e energia e (3) ter um emprego.

Embora o seu nível de conhecimento sobre a direcção da ajuda europeia e nacional seja similar ao outro grupo etário (acima dos 25 anos), os mais jovens europeus procuram a informação sobre desenvolvimento de forma diferente. Os mais jovens europeus tendem a utilizar mais a internet do que a faixa etária acima dos 25 anos (64% contra 38%). E isto é especialmente verdadeiro para as redes sociais (27% contra 10% para os que têm mais de 25 anos). 

Com base nestes resultados, este trabalho procurou fazer uma análise preliminar e exploratória comparando as opiniões dos jovens portugueses sondados pelo Eurobarómetro com as opiniões de membros das juventudes partidárias portuguesas, a partir de uma amostra selecionada por cada Juventude Partidária, de modo a analisar as semelhanças e as diferenças. Esta análise é apenas uma primeira tentativa destinada a conhecer melhor, e de forma geral, as opiniões das juventudes partidárias portuguesas sobre questões da área da cooperação e desenvolvimento internacional.

 

2. Metodologia

O ponto de partida foram os resultados do questionário do Eurobarómetro e a sua análise. Optou-se pela aplicação de questionário junto das Juventudes Partidárias de forma a obter dados para comparação. Utilizámos um modelo semelhante ao do Eurobarómetro, acrescentando algumas perguntas qualitativas para um maior aprofundamento da relação das juventudes partidárias com as questões de cooperação e desenvolvimento internacional. Decidimos concentrar a nossa população em estudo nas estruturas da juventude respectiva a cada um dos partidos com assento parlamentar no período em questão, nomeadamente a Juventude Social Democrática (JSD), Juventude Socialista (JS), Juventude Popular (JP), Juventude Comunista Portuguesa (JCP), Jovens do Bloco de Esquerda e Ecolojovem (Partido os Verdes).

Decidimos por um total de amostra de 90 jovens, 15 por cada uma das estruturas juvenis, jovens selecionados pelos dirigentes das juventudes. Os contactos foram estabelecidos com as respectivas estruturas e dirigentes em Julho, e a obtenção e recolha de questionários foi nos feita chegar até Setembro de 2015. Os participantes foram identificados internamente, sem critério por nós solicitado junto de cada Juventude. Foram realizados ao longo do processo de recolha de questionários inúmeros contactos regulares documentados, via e-mail, telefone com as pessoas identificadas em cada estrutura de forma a obtermos o maior número de respostas possível. Depois de bastantes constrangimentos de tempo e dificuldade na obtenção de respostas no tempo pretendido conseguimos chegar aos resultados de 47 jovens participantes: 15 respostas por parte da JS, 15 respostas por parte do BE, 10 respostas por parte da JSD e 6 respostas por parte da JP. Relativamente à Ecolojovem não conseguimos apesar de várias tentativas obter respostas e quanto à JCP esta estrutura não se demonstrou disponível na altura para participar na amostra, referenciando que a abordagem: “fazia uma ligação às políticas da União Europeia para a juventude de uma forma que nos pareceu enviesada e com pouca margem para opiniões e projectos alternativos à integração na UE e às suas políticas.” No entanto, a JCP refere ainda a sua disponibilidade para participar futuramente com o seu contributo para o estudo de políticas em que haja “espaço para a afirmação de políticas alternativas” pelo que em trabalho futuro gostaríamos de poder contar com a sua participação a partir de um modelo de discussão mais amplo nomeadamente através da realização de um focus group.

Destacamos como constrangimentos fundamentais a priori, o facto do número de questionários recolhidos ser apenas uma amostra, que poderá não ser representativa da realidade das estruturas no que se refere ao seu conhecimento e perspectiva quanto às temáticas ligadas ao sector da Cooperação para o Desenvolvimento. Destacamos ainda a realização de Eleições Legislativas, que muito condicionou e dificultou a mobilização e obtenção de questionários e participantes em tempo útil.

