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Sandra Oliveira - Educação global: envolver cidadãos em tempo de crise?

Sandra Oliveira1 

Artigo publicado na oitava edição da revista espanhola Educación Global Research, com tradução disponível em espanhol e inglês. 

 

Resumo: O artigo sumariza as principais conclusões da investigação-ação e primeiro relatório sobre Qualidade e Impacto do DEEEP, centrados num estudo de caso com o Grupo de Trabalho de Educação para o Desenvolvimento (GTED) da Plataforma Portuguesa das ONGD. A pesquisa analisou as práticas e as estratégias com que o grupo procura envolver os cidadãos nas questões da justiça social global – e algumas iniciativas locais, membros de coletivos e os chamados “movimentos sociais” foram convidados a darem a sua perspectiva. Uma análise interessante para os desafios que a ED enfrenta em tempos de austeridade económica.

Palavras-chave: Educação para o Desenvolvimento (ED); Educação para a Cidadania Global (ECG); Crise; Envolvimento; Cidadania; Ciclo de mudança; Impacto.

Abstract: This article summarizes the process and findings of the first action research of DEEEP/CONCORD on Quality and Impact of Global Education in Europe. Mainly focused in Portugal’s development education community of practitioners, the research brought them together with informal groups, social movements and local initiatives, to analyze the understandings and practices of citizen engagement. An interessant analisis to the current times as it looks specifically at the challenges of development education in times of economic crisis and austerity in Europe.

Key words: Development Education; Global Citizenship Education; Crisis; Engagement; Citizenship; Cycle of Change; Impact.

 

 

Impacto – deve ser, neste momento, a palavra mais repetida na internet e no discurso político, quando se fala de “desenvolvimento” ou da área social. Há sempre, em todos os tempos, uma palavra assim – já foi “sustentabilidade”, há uns anos e “interdisciplinaridade”, entre muitas outras.

As palavras não perdem com isto o seu valor. A urgência de tornar o modo de vida humano “sustentável” ou de mobilizar toda a interdisciplinaridade disponível para melhor aprender ou agir, não terminam com a saída destas palavras da ribalta. Da mesma forma, a necessidade de determinar o impacto ou de avaliar mais do que apenas os resultados imediatos de uma intervenção, não deixa de ser urgente. Especialmente em contexto de escassez de recursos como é o actual, onde a palavra “crise” justifica cortes em financiamentos no que é essencial e se fortalece a seleção dos chamados “investimentos sociais”.

Todavia, para quem trabalha em Educação para o Desenvolvimento (ED) – ou, como muitos preferem chamar, a Educação para a Cidadania Global2 – a palavra “impacto” acarreta à partida uma dificuldade, que a torna temida por muitos e odiada por outros – e manipulada eficazmente por alguns.

 

Os impactos da Educação Global ou para o Desenvolvimento

A questão está na raiz da EG: como medir os impactos duradouros de motivar uma criança a pensar-se no mundo? E como saber qual a contribuição para esse amadurecimento que a inclusão de, por exemplo, dinâmicas de grupo sobre direitos humanos nas aulas curriculares, pode ter? Como avaliar os “outcomes” de um processo de aprendizagem de cidadania global num jovem estudante, apoiado por ações de informação e mobilização de uma ONG local? Ou, ainda, como medir o alargamento da consciência global de um cidadão que é provocado pelas atividades de um projeto de EG, mas que decorrem ao mesmo tempo dos muitos acontecimentos da sua vida quotidiana?

Estas são questões que atravessam e preocupam as ONG, não apenas na Europa mas a nível global, numa fase de transição entre paradigmas que a discussão do Pós-2015 parece tornar urgente3 – sendo igualmente uma fase entre-financiamentos, com o final da Campanha do Milénio das Nações Unidas, o corte de financiamentos estatais nestas áreas, ou os novos programas-quadro comunitários.

É que a palavra impacto parece estar na boca dos responsáveis europeus, nacionais, locais – e exige-se hoje à ED ou EG que se avalie, meça, encontre quadros de avaliação e comprovação de resultados duradouros – sob pena de ser excluída, por exemplo, nas mudanças já em curso nos novos quadros de financiamento comunitário.

Mas, retomando a ideia defendida no início: a palavra impacto não perdeu o seu valor só por ser uma moda. Verbas desbaratadas, em projetos apressados ou mal pensados, que respondem a linhas de financiamento mal-desenhadas desde o objetivo original e que, quando terminam, deixam uma sensação de maior impotência e desperdício nos cidadãos que era suposto apoiarem – é o pesadelo de todos os que trabalham de uma forma séria e consequente em ED/EG ou em áreas afins. O receio de “será que mais valia estarmos quietos?” é uma sombra que acompanha quem quer ter “impacto” com o seu esforço profissional.

Esse lado negro pode até revelar-se muito útil pois, em conjunto com outras questões (como “será que esta é a ação certa para este contexto?”, “estarei a comunicar bem com estas pessoas?” ou “se calhar, não estamos com os pés na terra ao lado dos cidadãos”, entre várias), essas dúvidas poderiam tornar-se metódicas para todos os que trabalham em ED/EG.