 

 3. Jovens portugueses vs. Juventudes Partidárias

Referindo-nos aos resultados e análise do “Eurobarómetro” e mais especificamente do caso português, foram entrevistadas neste contexto pelos responsáveis por esta sondagem (TNS), 1016 pessoas e mais de nove em cada dez portugueses dizem que ajudar as pessoas nos países em desenvolvimento é importante (93%). Entre o total entrevistado, 123 eram jovens entre os 15-24 anos e outros 138 com idades entre os 25-34 anos. Assim, e numa primeira abordagem, comparou-se os resultados para os jovens portugueses com os das juventudes partidárias (onde a idade máxima de filiação é 30 anos) tendo como referência 4 das 15 perguntas presentes no Eurobarómetro:

1. Na generalidade praticamente metade dos inquiridos apoiam a promessa da UE de aumentar a ajuda aos países em desenvolvimento. Os mais jovens portugueses (14-25) são os que se situam à frente nesta intenção (51%) ainda que com um diferencial pouco expressivo de apenas 1%, contra 50% entre os que têm entre 25-39 anos e 50% entre os que têm 40-54 anos e 48% para os que têm mais de 55 anos;

Em comparação, entre os 47 membros das juventudes partidárias que responderam ao questionário, 14 (ou 30%) apoiam a promessa da EU de aumentar a ajuda aos países em desenvolvimento. É no BE (10/15), JS (3/15) e JP (1/6) que encontramos quem apoia a promessa da UE de aumentar a ajuda aos países em desenvolvimento – com a ressalva da limitação numérica da amostra representativa da JP (6 questionários respondidos) que se encontrará ao longo de toda a análise;

 

2. Os mais jovens portugueses (14-25) são os mais optimistas quanto ao impacto que as acções individuais podem ter na ajuda a países em desenvolvimento (81%), em comparação com os 73% para os 25-39 anos, 63% para os 40-54 anos e 57% para os que têm mais de 55 anos;

Em comparação, entre os 47 membros das juventudes partidárias que responderam a esta questão, 21 (ou 45%) são mais optimistas quanto às acções individuais e o seu impacto nos países em desenvolvimento. Os mais optimistas estão no BE (11/15), na JS (4/15) e JP (4/6);

 

3. Os mais jovens portugueses consideram que as doações são uma medida eficaz para ajudar os países em desenvolvimento (79%), contra 71% (25-39 anos), 59% (40-54 anos), 61% (mais de 55 anos);

Em comparação, entre os membros das juventudes partidárias, 28 dos 47 que responderam, ou 60%, consideram as doações como uma medida eficaz para ajudar os países em desenvolvimento: JS (9/15), BE (7/15), JSD (6/10) e JP (6/6);

 

4. Os mais jovens portugueses vêem na educação um dos desafios mais urgentes para o futuro dos países em desenvolvimento (32%) por comparação com os 29% (25-39 anos), 30% (40-54 anos) e 26% (mais de 55 anos);

Em comparação, entre os 47 membros das juventudes partidárias que responderam ao questionário, a saúde vem em primeiro lugar (28/47), educação em segundo (25/47) e em terceiro lugar Democracia e Direitos Humanos (23/47). Na JSD (8/15) e na JP (4/6) escolheram também a Educação em primeiro lugar. Para a JS (10/15) e o BE (8/15) foi Saúde. Nota: Esta pergunta permitia respostas múltiplas.

 

Ao nível das respostas qualitativas, destacamos e analisamos as perguntas 1-4:

1. Tem conhecimento de iniciativas internacionais na área do Desenvolvimento? Quais?

Em geral, da totalidade dos que responderam (23/45), a maioria desconhece iniciativas internacionais na área do Desenvolvimento. No caso da (JS) os participantes que responderam destacam: iniciativas das Nações Unidas, referem conhecimento acerca da OCDE e da existência de programas de cooperação nos PALOP. De forma mais aprofundada um dos participantes descreve que conhece diferentes programas referindo “objectivos e metodologias diferentes” bem como tipos diferenciados de projectos, distinguindo os que se relacionam com o micro-crédito, outros com saneamento, outros na área das telecomunicações, o comércio justo e o conhecimento dos Objectivos de Desenvolvimento do Milénio. Relativamente ao (BE) são referidos o PNUD, o trabalho desenvolvido nos Fóruns Sociais Mundiais, os programas de voluntariado AIESEC, projectos da Gulbenkian, projectos organizados pelo CIDAC, o trabalho da GESTO, iniciativas de Comércio Justo, as campanhas da Amnistia Internacional contra a pena de morte, mutilação genital feminina e tráfico de armas e ainda o trabalho dos Médicos Sem Fronteiras e dos Engenheiros sem Fronteiras em países africanos. Quanto à (JSD) destacamos referências gerais à ajuda humanitária da União Europeia, a distribuição de alimentos para erradicação da pobreza e o micro-crédito, bem como a referência ao projecto Good Humanitarian Group. Por seu turno a JP destaca a Missão Dulombi, iniciativas de desenvolvimento promovidas pela União Europeia e organizações internacionais (FMI por exemplo), programas potenciados pelas ONGD e PNUD bem como programas de investimento promovidos por bancos ou empresas – dando o exemplo da Fundação Millenium, participantes da (JP) destacam também a Amnistia Internacional, a AMI, a ONU e ainda iniciativas desenvolvidas pela Gulbenkian como “parte da missão da Instituição”.

2. Está familiarizado com a ENED? O que destaca desta estratégia?

Em geral, dos que responderam, 11 (em 47) pessoas têm conhecimento geral da ENED tendo sido destacados de forma genérica e pouco aprofundada os seguintes aspectos: (BE) conhecimento de que se trata de Educação para o Desenvolvimento, referência ao Diálogo Norte-Sul e à solidariedade entre povos, referência à falta de divulgação da mesma junto do público, referência ao reconhecimento da Educação como matriz e motor de desenvolvimento e ainda a referência à relação entre investigação-acção que segundo o participante deve ser ser reforçada no sentido de maximizar os resultados da Estratégia. Um membro da (JS) destaca de forma geral iniciativas na área da prevenção e da ajuda comunitária. Das respostas da (JSD) destacamos a referência à ENED como estratégia que visa a promoção da cidadania global e ainda uma referência à realização das Jornadas de ED e de um dos temas trabalhados nestas Jornadas ser a influência política. Das respostas da (JP) não destacamos conhecimento acerca da mesma.

3. Está familiarizado com a Estratégia de Cooperação Portuguesa? O que destaca desta estratégia?

Em geral, apenas 10 (entre 47) pessoas mostraram saber do que se tratava a Estratégia de Cooperação Portuguesa. De forma geral, dos comentários todos genéricos relativamente à Estratégia destacamos alguns conteúdos fundamentais de vários participantes. Um dos entrevistados da JS viu referência à estratégia no site do Instituto Camões, conhecimento de que está direcionada para países de Língua Portuguesa e que uma das áreas chave é a do fortalecimento da Sociedade Civil; entre a JSD houve quem tenha respondido que o Objectivo da Estratégia é a erradicação da pobreza e o desenvolvimento sustentável de países parceiros, e que se pretende com a Estratégia promover o crescimento económico de países menos desenvolvidos, existe também uma referência à igualdade de género; na JP, um dos membros menciona a divisão por sectores, não especificando no entanto quais, outro refere a cooperação multilateral. Quanto ao (BE) é referida a motivação da estratégia com interesses financeiros e a falta de divulgação da mesma.

4. Conhece algum projecto de cooperação? Qual?

De forma geral, das (23) respostas por parte dos participantes foram referidos inúmeras iniciativas, projectos ou organizações em especifico dos quais destacamos: Na JS, falou-se da Rede Europeia Anti-Pobreza, Conexão Lusófona, Helpo, Leigos para o Desenvolvimento, Open Society Foundation, Blocos Regionais - União Africana, a Fundação Bill and Melinda Gates bem como projectos da ONU. Quanto à JSD, refere a AIDGLOBAL e um projecto específico “Educar para Cooperar”, a comunidade CPLP, o apoio aos órgãos de soberania (exemplo da Guiné-Bissau) e projecto de Apoio ao desenvolvimento dos Sistemas Judiciários no âmbito do programa PIR-PALOP. Relativamente à JP são mencionadas a Cooperativa Árvore e a Cooperativa ECOS – destacando que estas desenvolvem trabalho maioritariamente local e não internacional e destaca-se também a cooperação ao nível do ensino linguístico desenvolvida pelo Instituto Camões e ainda trabalho de cooperação desenvolvido pela AICEP.Quanto ao BE, entre as respostas obtidas referem-se conhecimento acerca do trabalho do CIDAC, do Forum Social Mundial, projectos de apoio ao desenvolvimento dos sistemas judiciais nos PALOP, um projecto da CPLP na Guiné-Bissau, conhecimento de vários projectos nos quais destacam: Acima da Média!, Rumos da AHEAD e o Serviço Voluntário Europeu.