Estas questões são tidas em consideração na estratégia de resposta da Plataforma Europeia das ONG, o CONCORD (e do seu projecto DEEEP5 do Fórum DARE) à exigência de maior rigor dos investidores. Sendo evidente que a Comissão Europeia não está à procura de um quadro de avaliação mais rigoroso das ações co-financiadas pela EuropeAid apenas por que é uma instituição burocrata, a aposta do DEEEP em realizar relatórios anuais sobre o Impacto e a Qualidade da ED/EG4, por candidatura das plataformas nacionais, é uma estratégia da qual o grupo das ONG portuguesas pôde ser o primeiro beneficiário este ano.

Este relatório “Journeys to Citizen Engagement – Action Research with Development Education Practitioners in Portugal, Cyprus and Greece”5, foi, primeiro de tudo, uma boa conquista para os membros do Grupo de Trabalho de ED (GTED) da Plataforma Portuguesa das ONGD.

Com uma visão sobre a urgência de pensar as suas práticas e de divulgar a reflexão que tem moldado as suas ações nos últimos anos, o GTED candidatou-se à convocatória do DEEEP e conseguiu que este primeiro relatório, um caso de estudo a nível europeu, se centrasse em Portugal. Este caso de estudo foi enriquecido com a replicação da metodologia a uma escala mais reduzida junto das ONG do Chipre e da Grécia que trabalham em ED/EG, que revelaram similitudes e diferenças em contextos do Sul da Europa e países sob políticas de austeridade económica.

 

Uma investigação-ação à procura de enquadramento

Para a investigadora principal contratada pelo DEEEP para realizar esta investigação-ação e produzir o relatório, a questão inicial centrou-se na dúvida metódica: como avaliar a qualidade da ED/EG feita em Portugal e o impacto que tem junto dos cidadãos, traduzido no envolvimento em prol das questões globais? Até à data não existe, nem a nível nacional, nem a nível europeu, um quadro de avaliação consensual da ED ou da EG.

A exemplo do que foi feito nesta primeira fase da Estratégia Nacional de ED em Portugal (para a implementação da ENED 2010-2015, foi realizada uma análise quantitativa de projetos e das suas tipologias), também a nível europeu se fazem balanços, resenhas nacionais de tipologias e quantidades.

Ensaiou-se no Relatório Europeu de Monitorização da ED6 uma primeira avaliação do grau de desenvolvimento e das práticas de ED/EG em cada país. Embora no final desta investigação possamos concordar com a categorização tipológica do referido relatório e concordar que as ONGD membro do GTED em Portugal já realizam essencialmente abordagens de “Educação Global” e “Aprendizagem vivencial” (enquanto na Grécia e no Chipre, o trabalho ainda é muito centrado na “Sensibilização” sobre questões globais) – todavia, mesmo esta avaliação e tipologia não é consensual. Embora haja muita organização, academia e investigador a pensar estas questões, não existe ainda um quadro, um “framework” estabilizado de avaliação da ED/EG, com indicadores e metodologias consensuais – e prontos a usar.

A fase inicial desta investigação-ação foi, por isso, uma aventura em território que se começa a desbravar, em busca da metodologia perdida, do enquadramento controverso, do especialista que não tem a chave na mão. O desafio foi, porém, igualmente inspirador e com margem para inovar: sabe-se mais sobre o que não pode ser usado, o que não resulta, o que a “comunidade da ED”7 sabe que não serve para avaliar as práticas, ações e projetos de ED.

Na verdade, está tudo em aberto. Renovam-se antigas metodologias participativas e teorias emancipadoras, que incluem a avaliação no próprio tecido das ações. Discutem-se as análises custo-benefício e o seu valor como argumento para financiadores. Propõem-se enquadramentos provisórios e começam a desenhar-se indicadores certeiros, mas que exigem constante evolução. Renovam-se a interdisciplinariedade e os avanços feitos noutras áreas, como por exemplo as teorias da Transição8 que emergiram na área ambiental.

A investigadora principal, centrada no caso de estudo em Portugal, foi “beber” a tudo isto e propôs à equipa de investigação – Amy Skinner, investigadora do DEEEP que coordenou e co-escreveu o relatório, Gerasimos Kouvaras, que implementou o processo resumido na Grécia e Kerstin Wittig-Fergeson, no Chipre – uma abordagem e metodologias que procurassem responder não apenas aos termos de referência do DEEEP, mas fundamentalmente aos anseios do GTED e da comunidade de ED em Portugal.

Em traços gerais, a abordagem escolhida deveria conduzir mais além a reflexão que o GTED tem realizado sobre as práticas das ONGD que trabalham em ED em Portugal. Deveria complementar o positivo, mas até agora restrito, papel da avaliação quantitativa da ENED; e, igualmente, deslindar possíveis caminhos, ferramentas e valores-guia para as outras organizações que trabalham estes temas. E que este processo fosse ainda enriquecido com um diálogo construtivo entre as ONGD de sempre e as outras organizações, movimentos sociais, iniciativas locais.

Desta forma, a equipa acolheu algumas ideias antigas, outras inovadoras, outras encontradas em áreas diversas. Neste processo, a investigadora principal sugeriu incluir metodologias com que tinha contactado recentemente (como o ABCD – Asset Based Community Development9), mas endereçou igualmente um convite a uma investigadora da área da Transição e desenvolvimento sustentável, Inês Campos – para co-     -facilitar os workshops previstos na investigação-acção com metodologias que estão a ser usadas nos processos de Transição de comunidades em Portugal, como a aldeia das Amoreiras10.

Podemos estabelecer, desde já, que a investigação-ação conseguiu bons resultados, alguns surpreendentes, outros inspiradores – mas rapidamente a equipa constatou que, não apenas os Termos de Referência, mas também os objetivos da equipa de investigação foram ambiciosos. Produzir, por exemplo, teorias de mudança significativas para a “comunidade de ED”, em poucas horas de workshop, não é realista, pois são processos que demoram vários dias, como nas comunidades do movimento de Transição, por exemplo.

 

Envolver cidadãos em tempo de crise?

O pano de fundo desta investigação foi precisamente a “crise” ou, mais concretamente, os efeitos da crise financeira e das políticas económicas de austeridade no envolvimento dos cidadãos. O primeiro efeito é o da reflexão interna das ONG sobre o que fazem e querem fazer. Nesse sentido, a “crise” não é apenas uma ameaça – de cortes em fundos e indisponibilidade para pensar além dos problemas do contexto local – mas pode ser, em parte, uma oportunidade ao obrigar a procurar alternativas, económicas e outras.

Mas, claro, como apontava um participante, “a mudança não pode nascer apenas da frustração – tem de existir um sonho, uma visão que faça mover as pessoas”. E é aqui, ao mostrar alternativas, desenhar possibilidades, abrir frestas no que pode ser um novo paradigma da realidade, que as ONG podem ter um papel central. E só assim se pode escapar aos efeitos imediatos da crise: dificuldade em olhar para o nível global; protecionismo e fechamento; apatia e medo coletivos; até o aumentar de movimentos de extrema direita... A ligação ao local, para depois poder ligar à dimensão global, é determinante.

Central é igualmente não ter medo de inovar e inspirar a mudança, seja em estilos de vida, na economia social ou em propostas políticas de cidadania. Esta última foi um dos pontos de discussão mais acesos durante os workshops: deve a ED envolver cidadãos para a evolução ou para a revolução? Como se faz a mudança? Os participantes dos três países concordaram que é urgente envolver e motivar a participação política para promover uma mudança sistémica – houve mesmo, em Portugal, alguns participantes que advogaram a necessidade da ED ser mais interventiva e tomar posições claras, por exemplo, sobre políticas públicas, para finalmente se notar uma mudança em prol da justiça social global.

  

E como correu em Portugal?

O processo de investigação-ação envolveu, em Portugal, os membros do GTED e outras organizações da sociedade civil, grupos e iniciativas locais, entre outubro e janeiro de 2014. O relatório final foi escrito a partir da reflexão coletiva com os participantes – como uma ferramenta que contribua para melhores abordagens ao envolvimento dos cidadãos pelo setor.

Os dois grandes objectivos de trabalho passaram por:

  1. revelar o conhecimento e os processos de envolvimento de cidadãos criados pelas ONGD, num contexto de política de austeridade económica – e que ligações fazem às questões locais, nacionais e globais;
  2. contribuir para melhores abordagens usadas nas ações de ED, sugerindo marcos e recomendações de qualidade e impacto das ações que promovem o envolvimento dos cidadãos.

Esta investigação-ação teve cinco fases: uma fase inicial de pesquisa – recolha de informação de como as ONGD, os grupos, movimentos sociais, sindicatos ou redes fora da ED envolvem os cidadãos ao trabalhar em questões locais ou nacionais; reflexão e discussão desta informação com os participantes em Portugal, seguidos da Grécia e Chipre; análise de todo o material e reflexão obtidos, por forma a organizar o relatório e, por fim, um planeamento-ação – estruturando as conclusões como forma de melhorar o trabalho da ED no envolvimento de cidadãos – que foi iniciado com os participantes e desenvolvido ao longo da escrita do relatório.

A investigadora do DEEEP coordenou e apoiou ao longo da investigação esta equipa – a investigadora principal em Portugal e os dois facilitadores na Grécia e Chipre – através de reuniões via Skype, e-mails, das guidelines escritas e de material partilhado online, sendo a língua de trabalho o inglês, mas desenvolvendo-se a investigação nas línguas locais. A tradução foi o primeiro dos desafios e a perda de contexto ou significado foi compensada com a simplificação e clarificação de linguagem, a partilha de explicações longas nos materiais produzidos e muitas horas de chamadas skype a clarificar algumas “áreas cinzentas”.

O processo de investigação seguiu estes passos:

  1. Criar confiança, preparar a reflexão – Em dezembro de 2013, a investigadora principal desenvolveu um questionário preliminar, como preparação do 1º Workshop com o GTED. A investigadora esteve igualmente presente na reunião de novembro do GTED, onde fez uma apresentação breve da metodologia e da investigação, garantindo o anonimato nas citações do relatório e uma revisão final pelo representante do grupo no Fórum DARE do CONCORD.
  2. Workshop – Realizou-se em Lisboa, a 10 de dezembro de 2013, com os objetivos: trabalhar na definição de “engagement/envolvimento”; balanço das estratégias usadas e do impacto obtido; desenho de uma Teoria da Mudança do envolvimento através da ED/EG. As principais metodologias usadas foram um debate com a dinâmica de grupo “Aquário” para discussão do “engagement/envolvimento”, com a introdução das 5 questões principais da investigação sobre o tema específico; o mapeamento das riquezas e potencialidades do GTED usando princípios da metodologia ABCD; um World Café e discussão coletiva para construção da Teoria da Mudança (ou visão de mudança) e das assumpções sobre as quais assenta, bem como o traçar de “percursos” ou um esboço de planeamento-ação, para um mais efetivo envolvimento dos cidadãos.
  3. Documentação e pesquisa sobre organizações da sociedade civil, grupos alternativos, iniciativas locais; convites e pré-entrevistas para preparação do Workshop-encontro – entre dezembro de 2013 e 13 de janeiro de 2014.
  4. Workshop-encontro com o GTED e as organizações da sociedade civil, grupos alternativos e iniciativas locais convidadas – decorreu em Lisboa, na manhã de 14 de janeiro. A metodologia principal foi uma entrevista de grupo com 5 tópicos principais, feita aos convidados e completada com intervenções dos membros do GTED sobre os temas. Foi seguida do mapeamento dos objetivos, estratégias e desafios  no envolvimento de cidadãos de cada membro GTED e convidados; finalizando com uma discussão muito participada sobre contactos, parcerias imaginadas e ideias para melhorar o envolvimento dos cidadãos.
  5. Trabalho de grupo para planeamento-ação – teve lugar na tarde de dia 14 de janeiro e procurou levar mais longe a teoria/visão de mudança e a construção de caminhos/estratégias concretas para obter mais impacto da ED em várias esferas. As principais metodologias foram: um processo de escrita criativa rápida, com visões de mudança; seguido de uma discussão coletiva e a construção da Visão do grupo; trabalho de grupo e apresentação de possíveis caminhos para atingir esta visão de um envolvimento de cidadãos mais efetivo; finalizando com cada participante a escolher uma ideia concreta que pode levar para o seu trabalho.
  6. Escrita do relatório – o processo com os passos 1 a 5 foi aplicado de uma forma resumida na Grécia e no Chipre em janeiro de 2014 e foi criada uma estrutura de relatório para os dois facilitadores, fornecendo a informação desses dois casos de estudo para o relatório – que foi complementada com uma reunião de equipa via Skype. Essa estrutura simples de relatório foi depois completamente “virada ao contrário” e houve um regresso às questões de partida da pesquisa, criando novos capítulos e sub-capítulos onde coubessem não apenas as questões principais, mas igualmente a riqueza do material produzido. Um esboço do relatório foi produzido pela investigadora do DEEEP e pela investigadora principal, que foi finalizado depois de uma leitura crítica dos facilitadores, da representante portuguesa no Fórum DARE do CONCORD e do coordenador de investigação do CONCORD. A versão final está publicada online11 e foi apresentada num webinar no dia 21 de maio de 201412.

 

Desafios da investigação

  • O tempo: o grande inimigo - mas que pode também ser o grande aliado – da ED. Encontrar um espaço- -tempo para reunir as pessoas é um desafio. Este tipo de reflexão, de processo de construção coletiva de conhecimento, exige tempo e esta investigação foi uma verdadeira ação de ED, um processo de aprendizagem, que exige continuidade – algumas metodologias usadas, como os processos de construção de Visão e Teorias da Mudança, também exigem tempo.
  • A representatividade dos resultados: a maioria do conhecimento foi produzido em Portugal, dado que era o país-foco desta investigação, sendo complementado com informação da Grécia e do Chipre – e procurando limitar o risco de extrapolação através de uma clara indicação das diferenças entre países. O desequilíbrio na profundidade dos resultados foi também ponderado, mas as limitações da pesquisa não permitiam ir mais além nos outros dois países.
  • A tradução: embora a pesquisa tenha sido desenvolvida nas línguas locais, há o risco de perder algum significado na tradução para a língua de trabalho e de publicação. Esse risco foi mitigado através da revisão e análise do relatório em inglês pelos facilitadores do Chipre e da Grécia, antes da versão final.
  • Qualidade e impacto: não há enquadramento formal ou consensual para avaliação da ED ou dos processos de envolvimento dos cidadãos na Europa. Em vez de “medir” com critérios e indicadores pré- -definidos, realizámos uma breve revisão da literatura para contextualizar a investigação e guiar a análise dos resultados. O relatório foi maioritariamente construído com a perspetiva dos participantes sobre o que é “ED de qualidade”, por forma a enquadrar um quadro de recomendações no capítulo final.

 

Contributos da investigação

Da análise sobre os resultados da investigação-ação, admite-se que os grandes contributos desta investigação surgiram ao nível das metodologias, das abordagens, das ferramentas e da avaliação de impacto. Junto com os desafios que se identificaram, bem como com as riquezas mapeadas, deram origem a algumas recomendações que podem ser úteis para a “comunidade de ED/EG”.

A participação estimulada através de dinâmicas de grupo, a inspiração da metodologia ABCD e os processos de visão foram momentos poderosos de reflexão e aprendizagem mútua que inspirou o envolvimento e a apropriação entre os participantes do GTED. Descrevemos as metodologias na “Caixa de Ferramentas" seguinte.  

Caixa de Ferramentas

Quem pertence, de alguma forma, à “comunidade da ED” pode achar útil alguma das metodologias usadas nesta investigação para o seu trabalho – aqui fica um resumo.