 

4. Conclusões e contributos para uma análise futura

A mobilização de voluntários, jovens ou não jovens, cidadãos, constitui hoje ainda um grande desafio para as ONGD. Apesar de um contacto regular e partilha de práticas dentro do sector através dos seus mecanismos representativos - nomeadamente grupos de trabalho e de reflexão, iniciativas organizadas pelo Instituto Camões ou pela Plataforma das ONGD. Um estudo desenvolvido no âmbito do programa DEEEP4 e que analisou a realidade portuguesa aponta como grande desafio a “falta de conexão das iniciativas de Educação para o Desenvolvimento, com o contexto e realidade locais” nomeadamente a “falta de conexões e parcerias com outras Organizações da Sociedade Civil, Movimentos Sociais, iniciativas locais para a mudança”4.

A tentativa de primeira abordagem de trabalho e contacto com as estruturas partidárias surge precisamente a partir da identificação da existência de um contacto e partilha de práticas muito limitado com estas estruturas, apesar de alguns projectos na área da ED desenvolvidos nos últimos anos se situarem no âmbito da advocacia política – estes têm trabalhado de forma mais aprofundada com Partidos Políticos.

É uma evidência que não se conhece grande tradição em Portugal de contacto entre o Sector das ONGD, tanto a nível individual (Organizações de forma singular) como a nível institucional representativo (a partir da Plataforma das ONGD) com as Juventudes Partidárias – seria no entanto interessante explorar e verificar quantos projectos na área da ED existiram em Portugal nos quais tivesse existido envolvimento destas estruturas.

A relevância de trabalhar as temáticas ligadas à Educação Global com jovens que participam em estruturas partidárias parece-nos da maior importância, perante um cenário de crise de participação nos processos democráticos, a nível nacional e europeu e uma cada vez maior desmobilização e afastamento dos cidadãos e dos jovens, das estruturas partidárias que estão na base da representação parlamentar e por isso da tomada de decisão.

É clara também a referência na Estratégia Nacional de Educação para o Desenvolvimento à importância da sensibilização e influência política, através da “promoção de acções de sensibilização que fomentem as capacidades e competências de concertação entre actores”5 como uma das medidas  identificadas - parece-nos relevante salientar no entanto que de entre os públicos a envolver nesta medida tais como: “organizações da sociedade civil e movimentos sociais, media e jornalistas, opinião pública em geral ou seus segmentos específicos, pessoas ou instituições públicas ou privadas co responsabilidades e poder de decisão”6 não encontramos referência específica às Juventudes Partidárias.

Da experiência obtida, apesar da difícil mobilização e destas estruturas terem agendas apertadas, fortemente condicionadas pela vida política nacional, os seus dirigentes e pessoas de contacto mostraram-se fundamentalmente abertos e interessados em desenvolver actividades no futuro e em estar mais próximos do trabalho das Organizações e do Debate em torno das políticas de cooperação. A identificação da necessidade do aprofundamento da relação entre ONGD que trabalham na área da ED e destas estruturas de juventudes partidárias é apontada não só para a realidade nacional, mas faz parte das recomendações fundamentais às ONGD e a outros actores de desenvolvimento desde 2011 que “as ONGD devem iniciar relações com os movimentos de jovens, sindicatos e outros actores da sociedade civil”7.     