1)     ABCD – Asset Based Community Development ou desenvolvimento comunitário baseado nas riquezas/activos:

Pode ser usada como alternativa às tradicionais análises SWOT ou FOFA (análise de forças, oportunidades, fraquezas e ameaças), pelo foco nas riquezas, no ativo, em vez de centrar a análise no défice, nos problemas de uma comunidade. Pode ajudar as ONG, plataformas ou redes a construirem bases de dados úteis para o trabalho em parceria.

2)     Processos de construção de visão:

Criar um espaço para visualizar a mudança pode ser um processo inspirador para um grupo ou comunidade. Pode ser simplesmente para imaginar que se encontram no futuro, num dado intervalo de tempo (escolhemos dez anos) e os participantes visualizarem as mudanças que desejam ver concretizadas – pedimos para visualizarem um envolvimento maior dos cidadãos através da ED e quais as mudanças concretas existentes no futuro. Para mais inspiração, é possível encontrar na internet exercícios de visão usados pela rede Transição ou pelas teorias onde tiveram origem1.

3)     Teoria da mudança:

Esta metodologia é útil para as ONG fortalecerem o seu planeamento estratégico tendo por base o desenvolvimento de uma sólida teoria da mudança2 (organizacional, de práticas ou de um projecto específico). Ajuda a questionar as assumpções e ideias feitas sobre as quais assentam o trabalho e desenvolver percursos com acções concretas focadas no impacto a alcançar.

4)     Metodologia do Aquário:

Fishbowl é uma dinâmica simples que incentiva a participação de todos os envolvidos e torna os debates mais pluralistas. Os participantes ficam mais conscientes se participam muito ou pouco, os tópicos podem ser acrescentados paulatinamente e evita que as discussões “emperrem” nos pontos mais complexos.

5)     Modelo do envolvimento como um percurso:

A partir do modelo transteorético da mudança de comportamentos3 adaptámos este ciclo como uma ferramenta que pode ser usada pela ED para apoiar percursos de mudança de um cidadão envolvido. Não é um modelo a seguir, antes um elemento para inspiração: o foco está no tipo de apoio (informação, reforço, inspiração ou direcções) que é necessário dar em momentos diferentes da mudança – e esse tipo de apoio necessita ser constantemente avaliado para ser adequado ao ponto do ciclo em que se encontra cada cidadão4.

Sandra

Tradução para português do ciclo incluído em “Journeys to Citizen Engagement – action research with development education practitioners in Portugal, Cyprus and Greece”, (Oliveira et Skinner, 2014)

 

[1] Ver por exemplo http://ir.canterbury.ac.nz/bitstream/10092/2143/1/12611490_The%20Visioning%20Project.pdf ou http://www.ist2012.dk/custom/files/ist2012/Fullpapers/Fsessions-fullpapers.pdf ou ainda http://www.transitionnetwork.org/blogs/rob-hopkins/2013-07/june-round-what-s-happening-out-world-transition

[2] Para mais informação e acesso a uma comunidade de prática sobre este tema, ver www.theoryofchange.org

[3]Inspirado pelo modelo circular de J. O. Prochaska – Transtheoretical model for beahaviour change em http://en.wikipedia.org/wiki/Transtheoretical_model - foi partilhado durante o workshop pelo participante do movimento da Transição, que o utiliza nas formações. É uma boa ferramenta para apoiar a mudança individual ou de uma comunidade.

[4] Para outro modelos circulares usados na ED, ver por exemplo Priorities for Development: A Teacher Handbook for Development Education D. Braun (1982) S. Sinclair, J. Pearson, Development Education Centre. 

 

Ao longo da investigação, foram identificadas as abordagens principais usadas pelos participantes para envolver os cidadãos – mas, sendo considerada parte fundamental do trabalho, na verdade as ONGD não possuem estratégias definidas. Envolvem-se os públicos-alvo em ações ou projetos específicos, num dado momento, de curto prazo, em vez de um percurso – e atingindo, maioritariamente, sempre os mesmos públicos.

Algumas das ferramentas identificadas são as campanhas e atividades de sensibilização, complementados com trabalho de advocacia social ou advocacy e com formação e educação global no plano formal ou não-formal. Workshops com escolas, seminários para professores, sessões de formação com voluntários, bem como campanhas online, são outros métodos dos mais utilizados.

Quanto ao impacto atingido com este tipo de abordagens e estratégias, os membros do GTED consideram alguns bons resultados nos participantes das suas ações e projetos:

  • formar professores que se tornam os protagonistas das ações de ED;
  • participantes com interesse mais aprofundado pelo mundo e entendimento das interdependências;
  • mudanças nos padrões de consumo;
  • mais consciência política;
  • maior capacidade de fazer ligações local-global;
  • mudança de atitudes.

 

Mas salientam, igualmente, a dificuldade em medir ou tornar visíveis estes resultados. E elencam uma multiplicidade de desafios que foram explorados durante a investigação:

  • O que é “engagement” e como se traduz em português? – Envolvimento é a palavra mais consensual, mas investe-se igualmente no conceito “compromisso”.
  • Mobilização é a mesma coisa que envolvimento?

Os dois termos foram vistos pelos participantes portugueses como diversos: o envolvimento não significa necessariamente a mobilização para ações específicas. “O papel da ED é unir as pessoas e facilitar o seu envolvimento – o que decidem fazer depois está fora do alcance da ED”, afirmava um membro do GTED. Mais: membros do GTED consideraram que a ED está ela própria em transição; estão a deixar um paradigma “assistencialista” das décadas anteriores e a procurar outro papel – alguns defendem que o papel da ED não é promover a mudança imediata, mas facilitar a reflexão, o debate e, assim, o envolvimento. Criar espaços e tempos de pensamento e criatividade são essenciais numa altura em que somos bombardeados de informação e em que o tempo escasseia. Todavia outros participantes consideram que, como os temas da ED são complexos e, por vezes, “pesados”, há o risco de criar uma sensação de impotência nas pessoas – e se o papel da ED não deve ser, por vezes, tomar em mãos a responsabilidade e guiar ações concretas?

Na sequência, foi discutido o que é uma “ação” de envolvimento dos cidadãos. Um participante considerou que “a ação é vital, mas que a reflexão também pode ser uma ação!” – um cidadão envolvido pode passar por um processo de reflexão aprofundada e não fazer campanhas ou tomar posições críticas públicas – pode, simplesmente, cuidar de um parente idoso ou começar uma vida mais despojada e ligada à natureza ou à comunidade. Outros participantes consideram que a ED deve ser mais “concreta” e tangível, o que se liga à questão de uma ação “individual” ou “coletiva” – um membro do GTED resumia esta discussão como “o envolvimento é uma transformação pessoal que deve desembocar numa ação coletiva”. Na Grécia, um participante apontava o papel dos valores individuais e da pressão dos pares, como sendo essencial para ultrapassar o “KAP gap” ou seja, o desfazamento entre “conhecimento-atitude-prática”, reforçando a ideia que o envolvimento não é apenas individual, mas um percurso colectivo.

A reflexão anterior levou à discussão sobre se o envolvimento é um continuum, um percurso ou uma jornada. Os participantes portugueses consideraram que há várias fases de envolvimento ao longo de um continuum, sublinhando a importância de “ir ao encontro das pessoas onde elas estão” e das “necessidades em cada momento/estádio”. Isso significa escapar à tentação de julgar o envolvimento mais “juvenil” ou a-crítico, apesar da ED querer escapar a um envolvimento superficial: “é preciso ter níveis de entrada diferenciados”, rematava outro participante, e “não moralizar sobre o entusiasmo”, sob pena de desmotivar os mais jovens, por exemplo.

Constatou-se ser, por isso, necessário “criar” mais tempo para apoiar os percursos de envolvimento e incluir momentos de aprendizagem até numa campanha online – a promoção do encontro é aqui também valorizado. Isso liga-se à necessidade de desenhar as ações e projetos adaptados ao público-alvo e ao contexto, para servir os objetivos e atingir um real impacto.

A necessidade de simplificar o jargão das ONG, de abordar a complexidade dos temas da ED com perspetivas mais criativas, de aproximar as organizações do cidadão, permitindo a participação – foi a última das questões abordadas, que toca igualmente a questão da escala: tem de ser ponderada a estratégia consoante o impacto a atingir, pois não é possível envolver massivamente em mais que uma ação pontual. E a comunicação estratégica, alternativa, criativa, tem aqui um papel importante.

Quase a concluir a pesquisa, foi sumarizado um quadro das riquezas identificadas pela “comunidade da ED” que participou na pesquisa: os recursos potenciais das ONG ou através de parcerias estratégicas; as ferramentas e materiais que cada ONG já produziu ou aos quais tem acessos; o ciclo de projeto, útil para obter financiamento, monitorizar e desenhar projetos; a criatividade e a arte, muito ligada aos recursos humanos; a resiliência dos recursos humanos das ONG; a capacidade de dar contexto, trazer o global para o local e dar, por exemplo, enquadramento histórico ao presente e relembrar, mesmo em situações de crise, que a mudança é possível. E uma última riqueza: as redes e pontes, que não se resumem ao network, mas que a ligação a públicos ou organizações diversos pode conseguir – no caso desta pesquisa, a ligação entre os membros do GTED e os convidados de outras organizações ou contextos foi muito enriquecedora para os participantes – em Portugal, no Chipre e na Grécia já deram origem a atividades e ideias para projetos em conjunto.

E, para concluir, oito recomendações que podem ser úteis para a “comunidade de ED”:

  1. Clarificar o papel da “comunidade de ED/EG” – como envolvemos os cidadãos: apenas facilitando, construindo pontes, mobilizando para a mudança ou apenas sendo fonte de inspiração?;
  2. Fazer a ligação das realidades locais e das necessidades das pessoas – para poder ligá-las à realidade global;
  3. Permitir a apropriação pelos cidadãos – que viabilize a co-criação, participação, informando sobre os resultados obtidos por cada uma das organizações e dos agentes envolvidos;
  4. Criar novas abordagens e espaços para o envolvimento dos cidadãos;
  5. Desenhar as estratégias à medida para os cidadãos a envolver;
  6. Construir pontes – alianças, parcerias alargadas, partilha de conhecimento;
  7. Cultivar valores – apoiar crescimento em vez do envolvimento de curto-prazo;
  8. Não esquecer de respirar! E apreciar o caminho, a pausa, a vida.

 

Um parêntesis, a terminar: ED em Portugal?