Vale a pena referir que as respostas qualitativas demonstram um desconhecimento generalizado não só em relação às políticas nacionais para a Cooperação para o Desenvolvimento mas também quanto aos agentes envolvidos no sector, quer se trate do Instituto Camões ou de Organizações Não-Governamentais para o Desenvolvimento (ONGD). Por outro lado, são mencionadas a Amnistia Internacional, a Fundação Gulbenkian e a CPLP - que de forma natural encontram mais espaço mediático e estratégias de comunicação para a divulgação da sua actividade mais sólidas do que as Organizações do Sector. Ressalvamos ainda que este desconhecimento se verifica apesar dos participantes terem sido selecionados internamente como descrito anteriormente na Metodologia.

Se o sector da cooperação para o desenvolvimento em Portugal quer que a sua actividade seja apoiada consensualmente pelas forças políticas nacionais e pelos que supostamente serão os futuros decisores políticos do país então o que esta primeira abordagem exploratória revela que é necessário desenvolver mais iniciativas de diálogo e com as juventudes partidárias para se fortalecer a cidadania global, e desta forma criar oportunidades para uma maior mobilização da opinião pública, e dos jovens que poderão vir a ter no futuro responsabilidades de liderança e representação parlamentar. 

Finalmente, este artigo, como foi previamente indicado, é apenas preliminar e exploratório e sugerimos que os próximos passos passem por um trabalho mais regular com as juventudes partidárias através da dinamização de focus groups para recolha de opiniões, reflexões, debate e troca de perspectivas sobre temas da área da cooperação e desenvolvimento internacional e qual o seu papel no seio dos partidos e dos seus programas.

 
Para consultar os anexos deste estudo, por favor faça o download da versão pdf. aqui
 


[1] Investigador pós-doutoramento no Centro de Estudos sobre África, Ásia e América Latina (CESA) do ISEG-Universidade de Lisboa. Liderou a Campanha do Milénio das Nações Unidas (2007-2010) e Pobreza Zero em Portugal (2005-2006). Doutorado em Estudos de Desenvolvimento pela London School of Economics (LSE).

[2] Licenciada em Ciência Política e Relações Internacionais, iniciou o seu percurso profissional em 2007 com o ISU após um projecto de curta-duração na Guiné-Bissau. Integrou a Direcção da Associação Par e coordenou diversos projectos internacionais e na área da ED. É membro fundador do colectivo "África Mostra-se" e actualmente colabora como free-lancer em projectos de várias Organizações e é Mestranda no ISEG na área da Cooperação Internacional, tem como tema de pesquisa a relação entre Estado e o Sector Privado na implementação de projectos na área do Turismo Sustentável.

[3] Mestranda em Comunicação Política. Assessora de Imprensa. Este artigo contou com a sua colaboração na recolha de questionários junto dos participantes e Juventudes Partidárias envolvidas.

[4]Skinner, A., Oliveira, S., Wittig-Fergeson, K. and Kouvaras, G. (2014). Journeys to Citizen Engagement: Action Research with Development Education Practitioners in Portugal, Cyprus and Greece. Brussels: DEEEP.

[5] IPAD (2009) ENED – “Estratégia Nacional de Educação para o Desenvolvimento 2010-2015”

[6] Idem.

[7] “O Desenvolvimento precisa dos cidadãos” – DARE FORUM positioning paper, Maio 2011.

 
 

Referências bibliográficas

  • UNIÃO EUROPEIA – Eurobarómetro – “The European Year for development - citizens views on development, cooperation and Aid” Janeiro 2015.
  • IPAD (2009) ENED – “Estratégia Nacional de Educação para o Desenvolvimento 2010-2015”.
  • Estudo DEEEP - Skinner, A., Oliveira, S., Wittig-Fergeson, K. and Kouvaras, G. (2014) Journeys to Citizen Engagement: Action Research with Development Education Practitioners in Portugal, Cyprus and Greece. Brussels: DEEEP.
  • “O Desenvolvimento precisa dos cidadãos” – DARE FORUM positioning paper, Maio 2011.
  • West, L. (2014) Transformative Learning and the Form That Transforms: Towards a Psychosocial Theory of Recognition Using Auto/ Biographical Narrative Research, Journal of Transformative Education 2014, Vol. 12(2) 164-179.