Desde o primeiro momento, o DEEEP acreditou que estes estudos de caso nacionais servem uma comunidade mais vasta, a comunidade de facilitadores e técnicos de ED/EG a nível europeu. A resposta ao relatório tem sido muito positiva: a reflexão feita pelo GTED português e pelos membros das ONG gregas e cipriotas é inspiradora, realista nas questões centrais e aponta caminhos para uma melhor prática da ED ou da EG.

Para que todos possam entender o contexto destas reflexões, um dos primeiros capítulos é a descrição dos contextos nacionais – que sumarizamos de seguida.

Envolvimento dos cidadãos e a participação – Portugal sofre dos mesmos sintomas de boa parte das democracias: a participação nas tradicionais organizações da sociedade civil que diminui, a abstenção que aumenta a cada eleição e os limitados resultados das novas formas de participação e movimentos sociais, que não podem participar em eleições ou ter representação política. A confiança nas políticas e instituições públicas está no seu nível mais baixo e os “cidadãos estão mais disponíveis para se envolverem em causas de um dia só, usando os novos media e os mecanismos de participação tradicional – mas estão menos disponíveis para um envolvimento coletivo ou associativo contínuo”13.

A comunidade da ED e o GTED da Plataforma – O contexto da ED/EG em Portugal cresceu apoiado pela fundação da Plataforma das ONGD há 28 anos atrás. Fundada por uma dúzia de organizações muito diversas, a Plataforma nasceu num contexto de recente estabilidade política democrática, no ano da entrada na Comunidade Económica Europeia e de novos fundos disponíveis para as jovens ONG portuguesas – que também alimentou um novo interesse na cooperação internacional.

Em 2001 foi criado o grupo de trabalho de ED que, desde aí, percorreu um caminho acidentado. Foram anos de ativa discussão de conceitos e práticas de ED, de organização de Escolas de Outono e de uma Escola Europeia de Verão, em 2003 – treinando a primeira geração de facilitadores e técnicos de ED/EG.

Em Novembro de 2005, o documento “Visão Estratégica da Cooperação Portuguesa” definiu oficialmente a ED  – e salientava “É fundamental criar conhecimento e sensibilizar a opinião pública portuguesa para as temáticas da cooperação internacional e para a participação ativa na cidadania global (…) um importante factor de formação cívica.”. Ao mesmo tempo, abria a primeira linha de financiamento para projetos de ED que, apesar da interrupção em 2012, continua até hoje. Desde então, foi investido um total de € 4.556.990,38 em 105 projetos, implementados por 23 ONGD.

Mas o papel da ED tarda em receber reconhecimento dentro da própria Plataforma Portuguesa das ONGD. Um dos participantes nesta investigação reconheceu que, mesmo hoje, “por vezes a Direção não leva o GTED a sério, acha-nos uns idealistas e não entende o papel essencial que a ED tem de desempenhar nas decisões políticas.”

A Estratégia Nacional de ED –Os membros do GTED reconhecem que, por vezes, vivem num nicho de financiamento, públicos-alvo e tipo de ações – e desejam fortemente uma maior abertura, mas nem sempre sabem como a alcançar. Somam-se a visibilidade residual e o impacto reduzido – que, por vezes, parecem “filigrana”, um trabalho minucioso apenas acessível a alguns.

Um passo decisivo foi o processo de criação da Estratégia Nacional de ED (ENED), formalmente lançado pelo antigo IPAD (agora Camões, Instituto da Língua e da Cooperação, I.P.) – que assumiu um papel de facilitador do processo, conseguindo envolver várias instituições públicas e privadas, além das ONGD, todas as que de alguma forma têm trabalhado os temas da Educação Global, para a Cidadania e Desenvolvimento.

Um processo participativo e multi-stakeholder foi organizado para construir as estratégias, tipologias e objetivos da ENED até à finalização do documento, em abril de 2009. O mais importante foi, em novembro de 2009, a publicação oficial da ENED pela assinatura conjunta dos ministérios da Educação e dos Negócios Estrangeiros – e o plano de ação foi assinado por todos os stakeholders.

Mas, como foi manifestado num testemunho recolhido por altura do 25.º aniversário da Plataforma, “a influência dos ciclos políticos é visível na Cooperação Portuguesa, muito dependente da sensibilidade do Secretário de Estado”.

ED em Portugal hoje – No final de 2013, das 68 ONGD associadas da Plataforma, 14 são membros do GTED: ADRA, AIDGlobal, CIDAC, CPR, Engenho & Obra, FEC, Fundação Cidade de Lisboa, Fundação Gonçalo da Silveira, G.A.S. Porto, Graal, IMVF, ISU, PAR e Rosto Solidário. Os representantes reúnem mensalmente (geralmente 10 organizações estão presentes – aproximadamente o número das que participaram nesta investigação – e discutem as questões da ED, trocam experiências e planeiam atividades que reforçem a ED junto da sociedade civil).

O GTED teve um papel central na construção da ENED, que se tornou numa referência para a ação das ONG e de outras OSC (Organizações da Sociedade Civil). O grupo coopera também na implementação da ENED, contribuindo anualmente para o seu plano de ação e a avaliação.

O plano de ação do GTED para 2014 tem 3 objectivos: 1) alargar e solidificar o conhecimento da ED, incluindo a dimensão prática, em três níveis – GTED, Plataforma e outros agentes e atores específicos; 2) acompanhar e influenciar as políticas e grupos ou instituições nacionais e internacionais com uma ação relevante de ED; 3) reforçar a comunicação do GTED com o público em geral, a direção da Plataforma e o Camões I.P.

A meio caminho na implementação da ENED, com desafios financeiros e um contexto de políticas de austeridade económica em Portugal, o GTED defende que é tempo de olhar o trabalho feito até aqui e pensar no futuro. Esta pesquisa sobre o impacto (o que se quer alcançar com a ação de ED?) e a qualidade (como alcançar uma melhor prática da ED?) vai ao encontro destas questões das ONG – focada aqui no envolvimento dos cidadãos em prol da justiça social global. Esperamos que seja inspiradora.

 
 

 
[1] Sandra Oliveira é gestora de projetos na 4Change. Foi a investigadora portuguesa responsável pelo relatório de Qualidade e Impacto do DEEEP – projeto europeu do Fórum DARE, da Plataforma Europeia das ONGD, dedicado à ED ou à Educação Global.

[2] Os conceitos que estas duas expressões encerram não são fechados – mas são, hoje, talvez menos fraturantes para as ONGD que trabalham estes temas no seu dia-a-dia, do que eram no passado. A nível institucional, a expressão “ED” conseguiu reconhecimento – é o nome usado pela maioria das instâncias europeias da área. Em Portugal foi “oficializada” pela “Visão Estratégica para a Cooperação Portuguesa” (Cravinho, 2005) e pela “Estratégia Nacional de Educação pele Desenvolvimento” (IPAD, 2010) – e continua, por isso, a ser usada por razões estratégicas. A pesquisa revelou, no entanto, que há uma significativa maioria de organizações e técnicos mais identificados com o atual conceito de Educação para a Cidadania Global, por considerarem que o termo “Desenvolvimento” tem, ainda, um peso grande no perpetuar de paternalismos, intervencionismos e desigualdades, criticadas a vários níveis. Por esta razão, no início desta investigação-ação foi feito um parêntesis para clarificar alguns conceitos chave e solicitar a suspensão da dúvida quanto às diferenças de conceitos, para não prolongar a “clássica” discussão sobre o que é a ED/ECG e perder o foco do trabalho. Ao longo do artigo usamos as duas siglas, ED/ECG, com este múltiplo sentido.

[3] Paradigmas que, simplisticamente, são por vezes retratados como a oposição entre caridade e solidariedade, ou então opondo o paternalismo da palavra “desenvolvimento” à verdadeira “cooperação” entre pares de um mundo globalizado – mas que são mais radicalmente criticados, por exemplo, por John Hilary, da War on Want, por Matt Baillie Smith, da Universidade de Northumbria (nas comunicações da European Research Conference, 21 Novembro 2013, por exemplo) ou por Olivier Consolo, do CONCORD (na sua intervenção no Seminário organizado pelo GTED, em Lisboa, em Fevereiro 2014), pelo facto das ONG se terem transformado em parte do próprio sistema que deseja transformar – ou por serem uma “indústria” que se arrisca a tornar irrelevante se a própria mudança social que preconizam se tornar realidade através da intervenção dos cidadãos ou do papel da economia (e os atores económicos são já privilegiados no novo quadro de financiamento comunitário, por exemplo).

[4] Este é o primeiro “Quality and Impact Monitoring Report” feito na Europa para a área da ED/EG – que, em inglês, é chamada de DEAR – Development Education and Awareness Raising (Educação para o Desenvolvimento e Sensibilização).

[5] Pode ser traduzido como “O envolvimento dos cidadãos como um caminho” ou “Percursos de envolvimento dos cidadãos” - uma investigação-ação com facilitadores de ED/EG em Portugal, Chipre e Grécia”.

[6] Pode consultar aqui o European Development Education Monitoring Report (2010).

[7] Com esta ideia de “comunidade”, queremos referir o conjunto das ONG, dos facilitadores, dos técnicos de projetos de ED, a nível nacional e europeu.

[8] Ligadas à investigação na área ambiental, sobre as alterações climáticas e enquadrada sobre a ideia de transição de paradigmas, urgente num contexto pós-pico do consumo de petróleo (o Peak Oil) – surge ligada à rede de Transition Towns ou “movimento de Transição” como é usado o termo em Portugal.

[9] Como usado por Cormac Russel, Diretor da ABCD Network Europe and Nurture Development Ireland . Para mais informações, ver aqui

[10] Sobre este processo ver aqui.

[11] Disponível aqui

[12] Pode ver o vídeo aqui

[13] Viegas, José Manuel M. Leite L. Viegas, Susana Santos e Sérgio Faria (organizadores) (2010), A Qualidade da Democracia em Debate – Deliberação, representação e participação políticas em Portugal e Espanha, Lisboa: Editora Mundos Sociais.

 

 

Referências bibliográficas

  • Santos, A. T. (2013), A opção Multistakeholder como Pilar da Estratégia Nacional de Educação para o Desenvolvimento, Dissertação de mestrado não-publicada, ISCTE_IUL, Lisboa, Portugal.
  • Temple, G. And Laycock, A (2008) ‘Education for global citizenship:towards a clearer agenda for change’, in Bourn. (ed.) Development Education: Debates and Dialogues. IOE Press.